Bem-vindos a Heide
12 O TRIGO E O JOIO
Notas iniciais
CAPÍTULO 12: O TRIGO E O JOIO
A manhã de sexta-feira amanheceu com um céu de azul estéril, sem uma única nuvem para turvar o horizonte de Heide. No quarto dos Cullen, o ritual de despedida de Edward para o trabalho atingiu o ápice de sua voltagem dramática. O silêncio monitorado da casa parecia vibrar. Edward vestia o terno cinza, ajustando os punhos com uma lentidão calculada, enquanto Bella estendia as mãos para arrumar o nó de sua gravata de seda.
Seus olhos se encontraram. Não havia palavras permitidas, mas o olhar de bronze de Edward queimava com uma promessa desesperada: é a última vez que fingimos. Ele inclinou-se e a beijou. Não foi o toque mecânico dos dias anteriores; foi um beijo longo, sôfrego, que trazia o gosto da despedida e o peso de uma liberdade que custaria sangue.
— Tenha um dia perfeito, meu amor — Edward disse em voz alta, a voz mansa flutuando para os microfones ocultos. — Vejo você às vinte horas no pavilhão central para o jantar de gala. Esteja radiante.
— Eu estarei lá, Edward. Exatamente como você espera — Bella respondeu, forçando o sorriso plástico a moldar seus lábios.
Ela o acompanhou até a soleira. Às oito horas em ponto, o ônibus preto de vidros opacos da Fundação Familiar freou diante da calçada simétrica. Edward subiu os degraus sem olhar para trás. Bella acenou da varanda, permanecendo estática até que o veículo sumisse na avenida principal.
Quando a porta da frente se fechou, Bella desabou contra a madeira. Ela olhou para as próprias mãos; elas não tremiam mais. O medo havia sido substituído por uma frieza cirúrgica. Ela caminhou até a cozinha, lavou a xícara de café de Edward e começou a organizar os detalhes finais. Faltavam doze horas para o apagão de Jasper. Doze horas para o fim do teatro.
Para acalmar os nervos, Bella subiu até o quarto para arrumar a cama. O lenço de linho foi esticado, os travesseiros alinhados. Ela caminhou até o closet e retirou do fundo da gaveta de lenços a cartela de anticoncepcionais que Victoria lhe dera. Faltavam poucos comprimidos para terminar a fileira. Ela segurou o plástico metalizado, encarando o próprio reflexo no espelho do closet.
Um ruído sutil vindo do andar de baixo fez sua espinha enrijecer.
Não era o som de uma batida na porta. Era o estalido seco da fechadura de vidro da cozinha sendo forçada. O pânico, violento e primitivo, atingiu seu peito.
— Edward? — ela chamou, a voz saindo em um fio, sabendo que era impossível ser ele.
Bella deu dois passos em direção ao corredor quando a porta do quarto foi empurrada com força. Dois homens vestindo os ternos escuros e impecáveis da alta guarda da Fundação Familiar bloquearam a saída. Seus rostos eram completamente impessoais, desprovidos de qualquer traço de humanidade, e suas mãos exibiam luvas de couro preto pesadas.
— Sra. Cullen — o primeiro homem disse, a voz robótica e cirúrgica. — A Sra. Sulpicia Volturi solicita a sua presença imediata no complexo médico para o início do protocolo de indução celular. Houve um adiantamento no cronograma.
— Não... o jantar é só à noite... o Edward... — Bella tentou recuar, mas suas costas bateram contra o armário do closet.
— O Sr. Cullen já foi devidamente notificado no laboratório — o segundo guarda mentiu, avançando com uma rapidez predatória.
— Me larguem! Socorro!— Bella gritou, a paranoia transformando-se em um instinto selvagem de sobrevivência. Ela tentou desviar do primeiro homem, mas a luva de couro agarrou seu pulso direito com uma força de morsa, apertando os diamantes da pulseira riviera contra sua pele.
A cartela de anticoncepcionais escapou de seus dedos, caindo sobre o tapete branco do closet.
Antes que Bella pudesse emitir um segundo grito, uma mordaça de tecido grosso e embebido em um sedativo de cheiro adocicado foi pressionada contra sua boca e nariz. Ela lutou, chutando e arranhando o terno do guarda, mas o ar carregado com a química entorpecente invadiu seus pulmões. Seus joelhos fraquejaram. A visão do quarto perfeito de Heide começou a se fragmentar em manchas escuras. A última imagem que teve antes da escuridão total foi a de seu corpo sendo erguido como um fardo descartável, enquanto a porta de sua casa era deixada escancarada para o deserto.
Às onze horas da manhã, Alice e Victoria caminhavam apressadas pela calçada do quarteirão. Alice segurava uma caixa de chapéu vazia, o disfarce perfeito para justificar sua visita à casa de Bella para os preparativos do jantar de gala. Victoria mantinha os olhos verdes atentos a cada movimento dos carros de patrulha.
Ao dobrarem a esquina da casa dos Cullen, ambas estacaram.
A porta da frente estava escancarada. Não apenas destrancada, mas totalmente aberta, revelando a penumbra do hall de entrada. Em Heide, onde a segurança era uma obsessão institucional e nenhuma folha caía fora do lugar, uma porta aberta daquela maneira era o equivalente a um grito de socorro.
— Victoria... — Alice sussurrou, o rosto de fada perdendo toda a cor, os nós dos dedos congelando contra a caixa de chapéu.
— Entre rápido. Não corra — Victoria ordenou entre dentes, mantendo a postura firme enquanto guiava Alice para dentro da residência, fechando a porta atrás de si com um baque surdo.
A casa exalava um silêncio sepulcral. O cheiro de café fresco da manhã ainda flutuava no ar, misturado com um resquício sutil e químico de éter.
— Bella! — Alice chamou, o pânico quebrando a barreira do sussurro enquanto ela subia as escadas correndo, com Victoria logo atrás.
Ao entrarem no quarto de casal, o cenário do thriller psicológico se revelou. A cama estava arrumada, mas o tapete do closet exibia marcas de sapatos pesados. Victoria caminhou direto até o chão do closet e abaixou-se, recolhendo o objeto metalizado que brilhava sob a luz.
Era a cartela de anticoncepcionais de Bella, com várias pílulas ainda intactas.
— Eles a pegaram — Victoria sentenciou, a voz caindo como uma lâmina de guilhotina na escuridão do closet. Seus olhos verdes faiscaram de ódio. — Sulpicia não esperou pelo jantar. O alarme hormonal que o James tentou mascarar ontem no laboratório... eles cruzaram os dados. Eles sabem que ela estava resistindo.
— Meu Deus, não... a Bella não! — Alice desabou contra a parede, cobrindo a boca com as mãos, as lágrimas de luto por Emmett e Rosalie misturando-se ao pavor pela amiga. — O que eles vão fazer com ela, Victoria? Vão colocá-la na árvore? Vão esvaziar a mente dela como fizeram com a Rose?
Victoria segurou os ombros de Alice, sacudindo-a com uma severidade desesperada.
— Esqueça as lágrimas, Alice! Nós não temos tempo para chorar! — Victoria sibilou, os olhos colados nos dela. — Se o Edward e o Jasper descobrirem isso agora, eles vão invadir o laboratório armados antes do apagão e os guardas vão metralhar os dois. O plano de fuga vai virar um massacre.
— O que nós fazemos? — Alice perguntou, a voz trêmula, tentando buscar a força que Jasper sempre lhe pedia.
— Nós vamos procurá-la. Agora — Victoria determinou, guardando a cartela no bolso do vestido. — Eles não podem ter levado a Bella para a ala subterrânea ainda; o comitê de Aro está inspecionando o pavilhão do jantar de gala neste momento. Ela deve estar retida em alguma ala de triagem na superfície do complexo médico. Vista a sua máscara de porcelana, Alice. Nós vamos vasculhar aquela cidade até achar um rastro dela.
As duas mulheres desceram as escadas, deixando para trás a casa vazia dos Cullen. Ao saírem para o sol implacável de Heide, Alice abriu o mesmo sorriso plástico e irreal de sempre, enquanto Victoria assumia a altivez de uma esposa da diretoria. Sob o céu azul e perfeito da utopia de Aro Volturi, a caçada havia começado de forma cega, e a contagem regressiva para o apagão de sexta-feira agora corria com o sangue de Bella nas mãos do carrasco.
Alice e Victoria cruzaram as ruas perfeitamente alinhadas de Heide sob a luz opressiva do meio-dia, movendo-se com uma urgência que tentavam camuflar a todo custo. Cada esquina que dobravam parecia um labirinto de marfim idêntico, onde os aspersores de água giravam nos jardins com uma precisão matemática e os guardas da Fundação Familiar patrulhavam com olhares de vidro.
Elas foram primeiro ao clube de campo, forçando sorrisos e trocando cumprimentos vazios com as outras esposas, mas os olhos de Victoria vasculhavam cada espreguiçadeira, cada mesa de mármore. Nada. Em seguida, caminharam até o centro comunitário e a lavanderia central, usando o pretexto da caixa de chapéu de Alice para justificar a andança. A cada minuto que passava sem um rastro de Bella, o desespero subia pela garganta de Alice como veneno.
— Ela não está em nenhum dos setores sociais, Victoria — Alice sussurrou, a voz trêmula por trás do sorriso estático enquanto fingia admirar as flores de um canteiro planejado. — Eles a levaram direto para o complexo da Fundação. Ela está presa lá dentro.
— Então não há mais o que procurar na superfície — Victoria respondeu, os olhos verdes gélidos e focados. — Nosso tempo acabou. O sol está se pondo e os homens já devem estar se arrumando. Nós vamos encontrá-los direto no pavilhão do jantar de gala. É lá que o tabuleiro vai quebrar.
Às vinte horas em ponto, o pavilhão central de Heide exalava uma opulência aristocrática e doentia. Lustres de cristal maciço iluminavam as mesas longas cobertas de linho negro e prataria reluzente. A elite da Fundação Familiar movia-se pelo salão com a elegância de bonecas mecânicas.
Edward permanecia de pé perto da mesa principal, vestindo seu smoking cinza-escuro. Seus olhos de bronze varriam a entrada do pavilhão a cada segundo, o coração batendo em um ritmo violento contra o peito. Onde ela está?, sua mente gritava. O plano de fuga deveria começar ali, com Bella ao seu lado. Jasper e James estavam posicionados a poucos metros, mantendo a postura corporativa, mas com os corpos tensos como molas prestes a estourar.
Foi quando a porta lateral se abriu e Alice e Victoria entraram. Elas estavam sozinhas.
Edward sentiu o sangue sumir de seu rosto instantaneamente. Ele caminhou até elas com passos rápidos, interceptando-as no canto do salão, sob a sombra de uma imensa pilastra de mármore. Jasper e James moveram-se em sincronia, fechando o círculo ao redor das duas mulheres para bloquear a visão dos outros convidados.
— Onde está a Bella? — Edward disparou, a voz saindo em um sussurro rouco e desesperado, os dedos cravando-se na lateral de sua calça. — Alice, o que aconteceu?
Alice olhou para ele, os olhos dourados transbordando as lágrimas que ela passara horas prendendo. A máscara de porcelana de Heide rachou por completo.
— Edward... eles a pegaram — Alice soltou em um fio de voz despedaçado. — Nós fomos à sua casa. A porta estava escancarada. Eles invadiram pela manhã. A cartela de pílulas estava jogada no chão do closet... a Sulpicia adiantou o protocolo. A Bella foi levada pela Fundação.
A revelação atingiu o pavilhão invisível da sanidade de Edward. Seus olhos de bronze dilataram-se em um pânico primitivo e devastador. O ar pareceu sumir de seus pulmões enquanto a imagem de Rosalie e Angela passava como um flash de horror por sua mente. Elogiar Victoria ou sorrir para James no dia anterior não importava mais; o thriller psicológico havia desabado. Eles iam lobotomizá-la. Iam transformá-la em uma casca vazia.
— Não... não, não! — Edward arfou, a voz subindo de tom antes de Jasper segurar seu ombro com uma força brutal, mantendo-o no lugar.
— Controle-se, Edward! As câmeras estão focadas em nós — Jasper sibilou entre dentes, embora seu próprio rosto estivesse pálido como um cadáver, os olhos focados em James.
— O apagão estava programado para daqui a uma hora e meia — James disse, o suor frio escorrendo por sua têmpora enquanto ele ajustava o paletó. Seus olhos verdes faiscavam. — Mas se a Bella está na ala de indução da Fundação Família, nós não temos mais noventa minutos. O protocolo celular deles leva menos de uma hora para começar a destruir as memórias.
— O plano mudou —Edward sentenciou, a voz subitamente gélida, despida de qualquer medo, substituída por uma fúria assassina que Heide nunca vira nele. Ele olhou para Jasper e James. — Nós vamos invadir agora.
Abandonando o jantar de gala e as aparências, os três homens e as duas mulheres moveram-se pelas sombras do pavilhão até os fundos do estacionamento. James abriu o armário da cozinha externa onde a bolsa de lona preta fora transferida de última hora. O estalo seco dos ferrolhos das pistolas semiautomáticas ecoou na escuridão do deserto.
Edward pegou a sua arma, os nós dos dedos brancos contra o metal preto. Jasper distribuiu os pentes de munição com a agilidade de um predador pronto para a guerra. Eles não eram mais os maridos domesticados de Heide; eram os homens de Forks resgatando suas vidas.
Eles correram pelo pátio de concreto estéril até a entrada dos fundos do complexo da Fundação Família. James usou seu cartão magnético de diretor para quebrar a primeira trava eletrônica. A porta de aço pesado abriu-se com um suspiro pneumático, revelando o corredor de paredes brancas curvas e luzes indiretas de ozônio.
— James, corte a energia da ala sul agora — Jasper ordenou, assumindo o comando tático do grupo enquanto erguia sua pistola. — Esqueça os quinze minutos. Nos dê o apagão total.
James golpeou o painel de distribuição do corredor. Um estalo violento ecoou pela estrutura e as luzes brilhantes de Heide se apagaram de uma vez, mergulhando o complexo em uma escuridão absoluta, quebrada apenas pelos feixes vermelhos das luzes de emergência que piscavam de forma intermitente. As travas magnéticas das portas de segurança estalaram, liberando os acessos.
— Bella! — Edward rugiu na escuridão, correndo pelo corredor de metal com a arma em punho, os passos pesados ecoando como o som do silêncio finalmente rasgado naquela cidade de mentiras. Eles estavam dentro da boca do lobo, e não sairiam dali sem ela, mesmo que tivessem que queimar Heide até as cinzas.
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