Bem-vindos a Heide
13 O SANGUE NO MARFIM
Notas iniciais
CAPÍTULO 13: O SANGUE NO MARFIM
A luz vermelha de emergência pulsava nas paredes curvas do corredor, projetando sombras longas e distorcidas que pareciam garras na escuridão. O zumbido dos alarmes de baixa frequência vibrava no chão de metal. Edward liderava a investida, a pistola preta estendida à frente, cada fibra de seu corpo clamando pelo nome de Bella. Logo atrás, James ditava o ritmo, os olhos verdes focados no painel de mapas digitais que ele mesmo havia roubado.
— A ala de triagem cirúrgica fica no final deste bloco, à esquerda — James sussurrou de forma urgente, a voz ecoando sob o teto baixo. — Se passarmos pela segurança central, a Bella está...
O som de um estalo seco cortou o ar antes que James pudesse terminar a frase.
De uma bifurcação escura à direita, uma patrulha da alta guarda de Heide surgiu. O cano de um rifle de assalto reluziu sob o feixe intermitente da luz vermelha. Não houve aviso. Não houve voz de comando. Apenas o clarão violento de um único disparo de precisão.
A bala atingiu James diretamente na lateral da cabeça.
O impacto foi brutal e instantâneo. O corpo do diretor tombou para o lado com um baque surdo, o sangue escuro sujando o mármore branco do corredor antes mesmo que ele atingisse o chão. Ele morreu na hora, com os olhos verdes ainda abertos, encarando o teto estéril da Fundação Família que ele tanto tentara combater.
— JAMES! — O grito de Victoria rasgou o corredor, um som cru, estridente e carregado de uma agonia que nenhuma lavagem cerebral em Heide seria capaz de silenciar.
Esquecendo-se dos guardas ou dos disparos que começaram a ricochetear contra as paredes de metal, Victoria desabou sobre o corpo do marido. Ela colou o rosto contra o peito dele, as mãos de unhas impecáveis cobrindo-se de sangue enquanto ela tentava, em vão, estancar o ferimento.
— Não, não, não! James, acorda! Por favor, meu amor, não me deixa aqui! — ela soluçava de forma violenta, o corpo tremendo por inteiro.
Os guardas avançavam, as botas pesadas batendo contra o chão. Jasper empurrou Alice para trás de uma pilastra e começou a responder ao fogo, os estalos de sua pistola semiautomática preenchendo o ambiente com um barulho ensurdecedor. Dois guardas caíram na escuridão.
— Edward, precisamos recuar! — Jasper rugiu, os olhos de ex-militar fixos na linha de tiro. Ele olhou para Victoria, que continuava agarrada ao cadáver. — Victoria, levanta! Temos que ir agora!
— Eu não vou a lugar nenhum! — Victoria gritou de volta, o rosto manchado de sangue e lágrimas, os olhos verdes faiscando com uma fúria suicida. Ela segurou a jaqueta de James com força.— Me deixem aqui! Eu quero ficar com o meu marido! Eu prefiro morrer aqui com ele do que viver mais um segundo nessa maldita cidade! Deixem-me!
— Não há tempo! — Edward sentenciou, a dor pela perda do aliado misturando-se à urgência selvagem de salvar Bella.
Ele deu um passo à frente, ignorando os protestos dela, e agarrou Victoria por um dos braços com uma força brutal. Jasper moveu-se em sincronia, prendendo a mulher pelo outro ombro. Juntos, os dois homens arrancaram Victoria do chão à força, arrastando-a pelo corredor enquanto ela lutava, chutava e batia contra o peito de Edward, implorando para ser deixada para trás.
— Me soltem! Seus monstros, me deixem com ele! James! — ela clamava, a voz quebrando em um fio de desespero enquanto era levada para longe do corpo do homem que sacrificara a vida pela liberdade deles.
Deixá-la ali significaria entregá-la ao mesmo carrasco que executara Emmett. A dor de Victoria era um peso físico, mas Jasper e Edward avançavam como tratores, empurrando-a para os fundos do bloco médico enquanto Alice cobria a retaguarda com os olhos arregalados de terror.
As luzes vermelhas de emergência piscaram de forma violenta. O sistema de geradores de backup que Jasper sabotara começou a emitir um estalo agudo. Os quinze minutos de janela estavam se esgotando; as travas magnéticas das portas de aço ameaçavam se fechar a qualquer momento, trancando todos na boca do lobo.
Edward usou o próprio corpo para arrombar a porta dupla de carvalho que ostentava a placa Ala de Triagem 04. A madeira cedeu com um estalo violento.
Lá dentro, sob a luz azulada e fria dos monitores cirúrgicos, o cenário do thriller psicológico atingiu o ápice de sua crueldade.
Presa por tiras de couro pesado a uma maca metálica central, estava Bella. Seus braços exibiam agulhas e tubos plásticos por onde um líquido translúcido já começava a gotejar. Dois médicos de Heide, vestindo aventais brancos imaculados, seguravam seringas eletrônicas prontos para iniciar o coquetel químico que apagaria suas memórias e resetting sua mente para sempre.
Ao ver a porta ser estilhaçada, Bella ergueu a cabeça com dificuldade, os olhos castanhos semiabertos pelo sedativo inicial lutando para focar na figura borrada de seu marido.
— Ed... ward... — ela balbuciou, a voz saindo fraca, enquanto o sangue de James pingava do smoking cinza do homem que cruzara o próprio inferno de Heide para buscá-la.
Edward não hesitou. Antes que os médicos de Heide pudessem processar a invasão ou pressionar qualquer botão de pânico, ele avançou como um predador. O primeiro médico mal teve tempo de soltar a seringa eletrônica antes que Edward o derrubasse com um golpe violento usando a coronha da pistola. O segundo recuou contra os monitores, com as mãos erguidas em pânico, mas Jasper o imobilizou rapidamente, jogando-o no chão e arrancando os cabos de comunicação do painel da parede.
— Bella! Meu Deus, Bella, olha para mim! — Edward clamou, largando a arma sobre a maca por um segundo para soltar as tiras de couro que prendiam os pulsos e os tornozelos dela.
Com os dedos trêmulos, ele arrancou os acessos agulhados de seus braços. Bella soltou um gemido de dor, mas o alívio de sentir as mãos de Edward segurando seu rosto a fez focar o olhar. O sedativo ainda nublava sua mente, mas a adrenalina de vê-lo ali limpou parte da névoa.
— Edward... você veio... — ela sussurrou, a voz fraca, enquanto ele a erguia nos braços, trazendo-a contra o peito.
— Eu sempre vou vir buscar você, Bella. Sempre — ele prometeu, os olhos de bronze brilhando com uma intensidade feroz.
Alice aproximou-se rapidamente, ajudando a apoiar Bella, enquanto Jasper vigiava a entrada da sala. Foi nesse momento que o som que todos temiam ecoou pelos alto-falantes do teto: o estalo agudo dos geradores de emergência voltando à vida. As luzes vermelhas de emergência piscaram e se estabilizaram em um tom amarelo contínuo. As travas das portas começaram a apitar, preparando-se para o bloqueio magnético total do complexo.
— O tempo acabou! — Jasper rugiu, checando o corredor pelo visor de vidro da porta. — A alta guarda está bloqueando a saída principal do bloco. Estamos cercados. Não vamos conseguir chegar até os carros a tempo com a Bella nesse estado.
Foi então que Victoria deu um passo à frente. O choro e os soluços que a consumiam no corredor haviam desaparecido, substituídos por uma calmaria fria, assustadora e absoluta. Ela olhou para as mãos cobertas pelo sangue de James, depois para o painel de controle principal da ala cirúrgica, onde as linhas de distribuição de oxigênio gasoso e os tanques de indução celular estavam interconectados.
— Vocês vão conseguir sair — Victoria disse, a voz chocantemente firme, ecoando pela sala cirúrgica com uma clareza que sobressaltou a todos.
— Victoria, do que você está falando? Vamos! — Alice chamou, tentando segurar a mão dela.
Victoria se esquivou delicadamente, olhando para Alice e depois para Bella nos braços de Edward. Um sorriso triste, mas terrivelmente determinado, surgiu em seus lábios.
— James me deu os códigos de acesso master antes de entrarmos aqui. Eu sei como funciona o protocolo de purga térmica deste laboratório — ela revelou, caminhando até o terminal central de computadores e digitando uma sequência rápida de comandos. Na tela, um cronômetro digital de sessenta segundos começou a correr em linhas vermelhas. — Eu disse ao James que não viveria mais um segundo neste inferno sem ele. E eu não vou.
— Victoria, não! — Bella tentou protestar, a voz ainda arrastada pelo sedativo, mas os olhos arregalados de choque.
— Escutem-me! — Victoria interrompeu com autoridade, os olhos verdes faiscando. — Há uma rota de escoamento de resíduos hospitalares logo atrás daquela parede de fórmica. Ela dá direto no duto de ventilação do quadrante sul, fora do perímetro dos portões. Corram por lá. Agora!
Ela esticou o braço e arrancou uma das pistolas do cinto de Jasper, apontando-a diretamente para os imensos tanques de pressurização química e oxigênio líquido que alimentavam o subsolo da Fundação.
— Eu vou dar a vocês a distração definitiva. No momento em que eu atirar nesses tanques com o sistema em superaquecimento, esta ala inteira vai virar cinzas. Aro vai achar que todos nós morremos na explosão. Vocês estarão livres. Fantasmas no deserto.
— Victoria, você vai morrer! — Alice gritou, as lágrimas inundando seu rosto de fada enquanto Jasper a puxava pela cintura, sabendo que a lógica militar daquela mulher era a única chance de sobrevivência do grupo.
— Eu vou me juntar ao meu marido, Alice — Victoria respondeu, olhando para o cronômetro que agora marcava trinta segundos. Ela olhou diretamente para Bella. — Vivam. Quebrem a porcaria dessa redoma e nunca olhem para trás.
Jasper não esperou. Usando toda a sua força, ele desferiu um chute violento contra a placa de fórmica da parede indicada por Victoria, revelando a escotilha de metal do duto de escoamento. Ele empurrou Alice primeiro e depois ajudou Edward a passar com Bella, que se agarrava ao pescoço do marido, em choque com o sacrifício que estava prestes a testemunhar.
Antes de entrar no duto, Edward olhou uma última vez para trás. Victoria permanecia de pé no centro da sala cirúrgica iluminada de amarelo, segurando a arma com as duas mãos, apontada para os tanques criogênicos. Ela não tremia. Ela parecia uma estátua de pura libertação.
— Obrigado, Victoria — Edward disse, a voz embargada.
Ela apenas assentiu com a cabeça.
O grupo deslizou pelo duto de metal em uma descida frenética e claustrofóbica. Eles mal haviam alcançado a abertura de concreto que dava para a areia fria do deserto, do lado de fora dos muros de Heide, quando o mundo ao redor deles pareceu vir abaixo.
O chão tremeu violentamente.
Um estrondo ensurdecedor, que pareceu rasgar o próprio céu do deserto, ecoou pelas estruturas de marfim. Uma imensa bola de fogo laranja e destrutiva rompeu pelas janelas superiores do complexo da Fundação Família, lançando estilhaços de vidro e metal retorcido contra a noite. A ala de triagem, os laboratórios de indução celular e tudo o que Aro usava para controlar a vida e a mente das pessoas no quarteirão sul estava sendo consumido pelo fogo de Victoria.
Caídos na areia, sob a luz violenta das chamas que iluminavam a noite de Heide, o grupo permaneceu em silêncio. Alice chorava escondida no peito de Jasper, enquanto Edward mantinha Bella firmemente apertada contra si. Bella olhou para o incêndio, sentindo o calor da explosão em seu rosto. James e Victoria haviam ficado para trás, mas o sangue deles havia comprado a maior reviravolta daquela utopia de mentiras: os Cullen estavam vivos, estavam fora dos muros, e a caçada humana no deserto estava prestes a começar.
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