Bem Vinda Ao Campo
2 Visita ao Médico
“Bem vinda ao campo”
Anne estava surpresa, para não dizer espantada com a frase do major. Como podia ele lhe dar boas vindas àquele inferno?
– Vai me levar para o barracão especial? – indagou em voz baixa.
Heinrich não se voltou para ela, continuou andando em seu passo firme, militar. A cigana chegou a crer que a resposta sequer chegaria.
– Não.
A voz dele era definitivamente misteriosa. Fria, sim quase mecânica, mas tinha alguma coisa, um magnetismo naquela voz que fazia que qualquer um aquiescesse ao que fosse dito naquele tom macio e grave.
– Para onde vai me levar então?
Mais um longo período de silêncio. Anne estava tão focada em observar aquele homem quieto e inquietante que mal se dava conta de que já estavam bastante longe do pátio onde se encontraram.
– Ao médico. E agora basta de perguntas.
É lógico que ela poderia protestar, e enchê-lo de perguntas, exigir que ele lhe contasse porque a estava levando ao médico, mas simplesmente não fez. Não conseguia se impor ao silencio perturbador dele, à sua tranquilidade estranha.
A cada passada longa das botas pretas, Anne precisava dar duas para acompanhar. O major era realmente muito alto, talvez tivesse pouco mais de 1,90, parecia uma estátua de guerra, grande, forte, fardada. A cigana estava impressionada.
Von Veltheim não era como Engels ou aqueles outros soldados borra-botas que caçavam e levavam ciganos para os campos de concentração. Ele parecia superior à tudo aquilo, como se pequenezas do cotidiano não pudessem afetá-lo.
Era bonito, de fato, porém a suástica em seu braço causava tremores em Anne, que não sabia exatamente se devia temê-lo ao agradecer por ele ter evitado que lhe estuprassem.
– Porque está parada?
A cigana piscou, não se dera conta, estava parada fitando o major que já estava à bons passos de distância.
– Perdão...
– Mais rápido.
Fez que sim com a cabeça, apressou-se para alcançá-lo, sentia como se ele tivesse lhe posto uma coleira invisível no pescoço.
Caminharam por mais algum tempo, não estavam mais ao ar livre. Agora passavam por um longo corredor iluminado, todo branco, de modo que chegava a ofuscar a vista. Vez ou outra Anne se deparava com nazis no caminho, alguns guardando as portas, outros somente passando como eles.
O certo e que todos os oficias que avistavam o major Von Veltheim andando ao lado de uma cigana completamente suja, ali no barracão médico dos soldados se voltava para olhar mais uma vez. Quão irreal poderia ser aquela cena?
– Venha... – disse Heinrich fazendo um sinal para que Anne entrasse com ele em uma sala.
Era ali o destino, a sala do médico. A cigana tinha medo, não gostava de médicos, menos ainda de médicos nazista, não podia ser bom.
– Dr. Krämer. – disse Heinrich saudando.
– Major Von Veltheim, a que devo a visita?
Era um homem simpático o Dr. Krämer, não poderia ter mais de 30 anos e tinha uns olhos verdes muito vivos. Não era nem de longe o que Anne esperava de um médico nazista, parecia ser bom.
– Preciso que examine essa cigana para mim.
– Mas ela não devia ser examinada lá em baixo e...
– Vou ficar com ela, quero que você examine.
O estômago de Anne se revirou ao ouvir aquilo. Heinrich não tinha lhe salvado de nada, só tinha lhe reservado para que ele mesmo pudesse infligir o castigo.
– Não vou deixar que me toquem! Fiquem longe de mim!
O major fitou-a, que olhar frio. Não disse nada, apenas a olhou daquele jeito gélido e garota se calou.
– Não vou lhe machucar moça, é só um procedimento técnico, para saber se você não está doente. A viagem até aqui é muito dura, muitos chegam quase mortos. – disse o médico em tom apaziguante.
Anne não sabia o que dizer, não devia confiar naquele médico ou em Veltheim, mas se um por um lado parecia superior o outro era como um igual, realmente parecia bom.
– Não estou doente.
– Ainda assim é preciso fazer alguns exames, algumas perguntas, em seguida libero você.
– Eu vou esperar do lado de fora, e você obedeça ao Dr. Krämer. Volto em breve.
***
O major saiu do barracão médico em passos rápidos, sua cabeça girava assim como seu estômago. Não gostava do cheiro da ala hospitalar, lhe dava náuseas, e por isso visitava o amigo Rudolph, ou Dr. Krämer, menos do que poderia.
Do lado de fora, com o ar frio lhe golpeando a face parecia ser mais fácil pensar e quanto mais pensava mais se sentia idiota. Não devia ter pego aquela garota para si, não gostava dessa ideia de tomar moças ciganas como animais de estimação, muitos oficiais faziam isso, ele no entanto costumava repudiar a prática, achava muito humilhante para as moças.
Mas afinal, se não tivesse feito isso seria muito pior, aquela garota era atrevida e bonita, uma combinação que não podia surtir bons resultados num lugar como Auschwitz.
Sabia bem o que teria acontecido se não tivesse chegado a tempo. Ouvira a gritaria de seu aposento e mais um minuto de atraso e a cigana teria sido estuprada. Odiava a postura de alguns oficiais, como dizer que ciganos eram pragas humanas, tanto quanto os judeus e ainda assim se deitar com as ciganas?
Veltheim não pensava assim, não achava que eram pragas. Mas se o Führer dizia que era preciso se livrar deles, que fosse. O major só gostaria que fizessem isso de uma forma mais rápida e mais honrada, sem que eles tivessem que morrer aos poucos, degradados.
Ainda que achasse um erro ter tomado a moça cigana, deixá-la agora seria um erro muito maior, Engels provavelmente estava louco para se vingar e os outros soldados a considerariam um tipo de prêmio. Estava atado àquele compromisso, pelo menos por algum tempo, até que um novo carregamento chegasse e se esquecessem de que aquela garota existia.
Sorriu de leve ao lembrar do rosto dela. Parecia ser bastante bonita apesar de estar muito suja e com a roupa em frangalhos, os seios pelo menos eram lindos, firmes. Sorriu novamente.
O sorriso se fechou num piscar de olhos, lembrou-se que não tinha e nem devia ter qualquer outro tipo de intenção. Havia impedido que lhe fizessem mal, não faria sentido se ele fizesse o mesmo.
Percebeu que não se sentia mais enjoado, só estranho. Não sabia porque tinha ficado em seu gabinete até aquela hora, não sabia porque havia intervido na situação e muito menos porque ficara com a moça.
Compreendia, porém, que se isso tudo havia acontecido algum motivo maior deveria ter. Não que acreditasse em destino, achava que era uma tremenda bobagem, acreditava que Deus e seus planos eram misteriosos, mas ainda assim corretos.
***
Heinrich deu cerca de dez voltas pelo pátio, pensando e fazendo hora para que a consulta acabasse. Não queria ter que estar por mais tempo que o necessário na sala fedida de álcool e desinfetante.
Bateu na porta, não sabia se devia entrar ou não.
– Entre. – disse Krämer com uma voz de riso.
E estava mesmo sorrindo. Sentado em sua cadeira, sorria para a moça cigana sentada na maca, que também sorria.
– A consulta já acabou?
– Sim. E...
– Venha falar comigo do lado de fora. – pediu o major sério.
– Certo, Anne espere aqui por favor.
A garota fez que sim, e o médico ao sair encostou a porta delicadamente.
– Pois não Heinrich?
– E então, ela está doente?
– Não, está bastante saudável. Surpreendentemente saudável.
– Anne? É o nome dela?
– Sim, Anne Kubícek.
– Quantos anos tem?
– Dezessete.
– Meu Deus...
– Heinrich, você vai fazer o que eu penso que vai?
– É claro que não.
– E então?
– Engels estava quase estuprando ela no pátio, intervi e sem querer acabei me responsabilizando por ela, agora ela é minha.
– Você não precisa...
– Eu não posso deixar ela agora.
– Se pretende fazer isso para resguardá-la, eu acho que é um bom gesto ou como você diria, um gesto cristão. Fico feliz em ver você indo contra esse sistema.
– Juro que se começar com essas suas ideias conspiratórias Rudolph...
– Não está mais aqui quem falou.
– Bom, se diz que ela está bem vou levá-la e já, odeio esse cheiro...
– Heinrich.
– Sim.
– Seja paciente. Ela é uma boa moça.
O major revirou os olhos, não precisava que Rudolph lhe desse conselhos sobre como tratar uma garota. Acompanhou-o sala porta adentro.
Anne estava esperando, parecia uma criança sentada na maca balançando os pés, um encanto, mas estava realmente muito suja.
– Vamos.
Achou que Anne fosse perguntar para onde iriam, mas ela apenas pulou para o chão, passou por ele como se não o visse.
– Até Dr. Krämer, foi bom lhe conhecer. – disse ela num sorriso.
– Até a vista Anne, o prazer foi meu em lhe conhecer.
Heinrich estava perplexo, deixara Anne e Rudolph sozinhos por alguns minutos e agora se tratavam com toda aquela amizade.
– Vamos. – repetiu ele – Até a vista Rudolph.
– Só um minuto major. – Rudolph recolheu um papel de cima da mesa e o entregou a Heinrich. – É a ficha dela, examine e depois me devolva.
– Obrigada.
– Sabe que infringimos algumas regras aqui não sabe?
O major sabia. Diversas regras. Anne devia ter sido mandada para que os médicos dos prisioneiros a examinassem, tatuassem e esterilizassem, e depois deveria ter sido deixada em quarentena, para só então ser liberada. Nada disso fora feito.
– Não significa que não cumpriremos mais tarde.
A moça os observava sem entender do que falavam, de todo o modo, achava que tinha sido ótima sua visita ao médico, a melhor parte de seu dia.
– Eu espero que não cumpramos.
– Até a vista Rudolph. – repetiu Veltheim.
Não esperou pelo cumprimento do amigo, saiu andando quase que em marcha com Anne em seus calcanhares.
Dessa vez, mais calma, Anne se permitia prestar atenção no caminho. Aquele lugar não parecia com o gueto onde fora confinada há um ano, nem com o que ela imaginava ser um campo de concentração. Era um hospital, perfeitamente limpo, organizado, branco.
A única coisa suja ali era ela, há tempos que estava impedida de tomar banho, sentia em si o cheiro de um cachorro vira-latas que rolara no lixo e depois tomara chuva. Sentiu vergonha.
– Major Von Veltheim!
– Major Astner.
– Que surpresa o senhor aqui com uma cigana...
A malícia na voz do recém-chegado, Major Astner, era quase palpável. Anne sentiu medo, involuntariamente escondeu-se atrás de Veltheim.
– Eu resolvi pegá-la.
– Está bem suja, mas parece ser bonita. Pensei que não concordasse com essa prática major, mas vejo que mudou de ideia.
– Foi um acaso. Se não se importa, preciso ir.
Mais uma vez Heinrich saiu antes de ouvir o cumprimento do outro, e dessa vez Anne correu em alcançá-lo.
Talvez aquele encontro com outro major tivesse afetado Veltheim de algum modo, porque ele começou a andar tão depressa que ela estava precisando dar quatro passos para acompanhá-lo.
Finalmente estavam fora do barracão médico, Heinrich respirou fundo, olhou para o céu, que lua bonita.
Continuaram a caminhar, Anne estava impressionada por ver a organização daquele lugar, pequenos prédios por toda a parte, tudo relativamente novo. Bastante sóbrio. Entraram em um dos pequenos prédios, a cigana percebeu que os oficiais nazistas na porta sorriram à sua passagem.
Percebeu também que Veltheim os ignorava, e que ele estava andando depressa como se tivesse vergonha de ser pego ali com ela. Achou graça e ao mesmo tempo estranho, se tinha vergonha, porque a estava levando consigo?
– Venha.
O major era um homem de ordens, isso estava claro. Curtas ordens, secas, que exigiam resultados imediatos.
Anne o seguiu, subiram uma escada que deu em um corredor longo e acarpetado, cheio de portas, parecia um hotel. Viu nomes escritos nas portas.
Quando já estavam quase no fim da passadeira vermelha, na penúltima porta da direita, Anne viu escrito “Maj. Von Veltheim”. Ao mesmo tempo em que ela lia, o próprio major tirava uma chave do bolso e a girava na fechadura.
– Entre.
Entrou. Era mesmo como um hotel, ali era um quarto. Tinha uma cama de casal com criados mudos ao canto, uma escrivaninha com cadeira, um armário e uma porta que provavelmente daria em um banheiro.
Heinrich passou por ela, adiantou-se para a escrivaninha, estava cheia de papéis, jogou-os dentro da gaveta da própria mesa, trancou e guardou a chave consigo.
– Vá se lavar, o banheiro é logo ali, vou providenciar roupas limpas.
Anne concordou, sumiu dentro do banheiro antes que o major pudesse dizer mais alguma coisa.
– Espero não ter cometido um erro grande demais... – suspirou Veltheim pouco antes de sair e trancar a porta do quarto.
Notas finais
Heinrich ficou bem confuso, vamos ver como ele sai dessa (ou não sai né? ;D)
Beijos e obrigada.
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