Bem Vinda Ao Campo
3 O "Barracão Especial" e Roupas Novas
Veltheim não gostava daquele lugar, para ele se tratava de se aproveitar das desgraças alheias. Repudiava o “barracão especial”.
– Major Von Veltheim?!
Não era à toa a surpresa do soldado nazi à porta do barracão, o major nunca ia ali. Heinrich tinha nojo, mas se via obrigado a ir, precisava de roupas limpas para Anne já que as que ela possuía não passavam de trapos sujos.
– Preciso de algumas mudas de roupa, e sapatos.
– Perdão, como major...?
Veltheim não respondeu, passou pela porta ignorando-o. Se dirigiu ao oficial sentado atrás de uma mesa.
– Preciso de roupas e sapatos.
– Posso arranjar Major Von Veltheim, com um preço é claro...
– Isso não é problema.
– Perdão pela curiosidade major, mas para que precisa das roupas femininas?
– Resolvi pegar uma cigana. Ela precisa das roupas.
– Claro, compreendo... – o oficial compreendia, só não acreditava que aquilo estava acontecendo – Do que precisa?
– Tudo, vestidos, roupas intimas, sapatos, meias, camisolas, tudo.
– Deixe-me ver...
O oficial sumiu por uma porta, demorou-se um pouco. Enquanto o outro não voltava, uma moça apareceu, bem jovem, deveria ter sido bonita em algum momento, agora parecia um flor murcha.
– O senhor quer entrar comigo...? – indagou numa voz fraca, sotaque eslavo carregado.
– Não, não faço isso.
A moça sorriu, não um sorriso alegre, parecia ser de escárnio.
– Nunca fazem, até o dia que resolvem fazer...
Heinrich sentiu arrepiar os pelos na nuca. Não parecia ser só uma frase, era como se a mulher tivesse feito uma profecia, ou o amaldiçoado.
– Eu não faço isso.
– Essas eslavas se oferecem para todos, major. – disse o oficial ao reaparecer — Saia daqui puta suja!
A eslava obedeceu, saiu apressada, mas antes deixou um olhar carregado posto sobre Veltheim que arrepiou-se mais uma vez.
– As ciganas costumam ter mais dignidade, mas abrem as pernas do mesmo jeito...
– Eu gostaria de ver logo as roupas. – cortou Heinrich incomodado – Se não se importa.
– De maneira alguma major, aqui estão, trouxe tudo o que o senhor pediu, o que tinha de melhor qualidade.
– Não sei escolher roupas para mulher, preciso de três vestidos, algumas peças intimas, meias enfim. Acho que três de cada é o suficiente.
– Não quer escolher nem a cor major?
– Isso não faz diferença.
O oficial deu de ombros, tinha já alguma experiência em escolher roupas, era ele mesmo que as comprava. Separou as peças que achou melhores, mais bonitas, assim poderia cobrar mais caro e colocou-as dentro de sacos de papel.
– Aqui está major
– Obrigado. Faça as contas, depois mande me entregar.
Saiu apressado, queria voltar logo para seu aposento, e mais, queria deixar imediatamente aquele lugar horrível.
***
Se naquele momento perguntassem à Anne qual era a melhor sensação do mundo, provavelmente ela diria que era se sentir tão limpa. Não tinha a menor vontade de sair debaixo do chuveiro.
Não pensava no lugar em que estava, no que lhe aconteceria ou o que teria de fazer. Só importava que a água era quente, que o sabonete era perfumado e que agora seus cabelos não eram mais um emaranhado de nós.
– Anne!
E então o encanto mágico do banho passou, a voz do major lhe causou medo pela primeira vez.
– Anne, saia do banho, trouxe roupas.
Estava assustada, mas desligou o chuveiro mesmo assim. Enrolou-se na toalha, sentiu que ela cheirava como o major, um cheiro bom, masculino, intenso.
Destravou a porta, abriu-a pela metade, espiou Veltheim parado com sacos de papel.
– As roupas... – disse ao lhe entregar os sacos.
Parecia que ele estava constrangido, mais do que ela, olhava disfarçadamente para o lado. Anne agradeceu, quase um sorriso, fechou a porta.
***
Enquanto a moça se vestia, Heinrich tentava por os pensamentos em ordem. Estava abalado.
Imaginara que ela era bonita, era possível ver mesmo com todo o pó e sujeira, mas limpa, molhada e enrolada em sua toalha, Anne parecia devastadora.
A lembrança das palavras daquela prisioneira eslava lhe causavam mal estar, por breves segundos a profecia da mulher poderia ter se tornado verdade. Afastou essas ideias, era desconfortável tê-las na mente.
Buscou pela ficha médica que Rudolph lhe entregara, achou-a dentro do bolso, meio amassada. Passou os olhos no papel.
Anne Kubícek. 17 anos. Cigana. Etnia Rom. Mestiça (Pai Ariano). Não sexualmente ativa.
Parou ali, Anne era virgem, não saberia dizer se aquilo aumentava ou diminuía seu interesse. Guardou a ficha no bolso novamente. Respirou fundo.
Gostaria que ela saísse logo do banheiro, vestida, assim parava de lembrar do seios dela escapando do vestido rasgado.
– As roupas lhe cabem? – indagou pela porta.
– Sim! – afirmou ela de dentro do banheiro.
– Saia logo.
A cigana não respondeu, demorou mais alguns minutos, abriu a porta e saiu. Os cabelos ainda úmidos estavam soltos, caindo sobre o vestido azul escuro, contraste interessante, que de imediato chamava atenção para os olhos claros e para a curiosa combinação que eles faziam com a pele morena.
– Está melhor agora. – disse Heinrich, a voz rouca.
Anne o observava, nada dizia, não tinha nada a dizer. Esperava.
– Tem fome? – indagou ele.
– Sim.
– Acho difícil arranjar comida agora, mas dentro do armário tem alguns biscoitos, coma à vontade. Vou providenciar para que tragam refeições para você amanhã.
Veltheim calou. Percebeu que não tinha nada mais a dizer, nunca se imaginara naquela situação, não sabia o que devia fazer.
– Porque está sendo tão gentil?
A pergunta que ele esperava, tinha planejado a resposta.
– Provavelmente não vai acreditar em mim, mas apesar de tudo sou um homem cristão. Não gosto que prolonguem o sofrimento além do necessário aqui nesse lugar. Faço o que faço pela Alemanha, sou um soldado, é o meu dever, mas se posso diminuir o seu sofrimento, sinto que fiz minha parte.
– Tem razão. Não acredito em você. – disparou Anne, categórica – Não creio que seja esse o seu motivo.
– Imagino o que você considere ser o meu motivo Anne, e quanto a isso, se fosse o caso eu já teria feito.
A cigana sentiu um aperto no peito, lembrou do medo que sentiu quando Engels levantou suas saias. Tinha perfeita noção de que Veltheim poderia fazer o mesmo assim que quisesse, e sentia que ele, ao contrário de Engels, não precisaria de ajuda.
– Não frequento o barracão especial, não me envolvo na solução final, comando homens, porque é o meu trabalho. – explicou o major — E principalmente, nunca me deitei com uma mulher que não me quisesse.
– Major, se não se envolve na solução final, porque interviu por mim?
– Não sei lhe dizer, não costumo ficar aqui até tão tarde, já deveria estar em casa. Hoje fiquei, ouvi os gritos, vi o que estava acontecendo pela janela. Senti que deveria fazer alguma coisa.
Anne sorriu, naquele mesmo dia ao chegar a Auschwitz havia observado a lua, pressentiu que ela lhe reservava algo. Acreditava nisso, e começava a acreditar em Veltheim, não em suas palavras, em seus olhos.
– Obrigada, por tudo. – disse ela.
– Não me agradeça.
A mesma frase de antes, dessa vez menos dura. Heinrich não conseguia parar de olhar para ela. Não tinha mais o que fazer, deveria ir embora, mas não podia se mover, deveria ir para casa, dormir, mas não conseguia.
Anne era bonita, não do jeito convencional, o rosto era muito delicado, mas aqueles olhos cor de gelo tinham um ar felino, selvagem, alguma coisa que ele, Heinrich nunca conseguiria explicar.
Eram os olhos o que mais acentuava o traço ariano presente na moça, mas também eram o que havia de mais cigano nela. Eram perigosos, indecifráveis, e encantadores.
– Major...
O major piscou, desfez-se o estado hipnótico, e ele retomou a postura indiferente e superior de antes.
– Sinta-se à vontade, durma, amanhã lhe trarão comida, até lá coma os biscoitos, volto amanhã, ou talvez depois. Até a vista Anne.
Saiu apressado, trancou a porta por fora.
Dentro do quarto, Anne respirou fundo, há tempos não se sentia tranquila como agora, segura. De algum modo, sabia que enquanto o major quisesse que ela ficasse bem, ela ficaria, esperava que isso durasse tempo o suficiente.
Ainda não sabia o que pensar dele, ao contrário do que ocorrera com o médico, Dr. Krämer, que lhe causara empatia instantânea, o jeito de Veltheim lhe deixava intrigada. Ainda não sabia se gostava dele.
Correu pra janela, dava pra ver o pátio onde tudo acontecera, dava para ver a lua, Anne sorriu.
– Homem engraçado... – suspirou.
Notas finais
Agora é esperar para ver. ;D
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