Bem Vinda Ao Campo
41 Um Verdadeiro Sucesso
Notas iniciais
Boa Leitura.
A sala de conferências estava repleta de homens importantes cujos nomes Heinrich escutara diversas vezes. Todos ergueram-se das cadeiras e gritaram Heil Hitler quando o Führer adentrou o recinto.
Surpreendentemente não se sentia acuado nem mesmo ansioso com a presença deles, nada daquilo fazia sentido, o que e quem eles eram não lhe interessava.
Pensava em Anne, resplandecente e cheia de vida, em sua risada bonita e solta. Não conhecia mulheres que riam livres daquele jeito.
Lembrava-se de Liesel e de como ela ficava mais esperta e engraçada a cada dia, e de Wilhelm, o pequeno e gorducho filho que sempre sonhara ter.
- Sente-se ao meu lado major. – disse Hitler sorrindo-lhe.
Acatou com um aceno de cabeça não podendo crer na chance que estava perdendo. Iria se sentar ao lado do Führer, seria perfeito se as bombas tivessem sido acionadas. Bastaria que as deixasse no chão aos pés de Hitler e depois saísse da reunião.
O olhar que Rudolph lhe deu permitiu que percebesse o quanto ele também estava decepcionado com a oportunidade perdida.
Hitler sentou-se na cabeceira da mesa e indicou a Heinrich a cadeira do seu lado esquerdo, a do lado direito foi ocupada por Joseph Goebbels.
A atitude do Führer gerou grande surpresa nos demais presentes, afinal quem era aquele homem que se sentava ao lado do Führer sem nunca ter ido a uma reunião sequer?
- Espero que tenham boas notícias. – disse Hitler calmamente.
E então Heinrich percebeu que ele havia mudado por completo, agora sim começava a reconhecer o homem dos discursos.
Algo havia se transformado na expressão dele, não parecia mais simpático como há poucos minutos, estava focado.
Não pode se concentrar nas diversas desculpas que aqueles homens de alta patente davam ao Führer, estava muito mais ocupado em observá-lo.
Veltheim nunca havia falado com Hitler antes, e ainda que tudo o que ele dizia fosse insano, havia algum tipo de carisma irresistível no ditador.
Parecia muito mais decepcionado do que furioso com as péssimas novas que recebia sobre a guerra.
- Está me dizendo que os ingleses continuarão a nos atacar, e que nada podem fazer a esse respeito?
- Não temos meios para impedi-los e...
- Não têm meios. – a voz dele tremulava perigosamente – Para que serve a Luftwaffe¹?
- Estamos em desvantagem numérica e atacando em duas frentes...
- Para que serve a Luftwaffe? – tornou a indagar, o rosto avermelhando-se de modo rápido.
- Mein Führer, infelizmente...
- Para quê serve a Luftwaffe?!
Um soco foi dado na superfície da mesa fazendo balançar a água dos os copos que estavam sobre ela. As mãos de Hitler tremiam nervosamente.
Nenhum dos presentes estava disposto a arriscar dizer qualquer coisa, alguns olhavam para as próprias mãos, outros tinham os olhos apreensivos postos sobre o Führer.
- Tem como função garantir o poder aéreo da nação. – recitou Heinrich de modo maquinal.
Todos os olhos se voltaram para ele, inclusive os do Führer.
- Como disse major Von Veltheim?
- Eu disse que o objetivo da Luftwaffe e garantir o poder aéreo da nação mein führer, ou seja, deve ser capaz de atacar os inimigos e nos defender dos mesmos.
Por breves segundos parecia que Hitler estava prestes a explodir, seus olhos quase pulavam fora das pálpebras. Uma risada sonora encheu a sala.
- Me recrimino por nunca ter lhe convidado a nenhuma outra conferencia major. – disse Hitler lhe sorrindo com a mesma simpatia de antes.
A fúria estava acalmada, o ditador bebericou dois goles d’água do copo a sua frente e fez um delicado aceno de cabeça para que a reunião continuasse em andamento.
***
Ao mesmo tempo em que Heinrich assombrava-se e igualmente admirava-se com o Führer, Rudolph sentado a muitas cadeiras de distância diagnosticava no líder certos tipos de enfermidade.
Sífilis seria um bom motivo para os acessos de raiva já antes conhecidos e presenciados naquele dia, o tremor das mãos parecia um caso inicial de mal de Parkinson, e o modo como ele ignorava todos os fracassos e o fato de os alemães já estarem em graves problemas indicava uma séria megalomania.
Pensar que Hitler era um homem doente não aumentava em nada a compaixão que Rudolph sentia pelo mesmo, na verdade aquilo fazia com que o médico sentisse ainda mais ódio.
A nação estava nas mãos de um doente, todos os absurdos da guerra estavam ocorrendo porque a Alemanha se dispusera as vontades de um louco.
Pior era pensar que as pessoas que se relacionavam freqüentemente com ele eram capazes de perceber que Hitler não estava são, e ainda assim o apoiavam naquela empreitada maluca apenas para obter ganhos pessoais.
Os olhos de Rudolph chamuscavam na direção de Joseph Goebbels, aquele diabo de pele macilenta e andar manco sabia muito bem que Hitler estava louco, e ainda assim promovia todo o tipo de festividade para que o povo saudasse um homem insano, encorajava-o em delírios senis.
Sentia-se profundamente tentado a retira-se da sala para ativar as bombas em algum banheiro, mas sabia que seria demasiado suspeito que saísse da sala e depois colocasse a pasta com os explosivos ao lado de Hitler.
Se o único afetado na operação fosse ele, Rudolph teria feito de qualquer maneira, mas via Heinrich do outro lado da sala e lembrava-se da família que esperava pelo melhor amigo em casa.
Preferiu conter-se, ainda que eu seu peito o desejo de matar o Führer crescesse violentamente.
***
A reunião chegou ao fim após cerca de duas horas de falatório, desculpas inexpressivas para as derrotas alemãs, a apenas um ataque de raiva de Hitler. Um verdadeiro sucesso.
O ditador parecia muito tranquilo com o fim da conferência, quase se podia identificar um sorriso em suas faces flácidas.
- Heil Hitler! – exclamaram todos os presentes assim que o encontro foi finalizado.
- Sieg Heil. – disse o próprio líder dispensando-os.
A sala esvaziou-se depressa enquanto Heinrich caminhava até Rudolph, nenhum dos dois percebeu que Hitler ainda estava ali.
- Gostei de conhecê-lo major Von Veltheim. O convidarei para mais reuniões.
Um tanto quanto admirado, Heinrich concordou com a cabeça.
- Traga o ilustre Dr. Krämer consigo, é sempre bom ter um médico por perto.
Saiu calmamente, como se o trajeto até a porta fosse uma alameda florida pela qual ele passeava.
Notas finais
Mas parece que oportunidades não faltarão...
Comentem. ;)
--X--
1. Luftwaffe - Luftwaffe, oficialmente Deutsche Luftwaffe, é o termo geralmente usado para designar a força aérea alemã desde sua criação e ainda usado após a Segunda Guerra Mundial.
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