Bem Vinda Ao Campo
18 Um Monstro
Anne esperava diversas reações do major, mas certamente não o tinha imaginado entrando como se estivesse prestes a matá-la.
Parecia mais furioso do que na noite em que a Alemanha perdeu em Stalingrado, tão vermelho quanto, e com as veias saltando no pescoço exatamente como naquele dia.
- Mentirosa! Cigana mentirosa! – despejou ele.
- Heinrich...
- Me fez pensar que estava doente! Mentiu para mim!
Ela levantou da cadeira e só então Veltheim pode perceber sua barriga sob o vestido. Ver quão avançada estava aquela gravidez sem o seu conhecimento, só aumentava a ira que sentia.
Percebeu que ela vinha em sua direção, segurou-lhe pelos punhos, não ia se deixar enganar outra vez.
- Contou para ele primeiro, Anne! Por quê?
O fato de ele não gritar deixava a moça ainda mais perturbada, estava com medo dele. Não conseguia falar.
- Eu fiz uma pergunta!
E chacoalhou-a, ela tinha que lhe responder.
- Eu não sei...
A esta altura ela já começara a chorar. Estava apavorada, temia por seu bebê, o major parecia capaz de coisas horríveis naquele momento.
- Tem ideia do quanto eu me preocupei com você? Achei que ia perder você Anne, e era só uma mentira!
Tinha tanta raiva que suas mãos tremiam ao redor dos pulsos finos dela. Controlava-se, porque ainda que estando furioso, não queria machucá-la, não podia. Forçou-a sentar na cama antes que acabasse a ferindo de fato.
- Me diga, o que eu faço com você garota?!
- Eu não sei...
- Não sabe de nada! Sabe apenas como mentir para mim. – exasperou-se o major – O que vou fazer com você e com essa criança?!
A capacidade que tinha de falar perdeu-se por completo. Chorava desesperadamente, os soluços se tornaram inevitáveis e sua garganta se apertava, impedindo que o ar passasse. Anne, encolhida, abraçava a barriga como se seus braços pudessem impedir que o pequeno ser dentro dela sentisse todo o nervoso pelo qual passava.
- Eu deveria me livrar de você, quem sabe Rudolph não te queira? Vocês traidores se merecem!
O fato de ela apenas ficar chorando o irritava ainda mais. Queria que ela lutasse, que fizesse o que tinha feito quando chegou a Auschwitz. A passividade dela era a maior prova de que estava errada.
Veltheim não se dava conta do que falava, não importava, queria que suas palavras fossem doloridas e era só isso.
- Você são muito amigos não são? Desde aquele dia. – pontuou lembrando da simpatia mútua entre o médico e ela desde o primeiro encontro — Deveriam ficar juntos...
Estava com ciúmes, sim. Tinha ciúmes de Anne e de Rudolph em igual nível e de modos diferentes. Confiava neles e os amava, e lhe traíram.
- Acha que ele iria te amar Anne? Que ele iria tirar você daqui?
Os olhos da cigana, já inchados de choro se arregalaram.
- Do que está falando...? – indagou num fio de voz.
- Por isso contou primeiro para ele? Acha que Rudolph é melhor que eu só porque é um conspirador?
- Isso não faz o menor sentido...
- Não faz sentido! Não faz sentido! – repetiu ele debochado – Sabe o que não faz sentido? Eu sempre fui melhor Anne, eu sempre fui mais importante, e você prefere contar para ele?!
O assunto já não era mais a gravidez escondida. Eram todas as frustrações de Heinrich sendo jogadas sobre ela. O fato de a amar sem dizer por completo, de não poder tirá-la de Auschwitz para não colocar Liesel em risco, e sua incapacidade de impedir que as atrocidades cometidas em nome do Reich continuassem. Esfregava na cara dela a mágoa que tinha no peito por não poder fazer como o amigo, por não poder fazer o que achava certo.
- Eu nunca devia ter te conhecido! Maldita cigana! – desferiu ofegante, a beira de um colapso – Antes de você eu acreditava que estava bem, agora eu sei que está tudo errado!
Anne não entendia, mas cada palavra dita marcava seu coração como ferro quente, as lágrimas continuavam lhe escapando tal qual pérolas salgadas. As boas lembranças e impressões que tinha do major sumiam a cada acusação desconexa.
Heinrich queria continuar repreendendo-a, queria que ela tivesse um décimo do sofrimento que ele tivera achando que podia perdê-la, e soubesse um mínimo do quanto lhe doía não poder amá-la abertamente. A amava, será que ela não entendia que a amava?
Queria continuar, mas não podia. O choro dela lhe partia o coração por mais que estivesse duro de raiva. Sabia que ficar ali por mais tempo só pioraria as coisas. A mágoa dela o machucava em dobro.
***
Com as luzes apagadas, Heinrich refletia sentado na beira da cama, lembrava-se de como deixara Anne.
Chorando, trêmula, completamente despedaçada e apavorada, agarrada a barriga, protegendo-a.
Sozinho no escuro ele amargava lágrimas, culpa.
- O que eu fiz...?
Não houve resposta. Ninguém lhe responderia, nem mesmo Deus. Provavelmente Deus o repudiava agora.
O choque que sofreu ao descobria a farsa fora tamanho que perdeu completamente a razão. Agrediu Rudolph, apenas porque o amigo sabia de coisas que ele não, porque Anne confiava mais nele.
Magoou Anne, só para que ela se sentisse do mesmo modo que ele se sentia. Só porque não podia cuidar dela e do filho que esperava do modo como gostaria.
Tinha uma vontade desesperada de voltar para o quarto, pedir desculpas, abraçá-la e jurar que a tiraria de Auschwitz, que lhe daria um lar. Não podia.
Queria levá-la para casa, casar com ela, ter uma família. Seriam Anne, Liesel, o bebê, Nana e ele, felizes.
Gostaria de voltar no tempo, abrir a porta com flores e chocolates, dizer o quanto estava feliz por saber que ela estava grávida, e que Liesel amaria ter um irmãozinho ou irmãzinha.
Mas como poderia ter feito assim se sabia das experiências de Mengele com as crianças ciganas? Afinal, aquela criaturinha na barriga de Anne era tão cigana quanto a mãe.
Tinha um medo profundo de que algo lhes acontecesse, imaginava Anne careca em uma maca, agonizando. Imaginava o bebê sendo torturado como aqueles meninos.
E quando pensava na solução, que seria levar Anne para longe do campo, pensava em Liesel sofrendo as consequências de sua traição.
Antes tivera a opção de escolher a menina, mas agora não tinha o que escolher. Proteger Liesel era o mesmo que condenar Anne e o novo bebê, que também era seu. Salvar os dois era condenar a filha.
Quando teria imaginado que ter um filho com a mulher que amava poderia ser um problema tão grande?
Por isso dissera que não queria ter a conhecido. Não queria ter sabido como podia ser feliz para logo depois ser arrastado para a desgraça.
Padecia com a certeza de que nunca mais poderia beijar Anne, abraça-la. Tinha noção de que a ferira fundo demais.
Tinha certeza de ela nunca mais deixaria que se aproximasse e provavelmente não permitiria que tocasse na criança. Não podia culpá-la, dera motivos.
Sentia-se um monstro. Era um monstro.
***
Não chorava mais, já havia chorado todas as lágrimas que tinha. Estava quieta as mãos sobre a barriga, sentia-o mexendo, agitado.
- Está tudo bem... – mentiu ela, acariciando o filho através de sua própria pele.
Sentiu dores enquanto o major lhe acusava de coisas que ela não entendia. Não só em seu coração, na barriga. Seu bebê tinha passado por tudo aquilo, toda a briga, ele tinha participado e sofrido.
- Vai dar tudo certo, de algum modo, vamos ficar bem...
Não se permitia entristecer-se por Heinrich. Não deveria ter esperado mais do que ele poderia lhe dar.
Não tinha tempo para sentir sua falta. Tinha que pensar naquela pequena vida que levava dentro de si. Tinha que ser forte por ela,
- Nós vamos ficar bem...
Notas finais
E agora? '-'
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