Voltar a falar com Rudolph não poderia ser mais difícil. Como pedir desculpas depois do que tinha feito? Como pedir ajuda?

Cinco dias se passaram até que o major tivesse coragem para procurá-lo, achava que o amigo fosse lhe evitar, mas ele estava sentado esperando-o na mesma sala em que fora esganado noites atrás.

– Eu sinto muito... – começou Heinrich assim que entrou.

– Não precisa falar. Eu sei o que se passou em sua cabeça e entendo sua reação.

Ficou sem palavras. Sabia que Rudolph era uma pessoa muito boa e racional, mas não estava pronto para ser compreendido tão rapidamente.

– Ora vamos, não me faça essa cara de idiota – pediu o médico, displicente – Essa não foi a primeira vez que me bateu.

Verdade. Algumas vezes aquilo já acontecera, em umas a reconciliação foi mais fácil, em outras mais difíceis. O fato era que Rudolph sempre relevava e eles continuavam sendo amigos.

– Porque tolera isso?

Era a primeira vez que perguntava. Geralmente agradecia por ser perdoado, mas nunca tinha indagado o motivo de Rudolph em continuar do seu lado mesmo estando sujeito a novos ataques.

– Tolero porque sei que essas explosões são inerentes a sua personalidade – explicou ele calmamente – Você sempre foi muito controlado, exigiram demais de você, lhe deram muitas responsabilidades antes que aprendesse a lidar com elas. É natural que em alguns momentos descarregue tudo de uma vez.

Permitiu-se respirar profundamente. Rudolph só poderia ser alguma espécie de anjo enviado para manter seu equilíbrio.

– Eu agradeço por ter tanta paciência comigo.

Krämer então o fitou seriamente, penteou com os dedos os cabelos castanhos, ajeitou-se na cadeira.

– Eu sei que quando você faz esse tipo de coisa não faz por mal. Sei por que te conheço há anos e sei por que ficou assim. Só não espere de Anne a mesma compreensão meu amigo...

Veltheim não disse nada, sentia um nó formando na garganta ao lembrar da cigana. Não tinha lhe machucado fisicamente, no entanto havia ferido seu intimo de maneirar irreversível. Não a viu depois daquele dia.

– Eu sequer espero que ela compreenda, muito menos que perdoe.

A voz rouca embargada, o olhar perdido. Rudolph via que seu amigo estava sofrendo, tinha pena.

– Pretende fazer o que?

– Levá-la para Berlin – disse levemente reanimado – É o que vou fazer.

– O que?

Heinrich sabia o quão ridículo parecia seu plano, mas também sabia que era o único que daria certo. O melhor lugar para escondê-la era um lugar em que ela não deveria estar.

– Vou levar Anne para minha casa em Berlin, Nana cuidará dela, é perfeito.

O médico compreendia que Anne certamente seria bem acolhida por Valkyrie e que teria uma gestação muito mais tranquila se sentisse estar em segurança, mas havia uma falha naquilo tudo.

– Como vai levar uma cigana grávida até Berlin sem que ninguém a veja?

A expressão de Veltheim se iluminou.

– De carro.

– E todos os postos de vigia? Como vai passar pela fronteira?

O major sorriu.

– Ninguém vai revistar meu carro Rudolph... – afirmou levemente irônico – Afinal, eu sou o major Von Veltheim.

– Certo major Von Veltheim, parece ótimo, mas como vai tirá-la do campo?

O sorriso dele sumiu, virou a expressão de um menino que precisava de auxílio.

– É aí que você deveria entrar, eu ainda não sei como.

Rudolph ficou calado por vários minutos, rabiscava linhas desconexas num papel, murmurava sozinho, extremamente concentrado.

Heinrich não tinha coragem de atrapalhar seu processo de raciocínio, observava atento, como se visse o funcionamento de uma grande máquina.

– Só tem uma maneira. – disse o médico, quinze minutos e cinco folhas rabiscadas depois.

– Qual?

– Para sair do campo, Anne tem que morrer...

Perplexo, o major não conseguia entender a lógica daquilo, e a ideia lhe arrepiou os pelos da nuca.

– Como assim?

– Todos sabem que você tem uma cigana, ela não pode simplesmente sumir. Tem que morrer.

– E como ela vai... morrer?

Não gostava de dizer aquilo, imaginar Anne morta era dolorido.

– Pneumonia. Afinal, ela estava doente não? Você vai encontrá-la morta, me chamar, e eu constatarei o óbito.

– E então?

– O corpo será retirado, e cremado.

– Certo, mas em qual momento ela vai parar no meu carro?

– Eu ainda não consegui pensar nisso...

Estaca zero novamente. Os dois homens se calaram, cada qual tentando achar algo que se encaixasse ao plano.

O médico voltou a rabiscar papéis e murmurar para si, o major andava de um lado para o outro da sala, praticamente marchando.

Os olhos azuis-violeta esquadrinhavam o recinto, os vidros, a maca, o caixote de madeira cheio de medicamentos...

– É isso! – exultou ele apontando para o objeto e assustando Rudolph.

– Anne não cabe aí.

– É claro que não, é só achar um em que ela caiba, deve ter na minha casa, havia montes desse, foi onde vieram as coisas de Berlin.

– Sob qual pretexto vai levar um caixote para seu alojamento?

– Hum... – voltou a andar em seu passo de marcha – Posso dizer que quero levar alguns pertences desta casa para a outra...

Não era uma ideia tão ruim, realmente poderia dar certo, no entanto era preciso tomar certo cuidados para que o plano não ruísse.

– Quanto ela pesa? – indagou Krämer ainda rabiscando.

– Não sei dizer, talvez uns cinquenta e poucos quilos, sessenta no máximo, por quê?

– O caixote tem de vir de sua casa carregado com objetos que pesem o mesmo que Anne.

– Porque isso?

– Você vai pedir que dois dos seus soldados o carreguem para o quarto, e depois para o carro. Tem de ter o mesmo peso.

– Entendo, para não ser suspeito...

– Acho que é isso. O caixote virá carregado de coisas que pesem o mesmo que ela, depois as coisas serão retiradas e Anne entra. E então é colocada no carro.

– É uma ótima ideia, mas o que eu farei com as coisas do caixote? E o que vai ser o “corpo” de Anne?

Folha de papel substituída, Rudolph começou a rabiscar a nova. O conteúdo do caixote deveria ser o “corpo” de Anne, era o único meio, mas o que poderia imitar o corpo de uma pessoa?

– Sacos de areia... – concluiu ele num sussurro – O caixote tem que conter sacos de areia que simulem o corpo dela, depois é só trocar, colocá-la no caixote e levar os sacos para o crematório enrolados em um lençol.

– Meu Deus, Rudolph é perfeito!

Krämer sabia que o plano era ótimo, mas ainda não se permitia ficar eufórico como o amigo.

– Os sacos terão de ser feitos Heinrich, e você tem de achar o caixote.

– Como faremos os sacos?

O médico deu de ombros.

– Se posso costurar pessoas, creio que também possa costurar sacos com areia. Não tem de ficar exato, será como fazer um espantalho.

– Eu não sei como lhe recompensar Rudolph, você é definitivamente o melhor amigo de todo o mundo. Em algum momento, eu juro, você vai receber o pagamento por isso.

Sorriram e se abraçaram. Dois homens adultos, pareciam dois garotinhos, dois irmãos.

Notas finais
Heinrich finalmente decidiu tomar uma atitute!
Só faltou ir falar com a Anne né? =/
Comentem. ;)