Bem Vinda Ao Campo
20 Um Menino?
Anne simplesmente não podia crer no que Rudolph Krämer lhe dizia, menos ainda levar fé, uma vez que a naturalidade com que ele explicava o plano fazia com que este parecesse um completo absurdo.
– Isso é ridículo, não vão deixar que um baú saia daqui sem vistoria. – concluiu ela categórica.
– Sei que parece tolo, mas é perfeito. Heinrich é um homem bastante importante Anne, não vão contradizê-lo.
Os lábios da moça se contraíram num ricto de desprezo. Não tinha visto o major desde aquela fatídica noite e não tinha vontade de vê-lo.
– Anne. – chamou o médico pousando as mãos sobre seus ombros – Não sei exatamente o que ele lhe fez, e nem vou pedir que o perdoe, apenas saiba que ele está sob muita pressão.
Balançou a cabeça negativamente, afastou-se de Krämer, preferindo se encostar à janela.
Não tinha raiva de Veltheim, só uma mágoa profunda, porque ainda que não admitisse, em seu intimo acreditou ele poderia ficar feliz com a notícia. Não tanto quanto ela, mas um pouco ao menos.
– Quem teve essa ideia? – indagou ainda olhando para o pátio, apoiada ao parapeito.
– Heinrich teve a ideia. E ainda que eu a tivesse tido, não poderia executar sem a ajuda dele.
Os olhos de gelo da cigana fitaram o médico, completamente frios. Era difícil determinar o que ela sentia, provavelmente estava triste, mas parecia ignorar a emoção.
– Para onde vão me levar?
– Heinrich vai te levar para Berlin, para a casa dele.
Rudolph esperava que ela dissesse alguma coisa, mas Anne ficou calada fitando-o com aqueles olhos vazios de emoção, vítreos como bolas de gude.
– Vai ficar sob os cuidados da Sra. Weber, a governanta. – explicou o médico, preocupado com a apatia da moça – Foi babá de Heinrich, e é quem cuida da filha dele.
– Liesel...
Ao sussurrar o nome da menina, Anne pareceu retornar à vida, e o gelo de seus olhos derreteu. Iria conhecê-la.
– Heinrich já lhe falou dela?
– Me mostrou uma foto.
Rudolph sorriu. Veltheim não costumava expor a filha, não falava dela para qualquer pessoa. Gostava mesmo de Anne, havia lhe mostrado Liesel.
– É uma menina linda. – disse ela, ainda pensando na pequena.
– A criança que você espera também será linda Anne.
A cigana deu uma risadinha, acariciou a barriga.
– Acho que é um menino. Ele aparece em meus sonhos.
Ela era uma mistura de felicidade e tristeza, feliz por pensar no filho, triste por lembrar que em seus sonhos o pequeno era quase uma cópia do pai.
– Então será um menino muito bonito, e saudável. – concluiu Rudolph, ares de riso nos olhos verdes.
– Obrigada por me alegrar dr. Krämer, o senhor é um amigo maravilhoso.
Estava feliz por estar deixando-a mais contente, entretanto, Rudolph sabia que aquele não era o seu trabalho. Heinrich deveria estar fazendo aquilo, sentia-se culpado por estar tomando o lugar dele.
– Heinrich teme vir vê-la. Acho que vocês dois deveriam conversar.
– Acho que não temos o que conversar doutor.
Não insistiu, o período de grande risco da gravidez já havia passado, mas ainda era perigoso fazer com que Anne sofresse grandes emoções. Tranquilidade era fundamental.
– Devo crer que estamos de acordo quanto ao plano? – indagou ele mudando de assunto.
– O que vai acontecer se nos descobrirem?
Rudolph não queria pensar em todas as coisas ruins que aconteceriam.
– Não vão nos descobrir.
***
Na casa do major, trancados dentro do escritório, ele o médico conversavam em sussurros baixos, temendo que a empregada estivesse com a orelha colada na porta.
Nas últimas duas semanas o ritual era o mesmo, após o expediente de ambos, dirigiam-se para a casa de Veltheim a fim de trabalhar na boneca de areia que faria as vezes de Anne.
– Ela aceitou?
Estava tão curioso e com tanto medo do que Anne poderia ter dito, que os milésimos de segundos demorados para que Rudolph respondesse pareceram uma eternidade.
– Claro que aceitou, o que mais poderia fazer?
– Explicou que ela vai ter que ficar na minha casa?
– Sim, expliquei.
– E o que Anne falou disso?
– Nada a respeito da casa, só falou de Liesel.
Heinrich sorriu, gostava de como Anne falava sonhadoramente de sua filha, como parecia ter saudades antes de conhecê-la. Achava que seria bom para ela a companhia de pequena durante a gravidez, e Liesel certamente gostaria de conhecer a mãe de seu novo irmãozinho ou irmãzinha.
– Ela se mostrava muito interessada em Liesel, acho que vai gostar de conhecê-la. – disse o major ainda sorrindo – E Liesel vai gostar dela também, tenho certeza.
– Anne acha que está esperando um menino.
O comentário despreocupado de Rudolph explodiu o coração de Veltheim de duas maneiras. A primeira foi um estouro de felicidade irrefreável, sempre quis ter um filho. A segunda detonou-o de tristeza, porque aquele filho não poderia lhe pertencer como queria.
– Pode ser mesmo um menino?
– Claro, assim como pode ser uma menina. Faz diferença?
– Não, mas seria bom ter um menino.
O médico examinava o “corpo” feito de sacos de areia. Estava bastante razoável pra um espantalho.
– Antes de pensar em como seria bom, prepare-se porque amanhã será a primeira etapa do plano.
Heinrich concordou, aquele não era o momento para pensar sobre o sexo da criança na barriga de Anne. Era o momento de salvar os dois.
– Fizemos um ótimo trabalho Rudolph.
Haviam se empenhado verdadeiramente naquilo, e mesmo o major sem o menor conhecimento de costura fez o que pode seguindo as recomendações do médico.
– Para o que é, está de acordo. Vamos pô-lo no caixote.
Cuidadosamente, depositaram o cadáver de areia dentro do grande baú de madeira que Heinrich arrumara. Um caixão perfeito, forrado com travesseiros e mantas, para garantir o conforto de sua próxima dona.
– É estranho ver isso... – sussurrou o major, olhos arregalados.
– Será mais estranho quando Anne estiver aí dentro.
Arrepiou-se e balançou a cabeça negativamente. Heinrich achava terrivelmente mórbida aquela parte do plano.
– Tem certeza de que ela vai conseguir respirar?
– Sim, os furos que fizemos serão o suficiente. – afirmou Rudolph, que testara a capacidade de respiração ficando alguns minutos dentro do caixote – Ainda assim, a operação tem de ser rápida. Quanto menos tempo ela ficar melhor.
Heinrich caminhava à passo de marcha novamente. Sempre fazia assim quando estava concentrado ou nervoso, não conseguia ficar parado.
– Não vejo a hora de isso acabar Rudolph, sei que só vou descansar em paz quando ela estiver segura em Berlin.
– Sabe, essa sua ideia foi de fato muito inteligente. Eu nunca imaginaria uma coisa dessas, e é o mais acertado.
– Eu sei, por isso estou pondo em prática. Jamais faria algo que colocasse Anne ou meus filhos em risco.
Meus filhos, disse ele. Incluía o bebê na barriga na conta, já era seu filho e o amava tanto quanto amava Liesel.
– É muito corajoso e correto de sua parte.
Heinrich riu.
– Não é coragem quando se faz por amor.
Notas finais
Façam já suas apostas! Menino ou menina? =D
Independente disso Heinrich ama muito essa criança, e está disposto a tudo para salvá-la. Vamos torcer para que dê certo!
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