Anne simplesmente não podia crer no que Rudolph Krämer lhe dizia, menos ainda levar fé, uma vez que a naturalidade com que ele explicava o plano fazia com que este parecesse um completo absurdo.

– Isso é ridículo, não vão deixar que um baú saia daqui sem vistoria. – concluiu ela categórica.

– Sei que parece tolo, mas é perfeito. Heinrich é um homem bastante importante Anne, não vão contradizê-lo.

Os lábios da moça se contraíram num ricto de desprezo. Não tinha visto o major desde aquela fatídica noite e não tinha vontade de vê-lo.

– Anne. – chamou o médico pousando as mãos sobre seus ombros – Não sei exatamente o que ele lhe fez, e nem vou pedir que o perdoe, apenas saiba que ele está sob muita pressão.

Balançou a cabeça negativamente, afastou-se de Krämer, preferindo se encostar à janela.

Não tinha raiva de Veltheim, só uma mágoa profunda, porque ainda que não admitisse, em seu intimo acreditou ele poderia ficar feliz com a notícia. Não tanto quanto ela, mas um pouco ao menos.

– Quem teve essa ideia? – indagou ainda olhando para o pátio, apoiada ao parapeito.

– Heinrich teve a ideia. E ainda que eu a tivesse tido, não poderia executar sem a ajuda dele.

Os olhos de gelo da cigana fitaram o médico, completamente frios. Era difícil determinar o que ela sentia, provavelmente estava triste, mas parecia ignorar a emoção.

– Para onde vão me levar?

– Heinrich vai te levar para Berlin, para a casa dele.

Rudolph esperava que ela dissesse alguma coisa, mas Anne ficou calada fitando-o com aqueles olhos vazios de emoção, vítreos como bolas de gude.

– Vai ficar sob os cuidados da Sra. Weber, a governanta. – explicou o médico, preocupado com a apatia da moça – Foi babá de Heinrich, e é quem cuida da filha dele.

– Liesel...

Ao sussurrar o nome da menina, Anne pareceu retornar à vida, e o gelo de seus olhos derreteu. Iria conhecê-la.

– Heinrich já lhe falou dela?

– Me mostrou uma foto.

Rudolph sorriu. Veltheim não costumava expor a filha, não falava dela para qualquer pessoa. Gostava mesmo de Anne, havia lhe mostrado Liesel.

– É uma menina linda. – disse ela, ainda pensando na pequena.

– A criança que você espera também será linda Anne.

A cigana deu uma risadinha, acariciou a barriga.

– Acho que é um menino. Ele aparece em meus sonhos.

Ela era uma mistura de felicidade e tristeza, feliz por pensar no filho, triste por lembrar que em seus sonhos o pequeno era quase uma cópia do pai.

– Então será um menino muito bonito, e saudável. – concluiu Rudolph, ares de riso nos olhos verdes.

– Obrigada por me alegrar dr. Krämer, o senhor é um amigo maravilhoso.

Estava feliz por estar deixando-a mais contente, entretanto, Rudolph sabia que aquele não era o seu trabalho. Heinrich deveria estar fazendo aquilo, sentia-se culpado por estar tomando o lugar dele.

– Heinrich teme vir vê-la. Acho que vocês dois deveriam conversar.

– Acho que não temos o que conversar doutor.

Não insistiu, o período de grande risco da gravidez já havia passado, mas ainda era perigoso fazer com que Anne sofresse grandes emoções. Tranquilidade era fundamental.

– Devo crer que estamos de acordo quanto ao plano? – indagou ele mudando de assunto.

– O que vai acontecer se nos descobrirem?

Rudolph não queria pensar em todas as coisas ruins que aconteceriam.

– Não vão nos descobrir.

***

Na casa do major, trancados dentro do escritório, ele o médico conversavam em sussurros baixos, temendo que a empregada estivesse com a orelha colada na porta.

Nas últimas duas semanas o ritual era o mesmo, após o expediente de ambos, dirigiam-se para a casa de Veltheim a fim de trabalhar na boneca de areia que faria as vezes de Anne.

– Ela aceitou?

Estava tão curioso e com tanto medo do que Anne poderia ter dito, que os milésimos de segundos demorados para que Rudolph respondesse pareceram uma eternidade.

– Claro que aceitou, o que mais poderia fazer?

– Explicou que ela vai ter que ficar na minha casa?

– Sim, expliquei.

– E o que Anne falou disso?

– Nada a respeito da casa, só falou de Liesel.

Heinrich sorriu, gostava de como Anne falava sonhadoramente de sua filha, como parecia ter saudades antes de conhecê-la. Achava que seria bom para ela a companhia de pequena durante a gravidez, e Liesel certamente gostaria de conhecer a mãe de seu novo irmãozinho ou irmãzinha.

– Ela se mostrava muito interessada em Liesel, acho que vai gostar de conhecê-la. – disse o major ainda sorrindo – E Liesel vai gostar dela também, tenho certeza.

– Anne acha que está esperando um menino.

O comentário despreocupado de Rudolph explodiu o coração de Veltheim de duas maneiras. A primeira foi um estouro de felicidade irrefreável, sempre quis ter um filho. A segunda detonou-o de tristeza, porque aquele filho não poderia lhe pertencer como queria.

– Pode ser mesmo um menino?

– Claro, assim como pode ser uma menina. Faz diferença?

– Não, mas seria bom ter um menino.

O médico examinava o “corpo” feito de sacos de areia. Estava bastante razoável pra um espantalho.

– Antes de pensar em como seria bom, prepare-se porque amanhã será a primeira etapa do plano.

Heinrich concordou, aquele não era o momento para pensar sobre o sexo da criança na barriga de Anne. Era o momento de salvar os dois.

– Fizemos um ótimo trabalho Rudolph.

Haviam se empenhado verdadeiramente naquilo, e mesmo o major sem o menor conhecimento de costura fez o que pode seguindo as recomendações do médico.

– Para o que é, está de acordo. Vamos pô-lo no caixote.

Cuidadosamente, depositaram o cadáver de areia dentro do grande baú de madeira que Heinrich arrumara. Um caixão perfeito, forrado com travesseiros e mantas, para garantir o conforto de sua próxima dona.

– É estranho ver isso... – sussurrou o major, olhos arregalados.

– Será mais estranho quando Anne estiver aí dentro.

Arrepiou-se e balançou a cabeça negativamente. Heinrich achava terrivelmente mórbida aquela parte do plano.

– Tem certeza de que ela vai conseguir respirar?

– Sim, os furos que fizemos serão o suficiente. – afirmou Rudolph, que testara a capacidade de respiração ficando alguns minutos dentro do caixote – Ainda assim, a operação tem de ser rápida. Quanto menos tempo ela ficar melhor.

Heinrich caminhava à passo de marcha novamente. Sempre fazia assim quando estava concentrado ou nervoso, não conseguia ficar parado.

– Não vejo a hora de isso acabar Rudolph, sei que só vou descansar em paz quando ela estiver segura em Berlin.

– Sabe, essa sua ideia foi de fato muito inteligente. Eu nunca imaginaria uma coisa dessas, e é o mais acertado.

– Eu sei, por isso estou pondo em prática. Jamais faria algo que colocasse Anne ou meus filhos em risco.

Meus filhos, disse ele. Incluía o bebê na barriga na conta, já era seu filho e o amava tanto quanto amava Liesel.

– É muito corajoso e correto de sua parte.

Heinrich riu.

– Não é coragem quando se faz por amor.

Notas finais
Será que é mesmo um menino?
Façam já suas apostas! Menino ou menina? =D
Independente disso Heinrich ama muito essa criança, e está disposto a tudo para salvá-la. Vamos torcer para que dê certo!