Bem Vinda Ao Campo

21 Chocalho de Prata


Heinrich olhava apreensivo para os dois soldados que carregavam o caixote para o seu quarto. Anne ainda não estava ali dentro, mas isso não diminuía seu nervosismo.

Não tinha ido resolver-se com ela, não sabia como agir e muito menos o que esperar. Rudolph havia lhe dito para fazer isso antes, mas não teve coragem.

Adiantou-se para a porta, sentia sua mão tremer nas chaves, temia o encontro.

– Podem colocar ali. – disse ele indicando a beira da cama – Encostem, por favor.

Anne estava sentada de costas para eles, a cadeira virada para a janela, parecia uma bela estátua. Recomendações de Rudolph, assim os oficiais não poderiam ver sua crescida barriga.

– Está ótimo, agradeço pela ajuda.

Veltheim dispensou os soldados, que ao saírem fizeram continências e o Heil Hitler, o major retribuiu para em seguida fechar a porta cuidadosamente.

– Creio que esteja ciente do plano.

Ela não respondeu. Ainda virada para a janela, apenas acenou com a cabeça, nem parecia estar viva.

Heinrich ficou sem reação. Não estava acostumado com aquela indiferença vinda dela. Imaginou que Anne fosse lhe dizer palavras duras, que estivesse brava, ou que se sentisse aliviada por saber que sairia do campo. Imaginou errado.

Mesmo antes de terem relações, ela sempre lhe tratara normalmente, mas agora parecia feita de pedra, colada à cadeira, vazia de qualquer emoção. Simplesmente frígida.

– Eu sinto muito.

Foi só o que disse, não tinha forças para mais.

Saiu cabisbaixo, deixando um embrulho sobre a escrivaninha. Ver sua Anne, sua alegre cigana morta aquele jeito lhe fazia um mal terrível.

***

Não podia dizer que não sentiu nada ao ouvir a voz dele, não podia dizer que não teve vontade de chorar ao ouvir a porta se fechar à sua saída.

Podia esconder do Dr. Krämer e de Veltheim suas emoções, mas não podia escondê-las de si mesma e do bebê em sua barriga.

A criança se agitou ao escutá-lo, não do jeito que fizera naquela noite em que brigaram, era como se estivesse feliz.

Gostaria de poder dizer ao filho que ele não deveria se animar tanto, muito menos esperar qualquer coisa do major. Ele não seria seu pai. Não seria porque ela não deixaria.

Seus dedos deslizavam sobre a barriga, crescera mais nas últimas semanas, já eram agora quase sete meses. Faltava pouco.

Distraída, olhou para o caixão de madeira encostado ao pé da cama. Ainda que curiosa, não tinha coragem de abri-lo. Sabia o que tinha ali dentro.

Não fosse aquela a única maneira de deixar Auschwitz e garantir a segurança do filho, certamente não aceitaria. Tinha medo de ficar sem ar.

E mesmo que o médico tivesse lhe garantido que era possível respirar, aquilo parecia muitíssimo ruim, sombrio demais.

Demorou muito tempo para perceber o embrulho sobre a escrivaninha. Seu coração saltou, morria de curiosidade ainda que não quisesse dar o braço a torcer.

Evitou continuar olhando-o, tentou se distrair novamente acariciando a barriga, era o que a acalmava nos últimos tempos. Sentir o filho e deixar que ele a sentisse.

Era boa a sensação, mas não conseguiu lhe tirar da cabeça o embrulho que Heinrich deixara para ela.

Abriu com cuidado, evitando estragar o papel. Seus olhos encheram de lágrimas ao ver o que tinha ali dentro.

Uma mantinha de lã, um par de pequenos sapatinhos e uma camisolinha, todas as peças brancas. Alem disso, um pente e um chocalho de prata.

Chorou abraçando a mantinha. Heinrich soubera exatamente como lhe emocionar. Como podia continuar se mantendo séria diante daquilo? As primeiras roupinhas do filho.

Balançou o chocalho. Embalou-se ao som dele, gostando de ouvir o tilintar de leve. Era o mimo mais bonito que já vira em sua vida.

Havia um monograma entalhado na prata, duas letras “V” escritas rebuscadamente, entrelaçadas. Compreendeu imediatamente, eram V’s de Von Veltheim.

Como ficar indiferente ao major se ele fazia aquele tipo de coisa?


Notas finais
Heinrich pode ser explosivo, mas não é bobo! ;)
Soube exatamente como tocar o coração de Anne. ^-^
Comentem. ;D