Bem Vinda Ao Campo
17 Traidores
Com a desculpa de monitorar sua pneumonia, Rudolph visitava Anne semanalmente. Escutava seu coração e o do bebê, fazia anotações e diversas perguntas sobre como ela se sentia.
Ela gostava do médico, de conversar com ele. Era completamente diferente do major, calmo, muito simpático, suave.
Heinrich por sua vez era mais enérgico, firme, um homem propriamente forte. E talvez por isso a instigasse tanto.
– Anne devo lhe dizer que eu continuo preocupado com sua gestação. Parece-me que você e o bebê estão bem, ainda assim, creio que este lugar não é adequado.
A cigana não disse nada, sabia aonde ele iria chegar. Seu tempo estava mais do que esgotado, além do mês prometido, Rudolph lhe deu mais um. Já era a hora de contar a verdade.
– Heinrich precisa saber. – concluiu ele.
– Certo...
Em dois meses, Rudolph havia virado um grande amigo, mas não podia exigir dele lealdade maior do que a devotava à Heinrich. Na verdade, ele tinha lhe ajudado o máximo possível.
– Como prefere fazer isso?
– Conte o senhor.
Era melhor que fosse ele o portador da notícia. O major certamente compreenderia mais fácil se o dr. Krämer explicasse, provavelmente ouviria o médico.
– Tem certeza?
– Sim.
***
Nervoso, Heinrich reexaminava o bilhete que Rudolph mandar lhe entregar. Não aguentava mais esperar que o expediente acabasse, precisava saber do que se tratava.
Quando finalmente acabou, saiu de imediato ao encontro do amigo. Temia que fosse alguma má notícia a respeito da saúde de Anne.
Talvez ela tivesse piorado, nunca mais a vira senão deitada, sempre coberta. Tossia bastante, mesmo que suas faces continuassem coradas.
O caminho até o pavilhão médico nunca lhe parecera tão longo quanto agora, apesar de já anoitecer muitos oficiais ainda circulavam por ali. Ele os cumprimentava, mas tão distraidamente que mal via o que estava fazendo.
Bateu energicamente na porta, queria entrar o quanto antes, queria saber a quantas andava a doença de Anne.
– Heinrich, entre e feche a porta, por favor.
Obedeceu de pronto, e sentou-se na cadeira antes que esta lhe fosse indicada.
– Diga-me o que houve? É algo com Anne, ela piorou?
– Acalme-se meu amigo, ela está muitíssimo saudável.
– Então se curou?
– Não... – o médico pigarreou levemente – Anne não se curou porque nunca esteve doente.
O major não compreendia que tipo de brincadeira era aquela, mas não estava gostando nem um pouco.
– Do que está falando Rudolph. Está dizendo que ela mentiu para mim?
– Sim, ela mentiu para você e eu a ajudei.
Inclinou-se na cadeira, não podia crer no que estava ouvindo.
– Explique-se. – exigiu ríspido.
– Anne não tem pneumonia, mas tem outra coisa...
– Não estou com paciência para charadas Rudolph, fale logo de uma vez!
Krämer deu de ombros com sua tranquilidade costumeira.
– Pois bem, eu falarei. – concordou – Anne está grávida.
Veltheim que há poucos segundos ficara vermelho de nervoso, empalideceu completamente, como se todo o sangue de suas veias tivesse se esvaído.
– Isso não tem a menor graça – sussurrou mortificado.
– Não tem graça porque não é uma piada. Ela já está grávida de seis meses.
Levantou-se colérico.
– Sabe que eu tenho problemas Rudolph, brincar com isso é demais!
Não gritava, mas sua voz controlada derramava toda sua fúria.
– Você não tem problemas Heinrich, e eu já lhe disse isso antes. Demorou tanto para engravidar Gretel porque ela tinha problemas...
– E agora eu engravidei Anne, é isso o que está me dizendo?! Assim tão fácil? Nas primeiras noites?!
– Exato, é o que estou lhe dizendo. É surpreendente, mas ela conseguiu escapar da esterilização no gueto, e mesmo tendo passado por grandes dificuldades continuou perfeitamente fértil e saudável.
– Isso não pode ser verdade. – negou ele balançando a cabeça várias vezes – Não pode.
– Eu a visito semanalmente há dois meses não para ver a doença inexistente e sim para acompanhar como ela está e o desenvolvimento da criança. A barriga está lá Heinrich, se não acredita, veja.
– Não...
– Talvez queria saber, os dois estão realmente muito bem, mesmo que a gravidez seja arriscada...
Irrequieto, o major flexionava os dedos cerrando e abrindo os punhos continuamente. Já não ouvia mais o que Rudolph dizia.
Pensava em todas as noites que passara praticamente em claro nos últimos meses, rezando para que Anne se curasse. Todo o tempo que perdeu em orações vãs.
Pensava em todo o sofrimento que passara por apenas cogitar que algo de ruim pudesse acontecer à cigana enquanto ela o enganava com a ajuda de seu melhor amigo. Sentia-se traído.
Como puderam fazê-lo de idiota por tanto tempo? Como tiveram a coragem de lhe fazer desesperar-se por algo que não existia?
– Você me enganou Rudolph. – sibilou ele – Você e ela.
– Anne tinha medo de lhe contar...
– Cale a boca! – ordenou num sussurro assassino – Vocês não tinham esse direito.
– Sei que não foi o melhor modo, mas...
Antes que os dois pudessem se dar conta, Heinrich agarrou Rudolph pelo colarinho e o empurrou fortemente contra a parede.
– Me fez acreditar que ela ia morrer. – afirmou o major ofegante – Mas eu devia esperar isso de você não é? Verräter! Traidor sujo!
– Heinrich...
– Eu já lhe mandei calar a boca! Você agora vai ouvir.
O médico achou melhor obedecer. Não era um bom momento para contrariar o amigo.
– Você deveria ter me contado desde que soube disso. Eu sempre pensei que fossemos amigos, mas acho que não somos.
Rudolph o fitava com olhos arregalados de espanto. Mesmo que quisesse não podia dizer nada, Heinrich estava praticamente lhe esganando.
– Se fossemos amigos teria me contado, e me ajudado a dar um jeito nisso!
Num último fôlego reunido, Krämer falou.
– Você não teria coragem de fazer isso Heinrich...
O major engoliu em seco. Sabia que não teria coragem de tentar abortar a criança, mas deveria ter tido o direito de saber.
– Eu poderia arrebentar a sua cara, mas quer saber? Você não vale a pena!
Era inacreditável que ele não tivesse gritado, falava em sussurros. Estava usando todas as forças para manter a voz baixa e para sufocar Rudolph
– Não vale a pena... – repetiu enquanto largava o médico, que escorregou para o chão, completamente vermelho, asfixiado. – Não vale nem o ar que respira!
Recolocou o quepe sobre a cabeça, sua mão alcançou a maçaneta.
– Aonde vai? – indagou Krämer ainda no chão, tentando normalizar a respiração.
Não devia satisfações àquele falso-amigo mentiroso, mas quis que ele soubesse.
– Vou dar um jeito na outra traidora...
Notas finais
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