Bem Vinda Ao Campo
61 Tempo de Partir
Notas iniciais
Boa Leitura.
A pequena mala sobre a cama estava mais do que cheia, por conta da superlotação, as roupas insistiam em escapar pelas bordas. Aquela era a terceira e última, tudo o que levariam seria o que coubera naquelas três malas.
- Venha aqui querida, ajude a mama a fechar...
De pronto, a menina que observava o trabalho da mãe subiu na cama e sentou-se sobre a tampa da mala, que só assim pode ser fechada.
- Obrigada meu bem, acho que é só. Vamos descer e avisar ao seu pai que já estamos prontas.
A boca da mãe distendeu-se em um frouxo sorriso tímido. Algo como uma palavra de esperança.
- Mama...
- Sim querida?
- Para onde vamos?
- Para a casa de uma amiga do seu padrinho.
- Vamos ficar bem?
- Eu creio que sim mein süsse.
Com uma expressão preocupada Liesel abraçou as pernas de Anne, que ajoelhou-se para abraçá-la também.
- Às vezes tenho medo mama.
- Medo de que?
- Medo das pessoas lá fora – disse a menina afagando os cabelos negros da cigana – Aquelas pessoas que não gostam da senhora...
Anne sentiu um aperto enorme no peito. Não por conta daquela verdade, e sim por ela ter sido dita pela pequena. Liesel não deveria ter que viver em um mundo ruim como o aquele.
- Nada vai acontecer está bem? Nem comigo e nem com ninguém dessa família...
- Promete mama?
- Prometo.
Abraçaram-se mais uma vez. Um braço apertado que poderia durar para toda a eternidade.
Quando finalmente se soltaram, Anne olhou fundo nos olhos da filha. Tão sua quanto Wilhelm, Liesel sempre estivera escrita em seu destino.
- Vamos mein süsse, já demoramos demais.
Desceram as escadas quietas, de mãos firmemente dadas, era tempo de partir.
***
No pé da escada, um Heinrich terrivelmente preocupado esperava pelas duas. Para quem o conhecia, era profundamente estranho vê-lo enfiado naquelas roupas rotas e esfarrapadas que envergava.
- Estão prontas? Precisamos ir.
Anne fez um breve aceno com a cabeça, deixando escapar um sorriso ao ver o marido em trajes de cidadão comum. Talvez se não houvesse a guerra, e o tivesse encontrado pela rua, poderia ter se apaixonado por aquele adorável homem do povo, com o rosto levemente sujo de fuligem.
Aliás, todos exceto ela estavam vestidos de modo bem parecido, e com uma leve camada de pó preto sobre o rosto e as mãos. Precisavam parecer pessoas pobres, assim não chamariam atenção nas ruas destruídas de Berlin.
- Liesel, vá com a Nana. Eu e sua mãe vamos depois. – disse o pai pegando a mala que a esposa segurava.
A contragosto a menina soltou-se de Anne e agarrou-se a rechonchuda mão de Valkyrie, que segurava Wilhelm no colo.
Aquele era a parte do plano que deixava a todos incomodados. A separação da família era extremamente necessária para a fluência do estratagema bolado por Rudolph, e só por isso aconteceria.
Com dor no coração, e ao mesmo tempo esperançosos, Heinrich e Anne viram Nana partindo com as crianças.
Ficaram quietos, como se a partida dos filhos os tivesse esvaziado por completo. Não tinham palavras para dizer, não tinham expressões faciais para usar, de repente estavam ocos.
O silêncio na cozinha durou minutos torturantes, a brisa de primavera a invadia entrando pela porta aberta, enchendo-a com o cheiro das rosas do jardim que apesar de tudo, insistiam em ainda florescer. Insistiam em perfumar ainda que ninguém mais se desse ao trabalho de cheirá-las.
- Não se preocupe meine liebe, tudo vai dar certo.
Heinrich estava extremamente concentrado, e tinha os olhos fixos na porta como se ainda visse a babá e os filhos saindo por ela.
Fitou o relógio na parede. Apesar de tentar tranqüilizar a esposa, Heinrich transpirava tensão. Era a hora de ir.
Pôs os braços ao redor dela, aspirou de leve o perfume dos cabelos negros enquanto a apertava contra si.
- Já passamos por situações piores...
- Nós já tivemos situações bastante complicadas.
- Eu te prometo que vai dar tudo certo. Ainda confia em mim, não confia?
Dedos delicados e morenos subiram até o rosto de Heinrich, exploraram o queixo quadrado, os lábios róseos, as bochechas sujas de fuligem, e por fim enfiaram-se por entre os fios dos cabelos louros.
- Eu sempre confiarei em você Major Von Veltheim. – disse Anne com sua voz suave e um sorriso de lado.
- Você realmente sabe como me animar cigana...
Com ares de cumplicidade saíram para o quintal dos fundos, onde uma carroça e um cavalo esquálido esperavam. Aquele era o meio pelo qual Anne e Heinrich chegariam à casa dos Kriegel.
Rudolph achara ser melhor que Valkyrie fosse sozinha com Wilhelm e Liesel, porque a gorducha senhora bávara, junto a duas crianças “perfeitamente” arianas não atrairia qualquer tipo de atenção indesejada.
Já Heinrich e sua carroça poderiam despertar curiosidade, e se ao acaso fossem parados e encontrassem Anne em meio aos caixotes e panos, ao menos os filhos se salvariam por não estar com os pais.
- As crianças não demorarão a chegar não é? – indagou a preocupada mãe que se enfiava entre as caixas de madeira.
- Nein meine liebe, só um pouco depois de nós. – respondeu ele colocando a ultima mala dentro de um dos caixotes.
E por esse motivo Heinrich havia se forçado a esperar quase meia hora desde a partida dos filhos. Sabia que Anne ficaria ansiosa caso demorassem a chegar, a casa dos Kriegel era um tanto quanto distante, e Nana não era lá muito rápida, ainda mais carregando Liesel e Wilhelm.
Cobriu as caixas e a esposa com uma grossa manta, certificando-se de que a mulher não pudesse ser vista, mas parte das caixas sim.
Amarrou tudo com uma corda, para que o vento não levantasse o pano, sentou-se no pequeno banco destinado ao condutor e com um rápido movimento das rédeas, acoitou o magrelo cavalo para que ele começasse a andar.
E naquele fim de tarde de primavera, Heinrich Von Veltheim deu uma breve olhada para casa onde nascera e crescera, onde seus filhos haviam nascido, e onde havia se casado com a mulher de sua vida.
Não sabia, mas aquela seria a última vez que a veria.
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