Bem Vinda Ao Campo
62 Contaminação, Fuligem e um Uivo de Despedida
Notas iniciais
Boa Leitura.
O sol baixava-se lentamente no horizonte, em outros tempos aquela seria uma paisagem maravilhosa. Heinrich amava o fim de tarde na cidade de Berlin, mas mal podia recordar-se de como era.
Tudo o que via agora era um borrão laranja e difuso, tal qual uma explosão, escondendo-se atrás de construções chamuscadas e bombardeadas.
Crianças magras e sujas corriam entre os escombros, brincavam de guerra, lançavam pedras como se fossem bombas, com as mãos simulavam armas com as quais atiravam em russos imaginários.
Era impressionante perceber o quão fundo as idéias do Nacional Socialismo haviam se enraizado na mente dos pequenos, que apesar de tudo ainda acreditavam na vitória e no caráter de Hitler. E nisso, não eram únicos.
Ainda que a cidade tivesse sido praticamente demolida, ainda que boa parte dos homens e jovens tivesse morrido em batalha, mesmo com todos os racionamentos e derrotas, em Berlin ainda pairava uma cega fé na “Divina Providência que o Führer insistiam em bradar, que estava ao seu favor. Os que assim acreditavam não eram unanimidade, mas eram uma grande parte da população restante, afinal haviam decidido ficar ao invés de fugir como muitos outros fizeram.
Heinrich arrepiava-se ao ouvir os sons de tiro e explosão que os moleques faziam com a boca. A guerra estava tão presente no cotidiano, que se tornara apenas um joguete de crianças.
– Morra soviete! Morra!
O grito foi dado por um deles, tinha o dedo apontado como um rifle em sua direção, andava ao lado da carroça como se pretendesse rendê-la.
Com um sorriso entristecido o major deu sua resposta ao menino. Mal sabia ele das coisas. Pobre garoto, não sabia de nada.
– Cuidado crianças, há de ter alguma coisa afiada no meio desses entulhos, podem acabar se machucando.
– Não somos crianças soviete maldito! Somos homens e vamos defender Berlin!
– Deveriam se preocupar em defender a si mesmos, quando os sovietes chegarem, pedras não irão detê-los.
Acelerou o passo do cavalo, porque aquela cena fazia dele um ser miserável. Nem que quisesse poderia expressar a tristeza que sentia em ver garotos tão jovens contaminados por idéias tão sujas.
E então, pela primeira vez considerou a possibilidade de que mesmo com o fim da guerra, o nazismo continuaria a existir.
***
A noite já se precipitava sobre a cidade, caindo como um manto negro que cobria Heinrich e sua carroça.
Enfim o trajeto estava por acabar, poucas quadras os separavam do abrigo seguro que era a casa dos Kriegel.
Não pensava além da chegada. Não tentava imaginar ou estruturar qualquer plano para o futuro, sabia que seria inútil.
Havia feito tudo o que estivera ao seu alcance, havia se arriscado além do que deveria, só podia agora esperar que as coisas se ajeitassem por si próprias.
Estava tão otimista quando perturbado com a chegada dos Aliados.
Entendia que eles iriam por fim ao inferno que se passava na Alemanha, mas conhecendo a guerra como conhecia, duvidava da generosidade dos “inimigos”.
Na melhor das hipóteses, sofreriam punições semelhantes ao do Tratado de Versalhes quando o país fora acusado de iniciar a Primeira Guerra Mundial. Perda de território, restrições numéricas do exército e o pagamento de indenizações pelos prejuízos causados durante a guerra.
E isso na melhor das hipóteses.
A verdade era que mesmo que reduzissem a Alemanha à cidade de Berlin, ainda que o exército tivesse apenas vinte homens e que tudo o que houvesse de valor fosse entregue para pagar pelos prejuízos, as perigosas idéias nazistas não seriam extintas ou contidas, e os danos jamais seriam pagos.
Vira o nazismo naquele mesmo dia, naquelas crianças que brincavam de ser soldados. Via as vítimas quando olhava nos olhos da própria esposa.
Era recorrente que ele se lembrasse daquela cigana, que há tanto tempo atrás, moribunda e deitada numa maca agarrara-lhe o braço suplicando para que ele salvasse uma vida. A vida de Anne.
Milhares, talvez milhões de pessoas haviam sido assassinadas de todos os modos possíveis. Experimentos terríveis, fome, violência, doenças, câmaras de gás...
Eram vidas que terminaram por subir pelos ares em forma de nuvens negras, escapando pelas chaminés dos campos de concentração. Vidas perdidas para sempre.
E isso, nem mesmo todas as indenizações ou penalidades poderiam pagar. Aquela era nódoa que permaneceria para sempre na História.
***
Virando a esquina junto as rodas da carroça, vinha um velho vira-latas. Começara a segui-la duas ruas atrás e permanecia. Provavelmente estava em busca de comida.
Num fugaz momento Heinrich fitou os olhos do cão e lembrou-se do olhar de perdigueiro do general Löhnhoff.
Não havia mais tido notícias dele, esperava que estivesse bem, mas não podia ignorar o fato de que ele decidira ficar no campo e enfrentar os russos.
Entendia aquilo como o último gesto de honra de um homem que havia se equivocado em suas escolhas. Löhnhoff sabia da gravidade de seu erro, e acreditava que ao ficar e morrer, ou menos recobraria a dignidade.
E antes que passasse de mais uma esquina, o vira-latas fez tal qual o general. Estacou, sentando-se no meio da rua, ficou para trás acompanhando a carroça apenas com os olhos.
Heinrich virou-se para fitá-lo mais uma vez e o cão soltou um latido longo e doído, um uivo de despedida que fez o major arrepiar-se por completo.
Tentando ignorar a súbita sensação de desconforto, voltou a olhar para frente e com esse simples gesto tirou todo peso do coração. Logo ali estava a casinhola de Hans Kriegel.
Da última vez que a vira, apesar de quase ter sido bombardeada, estava com uma aparência melhor do que naquele momento.
Uma camada de fuligem recobria todas as paredes externas dando a impressão de que a casa era de uma cor incerta entre preto e cinza. E o barracão onde Rudolph se escondera continuava derrubado. Jamais fora reconstruído.
As casas vizinhas se encontravam em situação igual ou pior. Uma logo ao lado era apenas um monte de entulhos chamuscados, e uma outra havia sido parcialmente destruída, de modo que os moradores haviam improvisado com tábuas velhas as paredes de um cômodo inteiro.
Considerando o entorno, o pequeno casebre de paredes cor de chumbo era o que estava em melhores condições.
Apeou da carroça tentando imaginar como ele, Anne, Nana, as crianças e os Kriegel iriam viver todos sob o mesmo teto.
Notas finais
-- X --
Pois bem queridas, acho que já perceberam que os capítulos tem demorado muito mais para sair ultimamente.
Peço que não se preocupem quanto a demora, além da falta de tempo, a inspiração tem resolvido me escapar da cabeça.
Chego a pensar que o fato de "Bem Vinda ao Campo" estar chegando ao fim me deixa um pouco... bem... receosa.
Esse capítulo foi escrito e reescrito algumas vezes, porque nessa reta final, eu realmente quero que fique tudo o mais bem amarrado e verossímil possível, e isso envolve pesquisas e releitura dos capítulos anteriores para que as coisas fluam corretamente.
Acho também que ando tendo dificuldades em acabar porque essa história tem sido como um filho e deixar um filho ir é bem difícil. Saber que está do fim dá uma dorzinha no peito...
Mas em suma é isso, não se preocupem, não abandonei e nem abandonarei a fic. Demora mas chega. ;)
Obrigada pela paciência, e é claro, um obrigado especial a Carolina Kirshenbaum que fez uma recomendação adorável para a fic. Obrigada mesmo sua linda!
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