Bem Vinda Ao Campo
63 Doçura Inesperada
Notas iniciais
Boa Leitura.
Nervosamente, Heinrich espiou ao seu redor. Ao que parecia, não havia ninguém pela rua.
Constatando o fato, correu até a porta do casebre cor de chumbo e deu três batidas ritmadas. E antes que pudesse contar até dez o rosto enrugado de Hans Kriegel apareceu na janela da cozinha.
O velho fez um breve aceno com a cabeça e no mesmo instante a porta foi aberta, Muriel Kriegel esperava com os olhos dourados arregalados de susto.
- Rápido querido... – sussurrou ela apertando as mãos como que em oração.
Heinrich deu as costas à mulher e voltou-se para a carroça. Desamarrou a corda o mais depressa que pode, e ainda mais depressa foi o modo como tirou o pano de cima das caixas.
- Chegamos meine liebe. – murmurou ele para o meio dos caixotes.
A cigana elevou-se ágil, e como um gato ela saltou para o chão. Muriel fez um “o” de surpresa ao perceber a morenice e os modos felinos da esposa do major Von Veltheim. Era uma moça belamente exótica.
- Para dentro, depressa. – disse-lhe o marido com ares de preocupação enquanto espiava a rua novamente.
Passou rapidamente pela mulher parada na porta. Tão acostumada estava com a amplitude da mansão onde morara nos últimos anos que adentrou a casa num embalo e antes que pudesse das cinco passos dentro da cozinha chocou-se contra uma cadeira de madeira gasta.
- É pequeno aqui. — resmungou-lhe um velho de aparência amargurada.
- Agradeço por ter nos deixado vir e...
Foi interrompida pela presença de Heinrich e da senhora por quem passara na porta. Ambos ainda pareciam levemente tensos.
- Anne, esse é Hans Kriegel, o dono da casa. – explicou o major.
- Agradeço por tudo senhor Kriegel.
- Não se incomode com isso moça. – disse Hans por entre os dentes.
Mesmo que quisesse ser simpático, ele continuava sendo de uma rabugice extrema, mas Anne não se atentava para o fato. Na verdade, jamais poderia agradecer o suficiente.
Aquele velhote ranzinza estava lhe dando um teto para se abrigar com sua família, e em tempos como aqueles, não havia nada de mais precioso.
- A senhora deve ser Muriel Kriegel... – disse a cigana sorrindo e se aproximando da mulher – Agradeço-lhe também.
- Ora, não se preocupe querida. Não é nada demais, é o que as pessoas deveriam fazer em situações difíceis, ajudarem-se umas as outras.
- Eles chegaram! – exclamou uma voz vinda de outro cômodo.
Uma jovem loira de olhos dourados irrompeu pela cozinha. Pareciam extremamente contente com a presença de Heinrich e Anne.
- Olá major! E olá Anne, estava ansiosa para lhe conhecer.
Encararam-se brevemente. Tinha quase a mesma idade, apenas dois anos de diferença, mas não era como parecia.
Apesar de ser mais alta que a outra, Kristina ainda não havia se desenvolvido completamente, o corpo de Anne dava-lhe uma aparência muito mais adulta mesmo que também fosse uma adolescente. O corpo e a história de vida.
Os olhos d’ouro de Kristina ainda eram sonhadores como os de uma criança, e as íris cor de gelo de Anne ainda que esperançosas, eram marcadas por experiências, provações.
A loira esticou a mão para cumprimentar, mas a morena ignorou o gesto preferindo abraçá-la como a uma grande amiga que não via há muito tempo.
- Eu sinto como se já lhe conhecesse Kristina.
Sorriram-se enquanto se desvencilhavam do abraço apertado.
- Bem, já que se conheceram é melhor que a moça e o moleque ali se acomodem... – ranhetou Hans olhando pela janela da cozinha.
Estava preocupado com a chegada do resto dos visitantes. Ao que lhe dizia seu relógio de visor rachado, a babá já deveria ter chegado com as crianças há dez minutos.
- O que há papai?
- Nada. – disse ele afastando-se rapidamente da janela.
Sabia que já deveriam ter chegado, mas não quis alarmar o major a e mulher. Talvez tivessem se perdido no caminho ao algo assim, não deveria ter ocorrido nada de mal.
***
Com a ajuda da mãe e da filha Kriegel, Anne organizou tanto quanto possível as coisas que haviam trazido dentro do pequeno quarto de Kristina.
As malas foram colocadas dentro do armário da moça que havia tido o cuidado de vagar um espaço para elas.
O carrinho de Wilhelm e a boneca de Liesel, os únicos brinquedos que não haviam sido deixados para a trás ficaram repousando sobre a cama.
No pouco espaço que havia de piso, fora deitado um colchão surrado que Hans conseguira com um amigo. Já que iria receber o major e a família, não deixaria que eles dormissem no chão.
- Acho que é só... – disse a cigana com um fio de voz rouco.
Não tinha se pronunciado a respeito, mas a demora dos filhos estava lhe preocupando. Heinrich havia dito que talvez já estivessem ali quando chegassem, entretanto a verdade era que ela já estava há quase meia hora na casa e eles não haviam aparecido.
- Já devem estar chegando.
Foi Kristina quem falou. Muriel já havia saído do quarto e voltara para a cozinha, mas sua filha continuava parada na porta observando a nova amiga.
- Eu espero que sim... eu não sei como seria se... eles são tudo e... – sua fala saía cortada por longos espaços de silêncio durante os quais ela tentava conter os soluços – Meu Deus, eles são tudo para mim, eu morreria se algo acontecesse...
E antes que pudesse terminar aquela frase cheia de hiatos, sua voz cessou de vez e Anne caiu em prantos sentada sobre a cama.
- Não Anne, não fique assim, eu tenho certeza de que eles chegarão bem. – afirmou Kristina sentando ao seu lado e lhe abraçando.
Chorava porque a simples idéia de perder seus pequenos devastava seu coração por completo. Muita coisa mudara desde que se soubera mãe pela primeira vez.
Abandonara a impetuosidade e o atrevimento, passara e encarar a vida de um outro modo, onde não havia espaço para valentias. Era agora tão consciente dos perigos, que o simples caminho de casa até ali lhe parecia aterrador.
Não saberia dizer quanto tempo passou acolhida nos braços de Kristina até que as pessoas na cozinha se dessem conta do que ocorria no quarto e fossem ver.
- Meine liebe... não fique assim, tenho certeza de que Nana já está chegando com as crianças.
- E se não chegarem? – indagou chorosa – Heinrich, eu sei que eles já deveriam estar aqui há muito tempo...
- Olha só moça, eu tenho certeza de que seus filhos chegarão bem. – disse Hans secamente.
Caminhou para dentro do quarto, parou quando ficou diante da chorosa mulher do major. Os olhos de gelo e de prata embateram-se silenciosamente por longos segundos
- Não se preocupe. – disse ele suave, pousando a mão nodosa e cheia de veias sobre o ombro de Anne.
E saiu como se não tivesse agido com extrema docilidade, como se não tivesse dito aquelas palavras com uma gentileza da qual sequer parecia capaz.
Ficaram então todos quietos no quarto. Anne não chorava mais.
Estavam estupefatos com a súbita atitude delicada daquele velho senhor amargurado. Perplexos ficaram calados ouvindo os passos dele sumirem porta da cozinha afora.
Notas finais
--X--
Espero que tenham gostado, e lamento pela demora. Por hora é isso pessoal. ;)
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