Bem Vinda Ao Campo
46 Tempo Para Repensar
Notas iniciais
Boa Leitura
Ouvia vozes, mas não tinha certeza se estavam só em sua cabeça ou se elas eram reais. Sua cabeça doía.
Se fosse pensar bem, seu corpo inteiro doía.
– É como eu já lhe disse, major. Até que ele acorde, nada pode ser feito.
– Quanto tempo mais isso pode durar? Ele já está assim há dois dias!
– É impossível precisar.
Quanto mais reais e mais audíveis as vozes ficavam, mais sua cabeça doía. Reconhecia uma delas como sendo a de Heinrich.
– Realmente não a nada que possa ser feito?
– Infelizmente não. Não há como saber se o impacto da explosão causou alguma seqüela mais grave. Resta esperar.
Rudolph queria dizer que estava bem, ou próximo disso, mas não conseguia mover os lábios.
– Bom, sendo assim obrigado pela visita, doutor.
Ouviu então o som de notas sendo folheadas, seguido de um “Até a vista” da voz desconhecida e passos se afastando.
– Você precisa acordar logo. – disse Heinrich – Sabe que não posso me virar sem você...
Queria dizer que estava acordado, mas seu corpo simplesmente se negava a lhe obedecer.
– Alguma novidade? – indagou uma voz feminina recém-chegada.
Era Anne. Alegrava-se em saber que seus melhores amigos estavam ao seu lado apesar de tudo.
– Nada meine liebe, temos que esperar. O médico disse que não é possível precisar a gravidade da situação dele...
– Sei que Rudolph está bem.
– Como sabe?
–Não pensa que isso pode ter sido uma coisa boa para ele?
– Não vejo como.
– Pois eu tenho a impressão de que esse acidente trará boas novas para a vida dele. Deus escreve certo por linhas tortas.
E internamente Rudolph sorriu, pois era reconfortante aquela áurea positiva e mística que a cigana possuía.
***
Não tornou a dormir, ficou por horas preso no escuro de suas próprias pálpebras. Ficou sozinho no quarto.
Pensava em diversas coisas, mas principalmente na menina que o encontrara. Tinha que lhe agradecer quando se recuperasse.
Apesar de ter a consciência de que ela não era nenhuma criatura divina, e sim uma pessoa real, ainda achava que era algum tipo de anjo em terra. Heinrich haveria de saber como a encontrar.
Anjos. Passara a acreditar neles, e em Deus também.
Estranho pensar que fora necessário ser vítima de um bombardeio para passar a acreditar na existência de Deus.
Anne sabia das coisas. No fim, aquele acidente lhe servira para alguma coisa, abrira sua mente para o que estava além do seu entendimento.
Mostrou-lhe que era possível haver mais do que aquilo que os seus olhos eram capazes de enxergar.
Por toda a vida buscara uma prova, algo que explicasse o motivo de as pessoas, incluindo sua própria mãe e o melhor amigo, devotarem tanta fé em uma entidade superior nunca antes vista.
Entendia agora que era extremamente consolador pensar assim. E que crer na possibilidade de algo maior que si, crer na existência de algo mais além tornava a vida muito mais aceitável.
E se não fosse por Deus, teria ele sobrevivido? Afinal, quais eram as chances de se correr pela cidade em pleno bombardeio sem ser atingido?
E como se não bastasse, ainda havia sido resgatado por um anjo em forma de menina, com longas tranças e olhos dourados imaculados.
Talvez demorasse algum tempo até que tivesse a mesma fervorosidade religiosa de Heinrich, e talvez nunca chegasse a ter, mas contentava-se porque agora acreditava de todo o coração.
Pensava em sua atual situação. Não conseguia se mexer, e sentia dores, mas estava otimista. Naquele caso sentir dor era bom, ao menos sabia que não havia ficado aleijado.
Não tinha confusão mental, o que também era bom, e sua audição parecia-lhe perfeita. Achava que não havia sofrido graves sequelas.
Não estava tão mal, havia nascido de novo. Deus havia lhe dado uma nova chance de viver. Um tempo para repensar.
***
A cena familiar de dias atrás se repetia na sala de estar. Valkyrie tricotava, Liesel brincava no tapete, Anne amamentava Wilhelm, e Heinrich observava.
A única diferença era que dessa vez o patriarca estava muito menos contente e tinha um envelope nas mãos.
– Vou ter que voltar a Auschwitz.
– Sabíamos que seria assim, querido.
– Eu sei meine liebe, mas eu queria que fosse diferente.
Realmente queria que fosse de outro jeito. Não queria deixar Berlin com Rudolph naquele estado, e não queria nem pensar na possibilidade de deixar Anne e as crianças.
Tivera sua família por poucos dias, e já sentia saudades por prever os meses que ficaria distante deles.
Liesel estava adorável em seu vestidinho azul, e Anne colocara um grande laço de fita da mesma cor em seu cabelo. Era bom ver sua menina sendo cuidada pela nova mãe.
Wilhelm estava enrolado em sua mantinha branca, apenas os cabelinhos louros apareciam enquanto o pequeno sorvia continuamente o leite do seio materno. Estava mais gordinho a cada dia.
E Anne radiante, com os longos cabelos negros presos para trás parecia uma pintura de tão bonita. Sair de Auschwitz lhe fizera tão bem, reavivara a luz morena de sua pele, o brilho dos olhos, devolveu-lhe a juventude. E a maternidade encheu-lhe os olhos de gelo de ternura.
– O que houve Heinrich? – indagou ela com um sorriso no rosto.
– Nada meine liebe, é só que...
Parou no meio da frase porque escutou uma vozinha lhe gritando ao longe. “Major Von Veltheim” chamava a voz.
– Quem será? – indagou Valkyrie já se adiantando para a janela.
– Não sei.
– É uma mocinha loura... – constatou ela.
Heinrich franziu as sobrancelhas, levou alguns segundos para se recordar de quem seria.
– Kristina! É a menina que encontrou Rudolph, deve ter vindo vê-lo.
– Deixe que ela entre. – decretou Anne se levantando rapidamente da cadeira – Vai fazer bem para Rudolph.
– Mas e você meine liebe?
– Vou subir com as crianças, venha Liesel.
Estava decidida, sentia que a presença daquela moça faria um bem inestimável para Rudolph. Não se atrevia a dizer que era uma previsão, mas tinha aquela sensação como um forte pressentimento.
E antes que mais algo pudesse ser dito, Anne já estava na metade da escada. Wilhelm no colo e Liesel segurando sua mão esquerda. Uma respeitável mãe.
– Depressa Heinrich, vá buscá-la no portão.
Notas finais
E Anne tendo pressentimentos...
Será que ela está certa?
Comentem suas lindas! *-*
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