Bem Vinda Ao Campo

34 Sob uma Chuva de Bombas


Tudo o que se seguiu ao alerta sonoro ocorreu de modo muito rápido e confuso, Heinrich tomou Anne nos braços e desceu correndo as escadas levando-a no colo. Ela não estava em condições para se locomover com rapidez.

Quando chegou à sala, deparou-se com Nana, também correndo, segurando Liesel firmemente contra o corpo, a pequena chorava sem entender nada.

Rudolph apareceu logo em seguida, assustadoramente pálido, passou apressado por eles, indo em direção à sala que dava acesso ao porão.

- Rápido, vamos, vamos! – gritava o médico segurando a porta do alçapão aberta.

Valkyrie foi a primeira a descer levando Liesel consigo, em seguida Heinrich ajudou Anne a fazer o mesmo, adentrando o porão logo após a cigana, o último fui Rudolph que ao entrar puxou a tampa, cerrando-os dentro do abrigo anti-bomba.

Ninguém dizia nada, Liesel aos prantos estava completamente assustada, estava escuro, ela tinha acabado de acordar e não sabia em que lugar se encontrava.

- Se acalme querida, vai ficar tudo bem. – tentou tranquilizar a babá apertando-a contra o corpo fofo.

Não adiantou, o berreiro da menina continuou até o cair da primeira bomba. Havia sido tão perto, que sentiram as estruturas da casa estremecendo.

Ninguém tinha coragem de dizer nada, ficaram em completo silêncio enquanto bombas choviam lá fora, longos e incontáveis minutos se passaram, Liesel aparentemente se esquecera de chorar.

No meio daquela quietude sepulcral, um gemido se fez ouvir. Era Anne.

- Meine liebe? – indagou Heinrich preocupado – O que houve?

Estava com ela em seus braços desde que ouvira a sirene alertando o bombardeio, sentira que ela respirava aceleradamente, mas julgou ser apenas por conta do susto.

- Está nascendo... – ganiu ela, a dor plenamente perceptível no som de sua voz.

- Qual o intervalo das contrações? – perguntou a voz de Rudolph no escuro.

- Curto! – ofegou a cigana – De que importa? Estou sentindo que está saindo!

Estava nervosa, sentia dores desde que o major correra com ela para fora do quarto, sabia que a hora havia chegado, sentia como se rasgassem seu corpo de dentro para fora, não importava o tempo das contrações.

- Vou ligar a luz. – decidiu o médico tateando as paredes em busca de um interruptor.

- Rápido, pelo amor de Deus! – pediu Heinrich, que apertava Anne contra si.

Estava desesperado, aquele era um péssimo momento e um péssimo lugar para seu filho nascer. Não se levantava ele mesmo e ia tentar ligar as luzes porque não tinha coragem de se afastar de Anne.

Agonizantes foram os segundos levados até que Rudolph finalmente encontrasse o interruptor. Quando tudo se acendeu, foi possível ver Valkyrie nanando Liesel à um canto, o major abraçando Anne, e ela encostada em seu peito estava vermelha, gotas de suor brotando da testa, uma enorme poça no piso ao seu redor. A bolsa estava estourada, o parto já estava realmente próximo, ela havia segurado calada as dores por muito tempo.

- Preciso preparar os instrumentos...

O médico corria de um lado ao outro do porão procurando por alguma coisa que servisse. Acabou por reunir pedaços de pano, uma cortina de seda sem uso, e duas almofadas velhas.

- Coloque as almofadas em seu colo Heinrich, deite a cabeça dela aí.

Enquanto Veltheim acomodava Anne conforme o indicado, Rudolph chacoalhava a cortina tentando espanar a poeira.

- Aaaaarghhh...

Anne urrava, parecia que o filho ia nascer antes que os preparativos do Dr. Krämer acabassem.

Sem que ela percebesse, cega e surda pelas dores, sua cinta e a calcinha foi retirada, o vestido levantado e a cortina jogada sobre seus joelhos dobrados.

- Vou precisar que faça força Anne. – pediu Rudolph, a voz controlada ainda que por dentro estivesse em pânico.

Nunca havia feito um parto, assistira a alguns, tivera aulas teóricas sobre aquilo, mas era a primeira vez que duas vidas, a da mãe e a do bebê, eram depositadas em suas mãos.

— AAAHHHHHH!

Apesar de ter visto coisas muito piores do que o nascer de uma criança, Heinrich estava apavorado. Não ficou no quarto quando Gretel deu a luz a Liesel, ouvira do corredor os gritos, o modo como a mulher pedia para que o suplício acabasse logo.

Anne por sua vez não dizia coisa alguma, não reclamava das dores, apenas gritava para dar vazão a elas. Estava concentrada, mais preocupada em fazer com que o filho nascesse do que com qualquer outra coisa.

- Você vai conseguir meine liebe, vai dar tudo certo. – afirmava ele mais para si que para ela – Segure minha mão.

Quase se arrependeu ao sentir a força com que Anne apertava seus dedos, jamais poderia imaginar que ela fosse capaz de exercer tamanha pressão com aquela mãozinha pequena.

- Vamos Anne, force, empurre!

As incitações do médico a estimulavam e irritavam em igual maneira, só ela sabia o que estava sentindo e o quanto era difícil dobrar a barriga para forçar a expulsão do bebê.

Liesel observava sem esboçar qualquer reação, estava completamente focada e atenta a Anne, tinha medo que algo de ruim acontecesse com a fada dos cabelos negros.

Valkyrie proferia de modo rápido e inteligível diversas orações em dialeto bávaro, provavelmente variações das rezas mais comuns como o “Pai Nosso”, a “Ave Maria” e o “Credo”.

Heinrich, com olhos enormes de medo, sussurrava coisas gentis a Anne, tentando acalmar a ela que mal o escutava e a seu próprio coração, apertado de temor e emoção.

E Rudolph, ainda que não fosse um homem de fé, pedia mentalmente a Deus caso Ele existisse de fato, que permitisse um bom parto a cigana.

As bombas continuavam estremecendo a casa, mas ninguém lhes dava atenção, todos os olhos e ouvidos estavam voltados para Anne que berrava, empurrando o filho para a vida com todas as forças que tinha.

- Está coroando! Já posso ver a cabeça! Continue Anne, continue!

Os gritos dela se tornavam cada vez mais altos, sobrepondo-se ao som do bombardeio, Anne antes vermelha parecia prestes a explodir.

- AAAAAAAAAAAAAAAARRR!

Depois de cada impulso que dava tinha a impressão de que ia desmaiar para nunca mais acordar. Não conseguia explicar de onde ainda tirava forças.

Num momento de súbita lucidez, porque até então não pensava em nada além de fazer nascer aquela criança, percebeu a medalhinha de Santa Sara Kali pairando a centímetros de seus olhos, pendendo do pescoço do major.

Era dali que tirava forças, da fé, algo inexplicável, mas que permitia que tudo aquilo estivesse acontecendo.

Não fosse a fé da madrinha em um futuro auspicioso, nunca teria conhecido Veltheim, nunca teria o amado, e seu filho não existiria.

Num último esforço, empurrou com todo o vigor que pode, tremia, sentia o suor escorrendo por sua pele, sentia que não aguentaria mais.

Ouviu o choro agudo do bebê, uma graça divina enviada sob uma chuva de bombas.

Notas finais
Pura tensão e emoção, o parto aconteceu justamente quando não deveria! Mas não tem como entender esses acasos não é mesmo?
Espero que tenham gostado, deixem seus comentários suas lindas. ;)