Bem Vinda Ao Campo

35 Pequeno Milagre


Aliviada e com sensação de dever cumprido, quase desmaiou no colo de Heinrich, havia conseguido, seu único desejo agora era ver seu bebê.

– Deixe-me vê-lo, deixe-me vê-lo! – pediu Anne sentando-se tão rápido quanto pode.

Rudolph sorria para a trouxinha de panos ensangüentada que segurava, o chorinho estridente da pequena criatura ainda se fazia escutar.

Cuidadosamente entregou o embrulho à cigana, que o recolheu nos braços, fazendo cessar o pranto da criança de imediato.

– É um menino, perfeito e saudável. – declarou o médico ainda sorrindo.

Anne sorria, seu filho era do mesmo modo como aparecera em seus sonhos, gorducho e rosado, uma fina camada de fios dourados sobre a cabeça. Verteu lágrimas de felicidade olhando para o rostinho redondo.

– Ele é tudo o que imaginei... – disse ela.

Heinrich emocionado observava o modo como Anne abraçava o filho, sentia uma vontade quase incontrolável de chorar ao ver que os dois estavam bem, e que o pequeno era um anjinho.

O nascimento dele imergiu o porão em paz absoluta, o som das bombas caindo já não era mais audível, Valkyrie parou de rezar, agora só sorria, Rudolph podia respirar fundo novamente por ter dado tudo certo, e Liesel esquecera o medo causado pela situação inusitada, estava curiosa.

Desprendeu-se dos braços da governanta e correu em direção à Anne, espiou dentro do embrulhinho de pano sujo de vermelho e viu aquela coisinha rosa e rechonchuda.

Brüderlein. – sussurrou a pequena tocando com os dedinhos a bochecha do recém-nascido.

Ninguém no recinto teve vontade de contestá-la, nunca havia sido contado, mas de fato aquele novo bebê era o brüderlein de Liesel, era o seu irmãozinho.

– Gostou dele mein schatz?

Ja papa, gostei muito dele.

Anne puxou Liesel para si, abraçava sua menina e seu menino ao mesmo tempo, Heinrich que ainda acolhia a cigana em seu peito, abraçava a todos. Sua família.

O som agudo da sirene avisando que o bombardeio havia acabado ecoou, despertando a todos daquele pequeno transe.

– Já é seguro subir? – indagou Valkyrie se levantando.

– Sim, creio que sim. – respondeu Heinrich.

– Pois então vamos logo. – pediu Anne entusiasmada – Preciso me trocar.

Com toda a naturalidade do mundo, ficou de pé, sentia que sua agilidade estava de volta agora que perdera aquela barriga gigante.

– Não deve ficar andando meine liebe, precisa descansar.

– Ora por favor, acabei de ter um filho, não estou aleijada.

***

Ignorando todos os conselhos de Heinrich e Rudolph sobre repouso, Anne andava pelo quarto embalando o filho nos braços.

Liesel já havia dormido, mas até pegar no sono ficou por perto, acariciando o irmãozinho e perguntando coisas a respeito dele.

De onde ela tirara a idéia de que aquele neném era seu irmão nunca saberiam, provavelmente do mesmo lugar de onde viera a certeza de que era um menino.

– Deveria estar deitada meine liebe... – disse Veltheim parado à porta.

– Estou fazendo ele dormir.

Entrou lentamente no quarto, aproximou-se, o bebê já estava dormindo a sono solto.

– Eu entendo que não queira soltá-lo, mas você precisa descansar.

Anne sorriu, sentou-se na borda da cama, com todo o zelo depositou o filho sobre o colchão macio.

– Preciso comprar um berço para ele...

– Não se preocupe major, ele pode dormir comigo.

Heinrich segurou o rosto de Anne com uma das mãos, queria que ela prestasse atenção ao que ia dizer.

– Ainda que se negue a admitir, ou permitir, esse filho é tão meu quanto seu, e eu vou dar a ele tudo o que eu puder.

Ao contrário do que imaginara, Anne não parecia disposta a relutar, ela simplesmente sorriu.

– Eu já sei qual nome vou dar a ele...

– Mesmo? Qual?

Não havia tido tempo de pensar em nomes para dar ao filho, nem se achava no direito de fazê-lo, estava curioso para saber qual Anne escolhera.

– Wilhelm, acho muito bonito, significa protetor.

Os segundos de silêncio de Heinrich deixaram Anne preocupada, talvez ele não tivesse gostado de sua escolha.

– O que houve? Achou o nome ruim?

– Não, não...

– E então?

Estava estupefato, e bastante emocionado, nunca imaginaria que Wilhelm seria o nome escolhido por ela.

– É só que... – começou ele confuso – Wilhelm é o meu nome do meio...

Ficou calado olhando para o filho adormecido, as coisas aconteciam com tamanha perfeição que ele mal podia crer.

– Nana te falou isso?

– Não, nós raramente falávamos sobre você...

– Meu nome completo é Heinrich Wilhelm Grünewaldt, Graf Von Veltheim.

– Eu realmente não sabia, e não sabia que era conde também. – disse ela com ares de riso.

– Não é uma coisa importante, é só um título bobo.

– Se o diz. Mas afinal, acha o nome apropriado?

– Não poderia ser mais apropriado.

Anne lhe sorriu dando de ombros, ocupou-se então de ajeitar a mantinha que envolvia o pequeno Wilhelm.

– Ele precisa de um segundo nome.

– Por quê?

– Porque será conde, precisa ter mais de um nome.

– Achei que os títulos fossem bobagem.

– São, entretanto um segundo nome é bom.

Aparentemente, por mais tolas que fossem, as tradições estavam presentes em Veltheim, e no fim Anne não achava que fossem assim tão ruins.

– Pois então escolha você o nome, não gosto de nenhum outro.

Pensou por alguns minutos, vários nomes passaram por sua cabeça, até que se decidiu, era o melhor nome que poderia achar.

– Bernhard, o nome será Wilhelm Bernhard Grünewaldt Von Veltheim.

– Porque Bernhard?

– É o segundo nome de Rudolph, acho justo uma vez que foi ele que fez o parto.

Sem pensar no que fazia, Anne puxou Heinrich para um beijo, eram aquelas pequenas coisas, aquele senso engraçado de justiça e retidão, a generosidade não proposital, que faziam com que ele fosse um homem maravilhoso.

– Não pensei que fosse gostar tanto... – gracejou ele, levemente tonto pelo beijo inesperado.

Além da breve tontura, se encontrava em estado de felicidade plena. Finalmente tinha o filho homem que sempre quisera, ele levava seu nome, e tanto o pequeno quanto a mãe estavam saudáveis.

– Você não pode nem imaginar o quanto eu estou feliz meine liebe, por vocês dois estarem bem, por nosso filho ser perfeito...

Anne afagou-lhe o rosto, as faces iluminadas por um sorriso, parecia a menina alegre de outros tempos.

– É o nosso pequeno milagre.

E era, ela tinha toda a razão. Um milagre pelo qual ninguém pedira, mas que chegou para mudar a história por completo.


Notas finais
Oh céus, um Heinrich em miniatura, ou melhor, Wilhelm... *-*
E finalmente um beijo depois de todo esse tempo!
--X--
Para as curiosas:
Wilhelm é a versão germânica de Guilherme, e Bernhard é Bernardo.
Em português a combinação fica estranha, mas em alemão soa bem, e o significado fica super bonito.
Wilhelm Bernhard = Protetor Forte como um Urso ;D