Bem Vinda Ao Campo
28 Reviradas
Sentia o estômago revirar ao pisar naquela sala, lhe parecia repugnante que aqueles homens usassem suas fardas para conspirar contra o Führer.
Não tivera coragem de vestir a sua aquela noite, não podia usar seu uniforme de major da Schuzstaffel se iria se reunir com traidores do Reich.
– Major Von Veltheim...
A voz lhe causou profundo arrepio, era o coronel Claus Von Stauffenberg¹, recém recuperado do ataque aéreo que sofrera na Campanha Norte-Africana². Conhecia sua insatisfação com o rumo da guerra, compartilhava da mesma opinião, mas não o imaginara ali.
– Ou devo lhe chamar de Graf Von Veltheim? – indagou ele, lhe fitando com um único olho bom, o outro encoberto pelo tapa-olho.
– Títulos de nobreza não são necessários por aqui.
A interrupção do coronel-general Ludwig Beck³ foi como uma divina provisão para Heinrich, que particularmente se incomodava com aquele tipo de coisa.
Tanto ele quanto Claus eram condes, mas Veltheim achava esses títulos nobiliárquicos uma grande tolice, que nada tinha a ver com sua pessoa.
– É um prazer e uma surpresa vê-lo major. – emendou Ludwig adiantando-se para lhe apertar a mão. – O que o traz aqui?
– Fui persuadido a comparecer.
– Persuadido?
Henning Von Tresckow4 estava preocupado, sempre ficava preocupado com a chegada de novos membros, ainda mais sendo homens de alta patente.
– Por quem? – insistiu Tresckow.
Heinrich sabia que era suspeito aparecer e dizer que simplesmente havia sido incitado a comparecer àquela reunião, mas temia mencionar Rudolph, e se houvesse algum infiltrado?
– Rudolph Krämer convidou o major Von Veltheim.
Friedrich Olbricht resolveu a situação, falando ele mesmo aquilo que Heinrich havia dito na porta.
Aquietaram-se os ânimos de todos, estava resolvida a questão da inusitada presença de Veltheim.
– Eu pensei que tivesse se juntado a nós por conta da perda que sofreu. – comentou Stauffenberg displicentemente.
– Não compreendo...
– Sua cigana morreu, não?
Deveria ter sabido que seria terrível ficar em companhia dos conspiradores, que não se sentiria bem. Mas como poderia ter imaginado tal pergunta?
– Sim, ela morreu.
– Sabe major, eu nunca tive uma cigana. – disse Ludwig, parecia saudoso – Mas quando era jovem, conheci uma, ela dançava nos festivais, tinha os olhos mais perigosos que eu já vi.
– Olhos perigosos? – gozou o até então calado Werner Von Haeften5 – O que quer dizer com isso?
– Olhos enigmáticos, do tipo que te prendem para sempre antes que perceba.
Não foi o coronel-general Beck que respondeu, e sim Heinrich Von Veltheim, disse sem se dar conta, pensava em Anne.
– Então de certo modo a morte da moça também o influenciou a vir. – concluiu Claus, dando uma piscadela com o olho que lhe sobrava.
– Sempre é triste quando uma moça jovem e bonita morre. – disse Beck dando de ombros – E as ciganas tem o poder de nos roubar a alma...
– Pois bem, acho que já basta de perdermos tempo debatendo sobre a magia das ciganas, temos que voltar a realidade, ou se esqueceram de que temos que nos livrar do Führer?
Heinrich sentiu seu estômago despencando. Havia se proposto a ir até ali, fizera porque Rudolph pedira, e porque começava a perceber que o único modo de ter sua família a salvo era se o Nacional-Socialismo caísse, ainda assim não estava pronto para isso.
Seu dever como soldado era proteger o Führer e não matá-lo.
***
Liesel dormia tranquilamente em seu berço, Anne a fitava, estava tomada por uma emoção que mal conseguia conter.
Ao ver a foto da menina pressentira que tinham uma ligação inexplicável, mas cantar para ela, tê-la nos braços e a botar para dormir fizera com que tudo se tornasse mais intenso.
Sentia que Liesel era tão sua quanto o filho que carregava no ventre.
– Akana mukav tut le Devlesa, murri shukar.
E foi em romani que Anne despediu-se da menina adormecida, do mesmo modo que a madrinha sempre se despedia dela quando era viva.
“Agora te deixo com Deus, minha linda”. Foi o que disse na língua cigana pouco antes de sair e encostar a porta do quarto.
Assim que se viu no corredor pensou em Heinrich, saíra para ver amigos, quando voltaria?
Não gostava de admitir, mas sentia falta da sua presença, de conversar com ele, de o observar fumando seus indispensáveis cigarros alemães junto a janela do alojamento.
Sentia falta de como o major a aconchegava nos braços quando terminavam de fazer amor, e de como parecia um menino despenteado ao acordar.
Saudades era o que sentia ao se recordar de que ele sempre fechava os olhos quando se beijavam, e que demorava a abri-los, como se ainda estivesse sob o impacto do beijo.
Não fosse o rumo que as coisas tomaram não se importaria em passar o resto da vida observando e achando graça dessas particularidades do major.
Por várias vezes se pegou pensando em dizer a ele que estava tudo bem, que ele estava perdoado, e que queria voltar para seus abraços o quanto antes, mas aí lembrava de que não podia, que não estava mais por si só, que tinha uma criança e que não podia ficar ali em Berlin esperando que tudo acabasse, tinha que deixar a Alemanha.
Em sua barriga, o bebê se agitou, sempre o fazia quando Anne pensava em Heinrich, ou quando ele estava por perto.
– Acalme-se – pediu ela acariciando o ventre.
Estava caminhando para o seu quarto quando foi seduzida pela curiosidade, onde ficava o quarto de Veltheim, e como ele seria?
Abriu duas portas antes de encontrar o que procurava, era de longe o maior quarto que já vira em sua vida, decorado com móveis de madeira escura e polida, a roupa de cama era bege bordada com fios dourado, parecia o quarto de um Kaiser.
Bastante condizente, já que o major tinha aquela áurea de poder e influência, próprias de um imperador.
Inconscientemente foi atraída pelo retrato de Liesel pintado a óleo, emoldurado na parede em frente a cama.
Não haviam outros retratos, nem mesmo o da esposa dele. Talvez o major não gostasse de ver para não recordar e ficar triste.
– Anne...?
O sussurro rouco e surpreso lhe despertou de suas divagações, virou-se bruscamente e se deparou com o major parado no batente da porta.
Não estava fardado, era a primeira vez que ela o via sem a farda e sem estar nu, em mangas de camisa ou de pijamas.
– Boa noite major...
– O que faz aqui? – indagou ele, estava espantado, mas ainda assim um sorriso se formou no canto de seus lábios.
– Perdão, entrei aqui por curiosidade...
O sorriso se completou, ele avançou até onde Anne estava encolhida e de cabeça baixa, ergueu-lhe o queixo.
– Está tudo bem Anne, não precisa se desculpar.
O encontro de seus olhos os devastou como uma bomba, e permaneceu inquebrável por diversos segundos.
A cigana sentia como se os dedos dele queimassem em sua pele, e um arrepio percorreu seu corpo todo quando os mesmos dedos escorregaram, entranhando-se em seus cabelos.
– Creio que não vá mudar sua opinião, mas eu realmente sinto muito por ter tido a reação que tive quando fiquei sabendo da gravidez.
O desabafo dele pesava em seu coração, Anne já havia compreendido que ele não fizera por maldade e que estava tentando se redimir, havia a salvado de Auschwitz, mas ainda não estava pronta para dizer isso ao major.
– Isso não é necessário...
– Anne, por favor me deixe falar. – pediu ele acariciando-a no rosto – Sei que não vai acreditar em mim, mas amo nosso filho tanto quanto amo Liesel, e te juro que farei de tudo para manter você e ele seguros.
– Major...
– Por favor Anne, me escute, não espero que retribua e você nem deve, não se sinta obrigada a me aceitar depois do que eu fiz só porque lhe tirei de Auschwitz, não foi com essa intenção que eu a salvei.
– Eu sei que...
– Fiz porque te amo como nunca amei mulher nenhuma, e porque essa criança que você espera é o nosso pequeno milagre, só me dei conta disso agora meine liebe, mas se Deus enviou essa criança para nós, é porque faz parte de seus planos, e sendo assim é uma benção.
Falava muito rapidamente, porque era naquele exato momento que as coisas que dizia lhe passavam pela cabeça, vários pedaços de reflexões e conversas se uniam fazendo com que finalmente tivesse algum sentido. Planos de Deus, havia dito Nana, ela estava certa, tudo era um plano de Deus, desde o princípio, desde que vira Anne pela primeira vez seus destinos foram traçado juntos, lado a lado.
– E agora que sei disso, sei o que fazer mein liebe. – sorria, seus olhos brilhavam, havia encontrado a luz – Ainda não posso lhe dizer nada, mas garanto que em breve você vai ver, se esse mundo não é bom para nós eu vou fazer com que seja.
– Do que está falando? – indagou Anne confusa, mas sem conseguir evitar sorrir, porque o riso do major era contagiante.
– Vou mudar tudo Anne, e então você vai poder me perdoar, me aceitar de volta, e poderemos ser felizes, eu, você, o bebê, Liesel e Nana.
Não entendia a súbita euforia de Veltheim, era como se ele tivesse acabado de ser iluminado por um anjo. Tentava não se deixar levar por aquela onda de emoção.
– Vou me esforçar meine liebe, e serei o melhor pai e marido que pode existir.
– Major, o senhor está indo rápido demais com isso.
– Sei que sim, e sei que é incompreensível por enquanto, quando for a hora eu lhe explicarei tudo. – ele ainda sorria, segurava Anne pelos ombros evitando a vontade absurda de lhe beijar os lábios – Até lá, sejamos amigos, não aguento ficar sem você.
Anne acabou por concordar, também não gostava de como haviam ficado depois da briga, que fossem amigos.
– Então boa noite. – disse ele lhe dando um delicado beijo na testa — Schlafe gut und süße träume.
– Durma bem e tenha bons sonhos o senhor também.
Após retribuir o cumprimento, Anne se retirou rapidamente para seu quarto, sentia as faces quentes, certamente estava corada, o major sempre conseguia lhe revirar os sentimentos.
Notas finais
--X--
1. Claus Von Stauffenber - Claus Philipp Schenk Graf von Stauffenberg foi um coronel alemão da II Guerra Mundial, autor de um dos atentados da resistência alemã contra Adolf Hitler em 1944. Ato conhecido como Atentado de 20 de julho.
Pertencia a uma família nobre da Baviera, detentores do título nobiliárquico de graf, que na nobreza latina equivale-se ao conde.
2. Campanha Norte-Africana - Durante a Segunda Guerra Mundial, a Campanha Norte-Africana, também conhecida como a Guerra do Deserto, desenrolou-se no deserto norte-africano 10 de junho de 1940 até 16 de maio de 1943.
A campanha foi travada entre os Aliados e as potências do Eixo.
3. Ludwig Beck - Coronel General Ludwig August Theodor Beck foi oficial do Estado-maior das Forças Armadas da Alemanha durante os primeiros anos do Terceiro Reich, antes do início da Segunda Guerra Mundial.
Em 1943 se junta a outros conspiradores para assassinar Hitler, caso a tentativa tivesse sucesso, Beck tornaria-se o Chefe do Governo provisório que seria instalado.
4. Henning Von Tresckow - Hennig Von Tresckow foi um general da Wehrmacht e um dos membros da resistência alemã ao regime nazi de Adolf Hitler. Planeou vários atentados contra a vida de Hitler, crendo que apenas o seu desaparecimento podia pôr um fim digno para a guerra.
5. Werner Von Haeften - Werner Karl von Haeften foi um oficial alemão da Segunda Guerra Mundial, tendo participado ativamente no Atentado de 20 de julho, sendo considerado por muitos um herói da resistência alemã.
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