Os dias que seguiram a chegada de Heinrich e Anne em Berlin passaram tão depressa que o major e a cigana mal perceberam.

Tratavam-se cordialmente, assim como era no princípio, com respeito, sem mágoas, e sem aquele arrebatamento louco que a paixão impulsionara. Eram amigos.

A presença de Anne fez com que Liesel se esquecesse de chorar quando o pai saía de noite, encantava-se a cada dia mais com aquela moça, gostava de encostar os ouvidos em sua barriga, escutava os barulhos do bebezinho lá dentro. Mal podia esperar ele sair dali, queria vê-lo.

Talvez ele fosse parecido com Anne, gostaria se fosse, ficava completamente admirada em ver como ela era diferente, com aquela pele de cor brilhante e os cabelos muito negros. Achava que Anne era uma fada, ou um anjo, porque ela não era como as pessoas que conhecia, tal como Nana ou Papa. Deveria ser daquela cor porque se os anjos e as fadas ficavam no céu, certamente eram mais queimados pelo sol.

Assim eram os pensamentos da pequena, que não desgrudava mais da cigana que aparecera como um presente de natal antecipado.

Ainda era muito nova para saber o real motivo, mas percebia o que o pai tratava Anne de um jeito diferente, e que desde a chegada da moça ele parecia mais feliz.

Também era muito jovem para pensar que as coisas estavam escritas antes de acontecerem, ou no destino, mas inconscientemente sabia que Anne era muito especial, e que preenchia um espaço importante em sua vida.

- Quando o bebê nascer você vai poder brincar com ele assim como brinca com Anne. – disse Heinrich sorrindo para a filha.

- Nein. – discordou a pequena com uma expressão séria.

- Porque não, mein schatz?

- Não dá pra brincar de bonecas com um menino.

Nana deu uma longa risada, ao passo que o major gargalhou admirado, e Anne sorriu cúmplice, como se aquele fosse um segredo delas.

- Porque acha que é um menino? – indagou Heinrich ainda com cara da riso.

- Weil ja.

Porque sim. Explicação mais objetiva que essa não haveria, era um menino porque era, só isso.

- Vai gostar se for um menino?

- Ja. – confirmou Liesel sorrindo para Anne – Vou cuidar dele.

Impossível não perceber o quanto Heinrich estava feliz, ver sua família na sala de estar, conversando e dando risadas era a melhor sensação de todas.

Valia todo o esforço que estava fazendo, valia o desconforto que sentia ao se encontrar com os conspiradores em todas aquelas reuniões, lembrava-se da primeira como se tivesse ocorrido ainda há pouco.

Enquanto ouvia os planos propostos teve vontade de vomitar, provavelmente devido à crise existencial que se desenrolava em seu íntimo. Manter a promessa feita ao Führer, ou abandonar de uma vez por todas tudo em que acreditava por amor a Anne e seu filho?

Ainda estivera indeciso até ter chegado em casa e encontrado Anne em seu quarto, aquele pequeno detalhe mudara tudo. Naquele momento escolheu deixar para trás todas as mentiras que até então lhe pareciam verdades em nome de algo bem maior, sua família.

Lamentava profundamente que sua estada em Berlin estivesse tão próxima do fim, só tinha aquela noite. Não partira, mas já sentia saudades.

Como não sentir?

Liesel mostrava-se cada dia mais sagaz, e para completar sua alegria estava se dando maravilhosamente bem com Anne.

E Anne? Céus, por mais que parecesse impossível ela ficara ainda mais bonita, sua pele brilhava como se estivesse coberta de pó de ouro, os cabelos pareciam ainda mais sedosos e os sorrisos eram os mais felizes que já haviam dançado em seus lábios vermelhos. Estava radiante com a gravidez.

Temia deixá-la agora, justo agora que estavam voltando a se falar com normalidade. E mais, não lhe agradava a possibilidade de deixá-la sozinha estando o parto tão próximo, pouco mais de um mês.

***

Anne sentia que o momento estava chegando, o bebê já estava tão grande que mal conseguia se mexer dentro do útero.

Tinha certeza absoluta de que era um menino, e sua certeza era baseada no mesmo que a de Liesel, era um menino porque era, simples assim.

O major trouxera mais presentes desde que chegaram a Berlin, vários outros conjuntos de mantas, camisolinhas e sapatinhos combinando.

Chorava todas as vezes em que pegava nas roupinhas, imaginar seu filho dentro delas sempre lhe emocionava.

Estava guardando-as de volta ao armário após chorar e sorrir segurando-as sobre a barriga que conseguia ficar maior a cada dia.

- Anne... – chamou Heinrich dando leves batidas na porta entreaberta.

- Entre.

Sorriram-se cordialmente, o major passou por ela e sentou-se na cadeira diante da escrivaninha.

- Vim para me despedir, vou embora amanhã bem cedo.

- Sei disso, Valkyrie me contou.

- Eu não gosto dessa idéia...

- Porque não?

-Não queria ir agora, está muito próximo de você dar a luz...

Anne sorriu balançando a cabeça.

- E ao acaso você é parteiro? – gracejou ela.

Heinrich riu, mas quando falou foi muito seriamente.

- Gostaria de poder estar aqui quando acontecer.

A relação amigável que estavam tendo estava a um fio de acabar, sentia novamente aquele calor dentro do peito, uma vontade absurda de se tocarem.

- Não vai mudar nada...

- Vai mudar tudo meine libe.

Levantou-se rapidamente, tomou as mãos de Anne nas suas.

- É cedo para dizer mais, mas quero que saiba que já estou começando a mudar as coisas. – disse olhando-a de modo tão profundo que poderia ver a alma da cigana – Meu regresso a Auschwitz vai ser a alavanca propulsora das mudanças.

Estava tonta com aquilo, o contato abrasador das mãos do major, suas palavras misteriosas.

- Me conte o que está fazendo...

- Ainda não, quando for a hora.

- Por isso é está saindo quase todas as noites major? Valkyrie disse que o senhor não fazia isso.

- Pelo amor de Deus Anne, me chame de Heinrich. – pediu ele sorrindo – E sim, é por isso que tenho saído.

- É perigoso não é? O que está fazendo é perigoso.

- Isso não importa, é necessário, preciso fazer.

- Por quê?

- Por você meine liebe, por nossos filhos...

- Nossos? – indagou ela emocionada.

- Sim, Liesel e esse que você espera, nossos filhos merecem um mundo melhor, sem guerra... E sem o Nacional-Socialismo.

Mal podia controlar o desejo de atirar-se nos braços dele, ainda assim forçou-se a não fazer.

- Eu fico feliz que tenha decidido a quem vai servir, e mais feliz ainda por saber que escolheu o lado certo.

- Fala de Deus?

- Falo do seu coração.

Heinrich corou ao mesmo tempo em que estreitava o espaço entre seu corpo e o de Anne, a barriga foi a primeira coisa a lhe tocar.

- Um dia ficará orgulhosa de mim meine liebe, e então vai poder me amar como eu te amo.

A abraçou, em uma mistura de força e delicadeza a apertava gentilmente contra si, queria ficar ali para sempre, sentia que ao abraçá-la abraçava seu filho também.

A vontade de beijá-la lhe acometeu, mas aquele não era o momento de se entregar aos desejos, naquele instante estava tomado por toda a ternura do mundo.

Notas finais
Finalmente um contato físico e emocional mais direto! o/
Pena que foi só na hora de ir embora né? =/