Bem Vinda Ao Campo
30 Uma Conversa sobre Deus
Notas iniciais
(Vi e achei muito bom, se quiserem vejam, acho que vale a pena)
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Decidi colocar esse gif para ilustrar a amizade de Rudolph e Heinrich, é exatamente como eu os imagino quando adolescentes.
O motivo de eu ter inserido a imagem vocês vão conferir durante o capítulo, boa leitura.
Ainda podia sentir o perfume de Anne quando finalmente parou o carro ao lado do alojamento. Estava de volta à Auschwitz.
Mesmo que tivesse ido se despedir dela na noite anterior, Anne acordou cedo e insistiu em acompanhá-lo até o carro. Disse que queria lhe dar uma coisa.
Heinrich tocou delicadamente o pingente que agora trazia no pescoço, juntamente com seu escapulário.
“Para dar sorte”, ela disse ao esconder o fino colar de latão folheado a ouro por dentro da farda. O pingente era uma medalhinha de Santa Sara Kali, a padroeira dos ciganos.
Não era um homem dado à superstições, mas aquela pequena relíquia que Anne guardara junto a si com tanto zelo, mesmo tendo passado por todas as provações no gueto parecia não só um amuleto como um objeto sagrado.
Já passava das seis da tarde, seu horário de expediente estava acabado, mas ainda assim precisava prestar contas.
Apressou-se para chegar a sala do general Löhnhoff, quanto antes terminasse seus deveres mais cedo poderia procurar Rudolph para pô-lo a par dos acontecimentos.
– Tem uma cara muito melhor agora major, parece outro homem. – cumprimentou o general levantando-se para lhe apertar a mão – Está renovado.
– Sempre é bom rever a família.
Löhnhoff concordou com um vigoroso aceno de cabeça, estava inexplicavelmente contente.
– Gosto de você Veltheim. Acho que você não deveria estar aqui, deveria estar na guerra. Em um momento como esse precisamos dos nossos melhores homens, você poderia alcançar altos postos
– Não tenho tantas ambições. – desconversou ele.
– E por isso faz seu trabalho tão bem feito! Deveria estar à frente das tropas Veltheim, mas sei que está de licença e que sua filha só tem você...
Assim como Himmler, Löhnhoff entristecia-se com o fato de Heinrich estar indisponível para a guerra. Seria bom ter um homem como ele no comando das operações.
Apesar disso, o general preferiu não insistir, de que adiantaria? Já sabia ele que a guerra tinha um futuro muito pouco glorioso pela frente.
Não valia a pena mandar Veltheim para uma derrota quase certa apenas para tentar reaver a decadente honra alemã.
– Bem, amanhã você retoma seu trabalho como de costume, por hora é só.
– Obrigado General, se me dá licença, vou indo.
– Pode ir, até mais.
– Até.
***
Raras eram as vezes em que se encontravam fora da sala de Rudolph, mas naquele final de tarde preferiram andar pela estrada que levava à saída de Auschwitz, apenas para aproveitar o clima de outono.
Um ventinho frio soprava nas faces do médico e do major, um caminhava, o outro o acompanhava em um passo firme como marcha.
– Como foi enquanto eu estive fora? – indagou Heinrich.
– Comentaram um pouco sobre a morte de Anne, mas logo o assunto mudou.
– Mudou?
– Mandaram quase todos os ciganos para as câmaras de gás.
Conhecia Rudolph, via claramente a tristeza em seu olhar, o modo como ela apagava a vida das íris verdes.
– Por quê?
– Höss¹ disse que eles já estavam ficando inúteis, um novo carregamento vai chegar...
O amor por Anne fazia com que a idéia do massivo extermínio dos prisioneiros ciganos doesse no peito de Heinrich. Já o amor pelo ser humano, a vocação médica fazia com que Rudolph Krämer se sentisse uma pessoa miserável por não poder impedir aquele absurdo.
Em momento como aqueles o major tinha vergonha por querer competir com Rudolph, tinha remorso por todas as vezes em que brigava com o amigo, ele era simplesmente bom demais para aquele mundo.
– Não se pode salvar todos.
Quando o médico voltou-se para Heinrich estava com os olhos cheios d’água, e isso o assustou. Não estava acostumado a idéia de ter que amparar Rudolph, ele é que sempre lhe amparava.
– Eles não deveriam precisar ser salvos. – disse num fio de voz – Não deviam.
– Ora Rudolph...
– Sei que isso não quer dizer nada para você, sei que não se importa com os outros ciganos, mas eu meu importo. São pessoas, seres humanos exatamente como eu e você.
Muito triste era ver o modo como Rudolph estava arrasado, sentia de fato uma grande culpa por não poder impedir as atrocidades cometidas em Auschwitz.
– Sabe as ciganas do barracão especial?
Heinrich concordou com a cabeça, não as conhecia, mas sabia de sua existência.
– Exterminaram elas também, já estavam gastas demais... – falou ele amargurado – Mas antes colocaram todas elas nuas na frente do barracão, os oficias fizeram filas para estuprá-las...
– Meu Deus...
– Deus não estava olhando Heinrich, se estivesse não teria permitido! Fizeram isso na frente dos prisioneiros que estavam para ser executados!
O major não gostava muito das desconfianças de Rudolph sobre a existência e poder de Deus, no entanto não se via no direito de contestá-lo agora, porque tinha idéia de quanto as torturas de Auschwitz machucavam o amigo. Ele era muito sensível, caridoso demais para um lugar como aquele.
– Deus esqueceu dessas pessoas...
– Deus não se esqueceu Rudolph, Ele te mandou aqui por um motivo, você poderia estar trabalhando em Berlin, poderia ter acompanhado algum pelotão na guerra – ao dizer, aproximou-se do médico segurando-o pelos ombros – Deus te mandou aqui para que visse todas as maldades do Reich.
– Porque Deus faria algo assim?
– Para fazer de você uma ferramenta Rudolph, se nunca tivesse pisado em Auschwitz, jamais teria se juntado a Resistência, jamais teria me influenciado a me tornar um membro também.
– Aonde quer chegar com isso?
– Os desígnios do Senhor são misteriosos, como saber se nós dois não seremos fundamentais para a queda do nazismo?
De algum modo, aquelas palavras acalmaram o coração de Rudolph, sorriu porque a fé que Heinrich devotava a Deus era infinita.
– Deveria deixar Auschwitz, esse lugar te faz mal. – concluiu o major.
– E como você ficaria aqui sozinho?
Não disseram mais nada, apenas sorriam e continuaram caminhando.
Rudolph não sairia de Auschwitz, por mais que isso lhe fosse nocivo estaria ao lado de Heinrich até o fim. Lealdade era o tipo de coisa que o médico levava muito a sério e com a qual não se podia discutir com ele.
– Como está Anne?
Quis mudar o assunto, esquecer daquela tristeza. Não via Anne desde sua fuga do campo, sentia falta daquela inusitada amiga, de sua conversa leve, e do modo como ela conseguia persistir tão cheia de vida passando por tudo o que passava.
– Ótima, chegamos sem problemas, Nana a adorou e Liesel não saiu de perto dela nem por um minuto.
– Se reconciliaram?
– De certo modo. – Heinrich sorriu, lembrava do abraço longo da noite anterior – Decidimos ser amigos.
O médico fez uma cara engraçada, estranhando a situação.
– Porque só amigos?
– Eu ainda não a mereço e ela não está pronta para me aceitar, até lá seremos amigos.
Certamente Heinrich Von Veltheim não era o homem mais delicado e fácil de lidar do mundo, mas era sem sombra de dúvidas um dos mais corretos, e ainda que não admitisse, tinha um coração maravilhosamente bom.
– Isso é ótimo para a gravidez dela.
– Acha que ela ainda corre riscos?
O tom alegre da conversa se dissipou, nunca havia se aprofundado no assunto, temia que algo pudesse acontecer com Anne.
– É jovem demais, eu nem esperava que ela fosse conseguir sustentar a gravidez por tantos meses. – revelou Krämer em seu tom mais profissional – Conseguiu, mas ainda é provável que a criança nasça antes do tempo.
Ficaram calados por alguns minutos, Heinrich pensava na morte de Gretel durante o parto. A esposa morrera porque já era velha demais para ter filhos, Anne corria riscos por ser muito nova.
– Acha que...?
– Não acho nada, só sei que as chances de tudo ocorrer bem são muito maiores agora que ela está a salvo.
Não queria pensar na possibilidade de perdê-la depois de todo o esforço feito, depois de tanto lhe amar, mas não conseguia evitar.
– Eu preciso arranjar um meio de voltar para Berlin...
– Heinrich... – e essa foi a vez de Rudolph o segurar pelos ombros – Não conheço nenhum outro homem que acredite e se devote à Deus tanto quanto você, se ele existe certamente vai olhar por Anne e pelo filho de vocês.
Notas finais
--X--
1. Höss - Rudolf Franz Ferdinand Höß (Hoess ou Höss) foi, de maio de 1940 a novembro de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, o comandante do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia.
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