Bem Vinda Ao Campo
9 Revelações
Foi com lentidão que Heinrich abriu os olhos na manhã seguinte. Sentia o corpinho quente de Anne ainda próximo ao seu, ela respirava baixo.
O quarto estava um semi breu e por isso ele concluiu que ainda era bem cedo. Quase não dormira, apenas umas poucas horas, mas ainda assim sentia-se bem, como se tivesse dormido mais que o suficiente.
A cigana estava recolhida em seus braços, parecia um anjo adormecido. Seu semblante tranquilo indicava que ela estava tendo bons sonhos e isso o fez sorrir.
Precisava levantar, mas não queria. Tinha que voltar ao trabalho, lembrou da situação crítica do Reich, ainda não sabia quais seriam as diretrizes domadas. Desejava poder ficar ali para sempre sentindo os leves batimentos de Anne, ouvindo seu ressonar.
Com cuidado desvencilhou-se dela, a garota mexeu-se um pouco como se fosse acordar e em seguida virou-se ficando de costas. Como se fosse uma despedida, Heinrich beijou-lhe o pescoço, as costas, ombros e a bochecha.
– Major...?
Heinrich já escutara aquela vozinha de sono dizendo a mesma coisa.
– O senhor já vai? – indagou enquanto se sentava.
– Preciso ir, ainda não sei como vai ser daqui para frente.
Anne deu de ombros. Sorriu levemente.
– Então vá.
Não sentia vontade de ir, sabia que devia, mas não tinha a menor vontade.
– Vá major, faça o que tem que fazer.
Levantou-se, deu-lhe mais uma olhada.
– Certo.
Recolheu a farda jogada no chão, foi ao banheiro, asseou-se como pode. Quando retornou Anne ainda estava tranquilamente sentada. Sentou então na borda da cama para vestir as botas.
– O senhor muda muito quando veste essa coisa... – observou ela – Parece mais velho, sério.
– É o peso da farda.
Sorriu, ajeitou o quepe sobre os cabelos, deu um leve beijo em seus lábios.
– Vou indo, volto mais tarde. Tenha um bom dia Anne.
– Até major.
Caminhou até a porta, deu uma última olhada em direção a cigana, um tipo estranho de emoção o tocou e Heinrich saiu do quarto desejando realmente poder ficar.
***
Assim que o major saiu, Anne permitiu-se pensar sobre tudo. Não pudera fazer isso na noite anterior, estava completamente seduzida por Veltheim, e totalmente consciente do fato. Teve vontade de se deitar com ele e gostou de se deitar com ele. Gostou de beijá-lo, e de se entregar para ele.
Agora porém, que ele não estava mais ali, podia pensar que havia dado ao major a única coisa que ainda tinha, sua virgindade. Pensava no que ele dissera sobre ela ser seu melhor pecado, certamente era um pecado em sua vida, Anne pensava em Liesel, a esposa dele.
Sentia-se culpada, arrependida não, pois tinha feito o que queria fazer, mas era impossível evitar o remorso, vira o rosto dela, tinha segurado sua foto amassada nas mãos. O major tinha lhe possuído usando a aliança, com a esposa a direita e a bíblia a esquerda da cama.
Agora ela era amante e prostituta de um nazista.
Estava esperando ter vontade de chorar, esperava se sentir suja, mas não sentia nada disso. Estava ansiosa, só, precisando se distrair até que Veltheim voltasse, ai poderia falar seriamente e por tudo em pratos limpos.
Retomou a leitura do livro que ele lhe trouxera de Berlin.
***
Provavelmente aquele foi um dos dias mais confusos que Heinrich já tivera. Ao que parecia ninguém sabia o que deveria ser feito, e suas atividades como major, depois de algumas controvérsias foram suspensas, assim como seus soldados foram dispensados. Iriam para Berlin, para figurar ao lado de Goebbels no discurso que ele faria.
Veltheim achava que aquela era a coisa mais idiota a se fazer. Não podiam simplesmente parar o treinamento dos novos soldados apenas para que eles pudessem ser mostrados ao povo. Não havia tempo para propaganda, era tempo de guerra!
Ainda assim, seu dia não foi perdido de todo. Aproveitou que não tinha mais o que fazer e foi até a cidade, comprar alguma coisa para Anne.
Bem verdade, não havia muito para dar de presente, por isso preferiu comprar biscoitos, chocolates, docinhos porque a cigana gostava deles. Sua cigana. Bom pensar assim.
Pensava que podia lhe dar aqueles docinhos todos os dias, apenas para agradá-la, vê-la sorrindo. Como sorria bonito aquela menina. Sua menina.
O major sorriu contente enquanto pagava os pequenos mimos. Era pouco perto da felicidade que Anne lhe dera, o sopro de vida que inflara em seus pulmões. O tinha feito tão alegre com aquele seu riso fácil.
Não parava de pensar nela, em como era livre. Livre de pudores tolos, se entregara por completo, sem medo. Nua, barulhenta, agitada.
Heinrich sentiu quando rompeu sua virgindade, e não fosse isso nem poderia crer que Anne estava tendo sua primeira vez. Ela simplesmente sabia o que fazer. Não reclamou, não pareceu incomodada, parecia gostar, pediu-lhe mais.
Aquela única noite com Anne lhe rendia mais coisas a rememorar do que todos os dez anos com sua esposa.
– Major Von Veltheim – cumprimentou-lhe um oficial qualquer.
O homem fez o Sieg Heil¹, mas ele estava tão ocupado pensando em como Anne ficaria feliz com os presentes que se esqueceu de fazer o mesmo.
Andava depressa, queria chegar logo à seu alojamento para poder dar a cigana toda a atenção que deveria ter lhe dado pela manhã. Queria que ela soubesse que se importava.
Não sabia porque se importava, mas se importava. Desde o primeiro momento Anne lhe tocara de uma maneira inexplicável, levando-o a fazer coisas que nunca imaginara fazer, e agora era como se precisasse dela para continuar.
Aproximava-se das cinco da tarde quando parou em frente a porta do quarto. Rodou a chave na fechadura com cuidado, queria surpreendê-la. Não conseguiu.
Anne o esperava, muito sóbria em seu vestido preto, os cabelos presos para trás. Não parecia mais a mesma cigana espevitada da outra noite. Estava muito séria.
– Lhe trouxe chocolates e biscoitos...
– Isso não importa agora.
Veltheim estranhou, não entendia a frieza da recepção.
– O que se passa Anne? Está diferente...
– Temos muito a conversar major.
– Sim temos. – ao dizer isso sorriu, deixando os presentes sobre a escrivaninha – Tenho muito a lhe dizer.
– Eu tenho certeza que sim. — E enfiou-lhe um quadrado de papel na cara. – O senhor pode começar por isso.
Sem entender o major afastou-o dos olhos. Assim que o fez percebeu do que se tratava. Era a foto de sua esposa.
– Onde encontrou isso?
– No criado-mudo, não queria que eu tivesse encontrado?
– Anne...
– Não major, o senhor agora vai me ouvir. Não vou dizer que não sabia antes, porque eu encontrei a foto quando o senhor voltou. Quando o senhor voltou da visita que fez a ela.
– Você não está entendendo...
– Entendo completamente, vi a aliança, achei a foto. Tem a coragem de me dizer que a mulher da foto não é Liesel? Tem coragem de me dizer que ela não é sua esposa?
Heinrich suspirou, parecia fatigado, como se a conversa o exaurisse.
– A mulher da foto é minha esposa.
– Eu sabia e...
– A mulher da foto é a minha esposa morta.
Anne sentiu seu estômago despencar. Não esperava por isso, sentiu-se a pessoa mais insensível do mundo.
– Sinto muito... – disse num fio de voz.
– Está tudo bem. Eu é que devia ter lhe esclarecido as coisas.
Sentou-se à beira da cama. Não olhava para ela, parecia distante.
– Major, eu realmente lamento...
– Não se preocupe Anne, já passou.
A moça sentia-se terrivelmente mal, estava desorientada. Sentou-se no chão, ao lado das pernas de Veltheim. Colocou seu queixo sobre os joelhos dele.
– Eu realmente não imaginei. Te fiz triste sem motivo...
E então ele sorriu-lhe, um sorriso quase alegre.
– Eu já disse que não foi nada.
Anne levantou-se. Tirou-lhe o quepe da cabeça , acariciou os cabelos loiros.
– Foi alguma coisa sim, o senhor está chateado, e eu sinto muito.
Sentou-se ao seu lado, beijou-lhe bochecha. Não estava gostando de ver o major assim tão triste, e culpa era sua. Precisava alegrá-lo.
– O senhor ainda quer ouvir aquela musica da outra noite?
Heinrich se permitiu uma breve risada, beijou a testa de Anne.
– Sim, quero.
Fechou os olhos para ouvir a melodia lenta. Antes que percebesse estava aconchegado no braços dela, sendo ninado como uma criança. Sua voz era tão suave quanto um sonho, e ele sentia as aflições geradas pelas memórias sumindo.
Anne acabou a musica, mas continuou abraçando o major, penteando com os dedos os fios de ouro que eram seu cabelos.
– Major... – começou ela temerosa – Se sua esposa está morta, quem é Liesel?
Veltheim se aprumou. Não parecia mais estar tão triste, era como se uma luz de felicidade tivesse acabado de iluminá-lo.
– Liesel é minha filha de dois anos.
O peito de Anne se acalmou, e em seguida se derreteu. Liesel era uma criança, a filha dele de dois anos, tão pequena quanto as crianças de que ela cuidava antes de Hitler. Gostava de crianças.
– Deve ser muito bonita.
– É linda, como um anjo. Quer vê-la?
A cigana sorriu, concordou com a cabeça, queria ver Liesel, conhecê-la finalmente. O major também sorriu, tirou a carteira do bolso e dela uma foto, mais ou menos do mesmo tamanho da outra. Deu para Anne.
Era linda a menininha. Tão loira quanto os pais, com os mesmo olhos do major, uma sombra de sorriso adorável.
– Liesel é realmente muito linda major... – disse Anne, estava inexplicavelmente emocionada – É uma menina linda.
Heinrich sorriu.
– Obrigado.
Anne devolveu-lhe a foto. Sentia algo muito forte em relação aquela menina, não sabia como e nem por que. Sentia que precisava conhecê-la pessoalmente, pegá-la nos braços, cantar para ela.
– Cada criança que nasce vem de um universo que jamais foi visto por outra pessoa, e dele traz sempre algo mais para os que nasceram, que também assim contribuíram.
– É um provérbio cigano? – indagou Veltheim sorrindo.
– É algo que minha madrinha dizia, deve ser...
Deu de ombros, sorria aquele sorriso manso. Heinrich a abraçou, beijou seu lábios levemente.
– Teu sorriso me alegra tanto.
Anne sorriu novamente. Era bom vê-lo contente.
Notas finais
Liesel finalmente revelada, Anne pareceu gostar bastante dela, e o major tá curtindo a Anne né? ;D
Deixem seus reviews, suas lindas! *o*
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1. Sieg Heil - Sieg Heil é uma expressão alemã que significa "Vitória Salve" ou "Salve Vitória". Durante a era Nazi, era um cumprimento comum entre radicais políticos.
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