Bem Vinda Ao Campo
10 Pesadelo
Durante os dois meses que se seguiram, apesar de tudo o que acontecia em sua volta, Heinrich sentia-se contente como jamais fora. Nunca mais dormiu em casa.
Assim que foi enviado para Auschwitz decidiu comprar uma casa nas proximidades do complexo de campos. Achava muito incômoda a ideia de ter que dormir naquele pequeno quarto, tão impessoal quanto uma estalagem qualquer.
Era um homem de posses, de nome. A casa na Polônia não foi um gasto que prejudicasse suas finanças. Um pequeno luxo que se permitira.
Não tinha mais vontade de ir para casa, gostava daquele quartinho, antes impessoal, agora seu verdadeiro lar.
O ritual era sagrado e se repetia todos os dias. Perto das sete horas da tarde abria a porta, tirava o quepe, beijava Anne na testa, tomava seu banho, vestia as roupas que ela deixara no banheiro, pendurava a farda ali, e depois estava livre para desfrutar da companhia dela como viesse a convir.
O acordo não fora verbalizado, apenas algo que se tornou hábito. Anne recusava-se a trocar qualquer tipo de carinho enquanto ele estivesse usando o seu negro uniforme da Schuzstaffel. O major compreendia, e tirava-o o mais rápido possível.
A convivência com a cigana lhe revelara as particularidades de sua personalidade. Era engraçada. Assim que ele se livrava da farda Anne parecia uma criança alegre, passada a ansiedade perguntava-lhe por seu dia como uma esposa dedicada, mais tarde quando se entregava era como a mais quente das amantes, e quando adormecia era o mais delicado dos anjos.
Queimava gradualmente, primeiro fagulhas, em seguida princípio de fogo, ia até altas chamas e daí às cinzas, e assim era todos os dias.
O major não admitia, talvez não admitisse nunca, mas o que sentia por ela era muito mais que gostar ou querer. Amava-a.
Nessa noite chegou abatido, atrasado, moralmente exausto. Não abriu a porta com o sorriso costumeiro, estava cansado demais para isso.
– Major...
– Olá Anne, não se preocupe, já vou me trocar.
Tirou o quepe, beijo-lhe a testa, ia seguir para o banheiro, a cigana o segurou pelo braço, impedindo-o.
– O senhor parece mal, o que houve?
– Conversamos depois, preciso tomar banho...
Anne deixou-o ir. Estava diferente, abalado, certamente algo muito sério acontecera. Pensou ser algo relacionado à guerra, talvez a Alemanha tivesse perdido mais alguma batalha importante.
Aguardou-o preocupada, andando pelo quarto. Ele estava demorando muito além do normal.
Sabia que tinha sentimentos por ele, gratidão, talvez amizade, desejo com certeza, e provavelmente mais alguma coisa que não sabia e nem queria saber explicar.
Naqueles últimos meses ele era seu único contato humano, porque ela não contava com a moça ruiva que lhe trazia refeições. Às vezes via pela janela os soldados treinando no pátio, em duas dessas ocasiões o major a vira e lhe cumprimentou com leve sorriso, presenciou através do vidro a chegada de um novo carregamento de judeus, nunca mais vira ciganos.
Apreciava a companhia do major, era bom conversar com ele, ficar nos braços dele era ainda melhor. Pensava que se fosse outra a situação, até que poderia se permitir gostar dele de verdade.
A porta abriu, ele saiu tão apático quanto antes, os cabelos úmidos caindo desordenados, os olhos sem o menor brilho, parecia ter sido afogado.
– Major, estou preocupada. O que aconteceu? A Alemanha perdeu novamente?
Ele riu o riso mais amargo que Anne já escutara.
– A Alemanha está perdendo desde o início.
Estava sombrio, vira o diabo e este sorrira para ele.
– Diga-me o que aconteceu...
– Não tenho permissão para isso.
Foi incisivo, não ia contar. Anne preferiu não pressioná-lo, era claro que ele estava mal e que não iria dizer nada. Melhor era acalmá-lo e tentar fazer com que ele não ficasse pensando no que tinha acontecido.
– Certo. – concordou – Se não deve não conte.
Sorriu para ele, o major gostava quando ela sorria, dessa vez pareceu não notar. A cigana ficou receosa de se aproximar, não sabia qual seria a reação.
Não sabia que a questão era que mesmo que pudesse, Heinrich jamais lhe contaria o que vira. Se pudesse ele mesmo apagaria de sua memória que vira aquilo. Estava assombrando com a maldade de que o homem era capaz.
Mesmo na guerra, quando Veltheim matara para não morrer, nunca havia se sentindo tão próximo do inferno. Lá eram homens defendendo um ideal e uma bandeira. Neste dia vira um demônio vestido de médico, cobrando pecados de inocentes, torturando-os sob a capa de uma falsa ciência.
Em todos os seus anos como membro da Schuzstaffel havia presenciado cenas verdadeiramente horrorosas, covardes, mas nada perto do que seus olhos haviam enxergado nesta tarde.
– Major, talvez o senhor deva dormir um pouco, já está tarde, vamos nos deitar.
– Certo Anne...
Concordou, sabia que não poderia dormir, mas se deitasse e fechasse os olhos, a cigana ficaria menos preocupada.
Deitou-se ao seu lado, não tinha coragem de abraçá-la. Como podia fingir que não estavam num maldito campo de concentração? Como podia beijá-la, fazer amor com ela todas as noites sendo que logo ali gente como ela estava sendo morta do jeito mais terrível imaginável?
De que adiantava comprar-lhe chocolates, dizer-lhe o quanto era bonita, admirar seu sorriso e desejar ficar ao seu lado para sempre se nem mesmo ele, que era major, rico, influente podia lhe garantir a segurança e a vida?
Se ao acaso Himmler¹ ordenasse que todos os ciganos fossem mortos nas câmaras de gás, o que ele poderia fazer? Dizer que não deixaria que matassem sua cigana porque a amava certamente não era uma boa opção.
– Boa noite major...
Sentiu como se o beijo que ela deu em suas bochechas o queimasse feito ácido. Praticamente sufocou quando ela aconchegou-se em seu peito. Tinha culpa, não por ter feito alguma coisa, e sim por ter ficado todo o esse tempo deixando que a coisa acontecesse sem fazer nada.
Anne logo dormiu, e Heinrich mal conseguia deixar os olhos fechados, estavam arregalados no escuro, como estivesse revivendo tudo novamente.
***
Revivia o cheiro de desinfetante e álcool do sala branca deixando-o tonto, o claro medo nos olhos dos prisioneiros que ali eram levados, o sorriso no rosto de Joseph Mengele².
– Chamei-o para que veja os procedimentos que estamos fazendo aqui Major Von Veltheim, serão incríveis avanços científicos. – disse-lhe o médico.
Não simpatizava com ele, era um tipo estranho, tinha voz macia, mas um olhar agudo como faca.
Andaram até uma maca, dois garotos ciganos estavam sentados nela, sendo vigiados por uma enfermeira. Não deveriam ter mais de seis anos.
O primeiro parecia relativamente bem, mas havia algo de muito errado com o segundo,com seus olhos. Eram azuis, de uma cor artificial, e ele estava visivelmente doente.
– O que há com esse garoto?
– Experiência deveras interessante major, aproxime-se para ver, mudamos a cor dos olhos dele...
Heinrich ainda não tinha ideia de como seria isso, mas imaginar a possibilidade já lhe dava calafrios. Era brincar de Deus.
– Faremos isso com o segundo agora... – falou suavemente.
A enfermeira pegou o segundo gêmeo, levou-o para longe do primeiro. Mengele seguiu-a e o major por consequência a seguiu também. Entraram em uma saleta reservada, e a mulher segurou a criança, Mengele preparou a seringa com um químico azul qualquer.
– Veja...
O major esperou, tenso, contendo mentalmente a vontade de sair dali, queria deixar o Bloco 10³ de imediato.
Cerrou os punhos ao ver o médico injetando aquela coisa nos olhos do menino, queria vomitar, queria impedir Mengele, furá-lo mil vezes com aquela seringa maldita, mas só pode reprimir suas náuseas e sua fúria, ficou calado, ouvindo o menino chorar de dor.
– Observe agora major.
Obrigou-se a olhar, via a substância fluindo na íris do menino, seu choro perfurava-lhe os tímpanos, nem Mengele nem a enfermeira pareciam prestar atenção, deveriam ter se acostumado.
– Qual a finalidade disso? – indagou no seu tom mais controlado.
– Ver se é possível. – justificou o médico.
– Não causa efeitos colaterais?
– O irmão dele ficou cego, vamos ver como este reage.
Saiu andando da sala, Veltheim acompanho-o novamente, a enfermeira sumiu com os dois meninos.
– Fazemos alguns experimentos para ver quanto tempo é possível sobreviver mergulhado em água fria ou ferverte, quanto se pode aguentar bebendo somente água do mar, testamos tratamentos para feridas de guerra...
– Isso tudo com os prisioneiros?
– Sim. Apesar de serem claramente inferiores, servem como cobaias.
Heinrich estremeceu. Em todo o seu tempo em Auschwitz preservara-se daquilo, agia como se estivesse em um acampamento militar, treinando seus homens, ignorava as vezes em que tinha que passar pelos prisioneiros. Cadáveres vivos em farrapos.
Agora via verdadeiramente o campo, conhecia-o pela primeira vez, e odiava a impressão que tinha.
Entraram em outra sala como a primeira, nessa várias macas, várias mulheres, todas pareciam estar agonizando seus últimos dias.
– O que houve com estas?
– Diferentes tipos de esterilização. Radiação, injeções de nitrato de prata e iodo, várias substâncias deferentes. Radiação parece ser o melhor método.
O major se aproximou de uma das macas. A mulher tinha a tez da mesma cor que a de Anne, mas não as feições arianas, nem os olhos azuis, muito menos os cabelos. Estava careca, tão magra que a pele se colava aos ossos, aspecto desolador. Parecia ter mil anos, não deveria ter nem trinta.
– Soube que o senhor tem uma cigana, posso esterilizá-la se quiser.
– Ela já foi esterilizada no gueto.
Pensou rápido, não tinha a menor ideia se era verdade, mas não queria nem pensar na possibilidade de deixar aquele monstro tocar em Anne.
Mengele assentiu.
– Vejo que o senhor realmente não se descuida major, é melhor assim. Imagino o quanto lhe seria decepcionante ter um filho cigano.
Não respondeu, esperava que o outro não percebesse que estava praticamente rangindo os dentes.
– Tem mais algo que gostaria que o senhor visse. – disse Mengele ansioso.
O médico tornou a andar, Heinrich ia atrás dele mais uma vez, no entanto a cigana que ele observara de perto segurou-lhe um pedaço da farda, os dedos sem forças agarraram-se ao tecido negro.
– Salve-a... – disse muito baixo para que Mengele, já à uma distância considerável não pudesse ouvir – Salve sua cigana...
Heinrich fez que sim com a cabeça, profundamente perturbado com aqueles olhos negros que pareciam ver sua alma. A mulher lhe soltou e ele partiu atrás do médico.
Gostaria que aquele suplício terminasse rápido.
Estava esperando que a próxima coisa seria a pior de todas, mas jamais poderia imaginar o que veria.
– Aqui estão alguns resultados de experimentos. Naquela maca estão gêmeas que foram transformadas em siamesas através da ligação das veias – o médico nazista parecia estar em êxtase, mas logo o entusiasmos se dissipou – Infelizmente parece ter havido rejeição e infecção, serei obrigado a exterminá-las...
O major não sabia o que dizer, sentia que estava prestes a chorar. As duas crianças aparentavam ter a mesma idade de Liesel, estavam magras e carecas como as ciganas da outra sala. Elas não choravam, moribundas, visivelmente infectadas, estavam apodrecendo à olhos vistos...
***
– Nãããããão! Nããããããão!
Heinrich acordou gritando, com Anne segurando-lhe os braços. Suava muito, estava sem ar.
– Está tudo bem, foi só um pesadelo... – disse a cigana docemente, abraçou-o forte.
Não havia sido só um pesadelo.
Notas finais
O que será que ele vai fazer agora? '-'
Deixem seus comentários e suas opiniões.
[Resolvi fazer uma pequena reedição nessa nota final, percebi a primeira leitora à lê-lo ficou impactada, então se desejarem, deem uma olhada na resposta que eu dei ao seu review, explica bastante coisa.]
-- X --
1. Himmler - Heinrich Luitpold Himmler foi o comandante da Schutzstaffel (Reichsführer-SS) e um dos mais poderosos homens da Alemanha Nazi. Foi uma figura chave na organização e execução do Holocausto.
2. Joseph Mengele - Josef Mengele foi um médico alemão que se tornou conhecido por ter atuado durante o regime nazista. Conhecido como Todesengel, "O Anjo da Morte", no campo de concentração, Mengele foi oficial médico chefe da principal enfermaria do campo de Birkenau, que era parte do complexo Auschwitz-Birkenau. Em suas experiências com seres humanos em Auschwitz, injetou tinta azul em olhos de crianças, uniu as veias de gêmeos, deixou pessoas em tanques de água gelada para testar suas resistências, amputou membros de prisioneiros e coletou milhares de órgãos em seu laboratório.
3. Bloco 10 - O bloco 10 no campo de Auschwitz era o lugar que abrigava o hospital onde Mengele realizava suas experiências pseudo-científicas.
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