Notas iniciais
Gente, tenho uma pequena sugestão para esse capítulo, experimentem lê-lo ouvindo "Ohne Dich" do Rammstein, escrevi com essa trilha sonora.
link da música: http://letras.mus.br/rammstein/104503/

Lufadas de vento entravam pela janela aberta, arrepiando o major e o médico, os últimos suspiros do inverno davam passagem à primavera. Era começo de abril.

– Já tinha visto aquilo? – indagou Veltheim.

– Sim. – respondeu Krämer – Há alguns meses atrás.

O loiro engoliu em seco, acenou positivamente com a cabeça.

– Foi quando virou um conspirador...

– Exato.

Ambos sabiam exatamente como continuar aquela conversa, só não tinham coragem de fazê-lo. Rudolph sabia que aquele era o momento mais oportuno para trazer o major para a Resistência Alemã¹, mas também respeitava o conflito moral pelo qual o amigo passava.

– Por que virou um conspirador Rudolph? Foi por que ficou chocado com aquelas coisas?

– Um pouco, mas não só por isso.

– Pelo que mais?

– Fiz um juramento ao me tornar médico Heinrich. Jurei respeito à vida, independente de qualquer coisa. Não pude traí-lo. Não pude trair a mim mesmo.

O major mordeu o lábio inferior. Soltou uma risada debochada.

– Também fiz um juramento. Jurei por Deus obedecer incondicionalmente ao Führer, e dar a minha vida se for necessário para honrar esse juramento. Meu juramento faz com que eu traia a mim mesmo, assim como traí-lo surte igual efeito.

Calaram-se. O médico definitivamente não conseguia reunir forças para convidar Veltheim para ser um conspirador, seria o mesmo que convidá-lo para ser um traidor. Entendia o quanto era difícil para ele, e sabia que uma coisa como essa estava fora de seus limites.

– O que deseja fazer?

– Sinceramente Rudolph? No momento eu só gostaria de acordar e perceber que nada disso está acontecendo. Jurei lealdade à um homem que põe em risco tudo o que eu amo, minha pátria, minha família... Anne.

– Já disse isso à ela?

– Não, e não vou dizer. E nem você.

– Porque não?

– Porque não posso deixar que ela saiba de uma coisa que eu não posso exercer. Não vou lhe declarar amor se não posso lhe garantir um futuro.

– Não é disso que se trata o amor...

– Eu sinceramente não sei o que fazer comigo mesmo. Eu deveria ter sido feliz quando pude.

– De que fala?

– Eu poderia ter sido muito feliz, tive a chance. Poderia ter amado Gretel como eu deveria, mas nunca consegui, talvez se eu tivesse a amado ela engravidasse antes, talvez não morresse ao dar à luz.

– Isso não faz o menor sentido Heinrich.

– Se ela não morresse eu jamais receberia essa estúpida licença da guerra – continuo como se não tivesse escutado – Se eu ainda estivesse no campo de batalha, dificilmente teria visto o que vi ontem, e assim eu poderia servir e amar meu país e meu líder como antes.

– Você não pode ficar pensando em como seria, tem que pensar no que é. Se tivesse sido assim nunca teria conhecido Anne...

– E nunca teria lhe dado a esperança de uma sobrevida. Nunca teria lhe dado um amor inútil.

– Não é inútil Heinrich, salvou-a de inúmeros sofrimentos.

– Não posso salvar-lhe da morte se assim tiver de ser.

– Talvez possa.

O médico tinha consciência de que aquela seria sua única cartada, poderia funcionar ou provocar um ataque de nervos no major, e talvez finalmente o amigo cumprisse a promessa de entregá-lo à Gestapo.

– Talvez eu possa não é? Talvez eu possa? – inquiriu, desafiando o médico a continuar – Me diga, é bastante fácil? Como eu não pensei nisso antes?

Largou-se na cadeira, passou a mão pelo rosto, estava agoniado.

– Salvar Anne pode significar condenar a minha filha.

A voz saiu dolorida, desesperada, os olhos azuis violeta estavam cheios de lágrimas.

– Amo Anne de um jeito que jamais amei mulher nenhuma Rudolph, mas não posso deixar Liesel desprotegida...

– Eu te entendo, juro que sim.

Veltheim escondeu o rosto entre as mãos por alguns segundos, quando o descobriu estava vermelho, molhado. Rudolph sentia-se incapaz de dizer qualquer coisa, nunca havia visto o major daquele jeito, nem mesmo quando Gretel morreu no parto deixando-o sozinho com Liesel recém-nascida.

– Você não pode entender, talvez imaginar, mas não pode entender como é isso.

– E o que vai fazer?

Heinrich secou o rosto com a manga da farda, respirou profundamente.

– Rezar para que Anne esteja viva até que o Reich acabe, sei que Hitler uma hora vai cair, não posso intervir nisso pela segurança de Liesel, mas quando acontecer, poderei me dedicar a Anne e dizer o quanto preciso dela em minha vida.

– E agora?

– Agora vou para Berlin, rever minha filha.

– Anne sabe do que aconteceu ontem?

– Não, por isso vou falar com ela hoje, dizer que fique estranho daquele jeito por causa de uma derrota qualquer, e vou falar que terei de ir para Berlin.

O médico concordou com a cabeça, não podia reprová-lo.

***

Anne deu de ombros ainda que não gostasse da ideia. Se assim era, melhor que o major fizesse o que tinha que fazer.

– Então vai poder vê-la? – indagou sorridente.

– Sim, poderei vê-la sim.

Heinrich sentia doer o peito ao enganá-la, sentiu doer ao pensar que aquela era a primeira vez em que estava escolhendo entre Anne e sua filha, estava escolhendo abandoná-la. Dessa vez era por algumas semanas, não queria pensar se tivesse que escolher definitivamente.

– Abrace-a por mim. – pediu ela ainda sorrindo

– Claro, abraçarei.

A jovem inclinou a cabeça, sabia que o major estava decepcionado com o fato de a Alemanha ter perdido outra vez, lembrava-se de como o pesadelo da noite anterior o perturbara, ele não disse o que tinha sido, Anne não perguntou, como cigana achava que sonhos eram particulares, assim como a madrinha lhe ensinara. Imaginava que ele tivesse sonhado com a esposa morta.

– Não fique tão triste major, o senhor vai poder ver Liesel.

– Sim eu sei. Só não queria te deixar agora.

Sorriu para ele, beijou-lhe a boca.

– Então se despeça de mim major.

– Anne...

– Por favor, não me negue. – pediu ela.

Anne não tinha a menor ideia do quanto aquela sua última frase significava na cabeça de Veltheim, não podia sequer calcular o peso daquelas palavras.

O major pensou em resistir, não se sentia disposto para o que ela propunha, ao mesmo tempo em que não desejá-la parecia incabível.

Deixou que sua consciência se perdesse pouco à pouco enquanto Anne lhe beijava com seus lábios de fogo, envolvendo-lhe com aquele perfume próprio, arrepiando-o com o toque de suas pequenas mãos.

Fez amor com ela como se fosse a última vez, como se Anne fosse a única, como se o mundo se resumisse a ele dois.

Deixou que Anne lhe consumisse com seu ardor, e depois permitiu-se sossegar no calor de brasas quase apagadas que ela se tornava ao terminarem.

Beijou-lhe o rosto inúmeras vezes antes que adormecesse, e quando ela finalmente dormiu sussurrou-lhe ao ouvido.

– Ich liebe dich...

Eu te amo.


Notas finais
As coisas se tornam cada vez mais complicadas para Heinrich e seu dilema ficou realmente grande. A filha ou seu amor?
A escolha parece ter sido feita.
Espero os reviews, inclusive das "leitoras-fantasmas". ;)
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1. Resistência Alemã - Resistência alemã foi a oposição de indivíduos e grupos organizados ao avanço e a consolidação do regime nazista entre 1933 e 1945. O seu objetivo era remover o regime e eventualmente assassinar Adolf Hitler.