Bem Vinda Ao Campo
12 De Volta ao Lar
O trem sacolejava e Heinrich tinha a cara quase colada à janela da cabine. Não sabia o que mais o impacientava, a expectativa de rever Liesel ou o mal estar causado por ter abandoando Anne.
A questão é que não conseguia parar de olhar desesperado para fora, desejando que sua visão logo se transformasse na paisagem da cidade de Berlin.
Quanto mais desejava chegar, mais a sensação de largar o campo lhe transtornava, e com isso ele resmungava sozinho em sua cabine privativa.
Toc, toc, toc. O barulho na porta de correr o despertou de suas divagações e quando a abriu, viu ali um homem fardado. Era o general Löhnhoff.
– Espero não estar sendo inconveniente major Von Veltheim.
– De maneira alguma general Löhnhoff.
– Vejo que está indo para casa. É um verdadeiro alivio poder se ausentar do campo não?
– Sim, é. Não vejo minha filha há dois meses...
– Liesel deve estar enorme não?
– Está, e está bastante esperta também.
– É penoso para um jovem pai ter que se afastar de uma filha pequena, mas são os pequenos sacrifícios que nos exige a pátria.
Veltheim concordou com a cabeça e tornou a fitar a janela, no momento falar sobre a pátria o incomodava.
– Ouvi dizer que possui uma cigana, major...
E o major engoliu em seco. O fato de todos saberem de Anne era preocupante, não tinha a menor ideia de que a notícia já tivesse corrido tão depressa, Löhnhoff e Mengele sabiam.
– Sim, é verdade.
O general deu uma risadinha cúmplice, um leve tapinha no ombro de Heinrich. Sentou-se num dos bancos, convidou o major à sentar no outro.
– Devo dizer que fiquei preocupado com você quando sua esposa morreu Veltheim. É muito jovem e já é major, temi que a perda interferisse na sua carreira militar. – o general enrolou as pontas do farto bigode branco – Mas pelo contrário, continuou desempenhando muito bem sua função em Auschwitz, seus homens são os melhores.
Heinrich o ouvia, não prestava muita atenção, ainda estava preocupado demais com o fato de a existência de Anne ser sabida por ele.
– Se dedicou verdadeiramente ao campo Veltheim, e só o deixou para visitar sua filha. E aí eu comecei a me preocupar com sua saúde.
– Do que fala general?
– Ora, homens tem necessidades, e ao que se sabia o senhor nunca mais teve qualquer envolvimento com uma mulher.
– Eu não tinha ideia de que minha vida particular fosse assim tão interessante general Löhnhoff.
O homem deu uma risada e tornou a ajeitar seus bigodes.
– Não fique na defensiva meu jovem, só sei tanto porque você é um homem promissor. Mas como eu dizia, fiquei levemente preocupado, agora me tranquilizo. As ciganas podem ser um boa distração, algumas são verdadeiramente bonitas.
Heinrich concordou com a cabeça. Lembrava de Anne, o sorriso que ela lhe dera de despedida, o calor de seus braços, o brilho dos olhos azuis.
– No entanto – recomeçou Löhnhoff – Muito cuidado major, já tive algumas ciganas, troco-as regularmente, antes que elas me enfeiticem.
Não sabia se o general tinha dito aquilo no sentido literal ou figurativamente. Fosse como fosse, temia que o oficial superior pudesse perceber que já estava irreversivelmente enfeitiçado.
***
Com verdadeiro alívio Heinrich abriu a porta de sua casa. Enorme e bela residência no coração de Berlin. Deparou-se com o hall espaçoso, bem decorado e minuciosamente limpo.
Ouviu a vozinha de Liesel vindo da sala de estar, aparentemente ela e a Sra. Weber estavam cantando alguma música infantil.
– O que está fazendo mein schatz? – indagou ele sorrindo para menina.
A pequena piscou os olhos azuis-violeta, reconhecera imediatamente o chamado. “Meu tesouro” era como o pai a chamava. Levantou-se e correu para ele.
– Papa! Papa! – exultava ela
O major apertou a filha em um abraço, beijou-lhe o rosto tantas vezes que a menina começou a se sentir incomodada com o excesso de carinho.
– Está brincando com a Sra. Weber, Liesel?
– Nein papa, singend.
Não estava brincando, estava cantando explicou a menininha tropeçando nas pronúncias. Heinrich sorriu e entregou-lhe um enorme embrulho.
– Papa trouxe chocolates para você.
Sorriu novamente ao perceber o interesse dela, sorriu ao lembrar que aquela era a mesma expressão que Anne fazia ao ganhar doces.
– Mas só poderá comer depois do almoço Liesel. – disse a Sra. Weber suavemente.
Liesel exibiu um belo bico à governanta, os bracinhos cruzados em sinal de aborrecimento, ao que esta limitou-se a ignorar a birra da menina.
– Papa... – começou a pequena, prestes a protestar.
– Não posso fazer nada querida. Ela também manda em mim. – confessou o major enquanto se adiantava para a velha senhora.
Beijou-lhe a testa. Sra. Weber ou Nana como carinhosamente a chamava, fora sua babá e agora era a governanta e quem cuidava de Liesel. Uma simpática senhora gorda, ligeiramente baixa, de faces muito rosadas e de cabelos loiros claríssimos, constantemente presos em tranças ao estilo tiara.
– Pensei que fosse demorar a retornar Heinrich.
– Tive que vir Nana, é uma longa estória. Coisa para outra hora.
A mulher acariciou-lhe o rosto. Aparentemente compreendia que era um assunto sério. Beijou suas bochechas.
– Então vamos todos almoçar afinal. – concluiu contente.
O major concordou, sentia fome e mais, sentia a necessidade de acolhimento ali, no seio de sua família. Liesel e Nana.
***
A senhora bávara empalidecera completamente, o susto fora tamanho que conseguira arrancar o constante rubor de suas bochechas cheias. Há dez minutos ela não dizia nada, os olhos azuis como turquesas estavam arregalados e foscos.
Heinrich recriminava-se por ter contato à ela o que havia visto no Bloco 10. Não precisava tê-la chocado com aquelas coisas horrorosas, mas como explicar tudo pelo que estava passando se não lhe desse o real motivo?
– Eu sempre soube que isto estava errado meu filho, mas jamais pude imaginar que tanto...
– Então pense em quanto eu me surpreendi Nana. Achei que estava fazendo o certo, defendendo o lado certo.
A senhora franziu as sobrancelhas, expressão severa, sempre fora muito clara quanto as suas opiniões sobre o trabalho de Heinrich.
– O lado que mata nunca é o certo. – declarou a velha babá se levantando da mesa. Andava de um lado para o outro, balançando seu corpo roliço e atarracado. — Fazer coisas assim com crianças, com pessoas...
– Nem animais merecem o que eu vi Nana.
Valkyrie Weber estava perplexa com tudo o que seu menino lhe contara. Nunca gostara de Hitler, do nacional-socialismo, da superioridade ariana, mas jamais poderia imaginar que estavam fazendo coisas tão horríveis nos campos de concentração. Pareciam-lhe mais com campos de extermínio, de tortura.
Ninguém tinha o direto de determinar quem merecia ou não viver, quem era ou não importante. Só Deus podia fazer isso, e o Führer certamente não era Deus.
– O que vai fazer mein kind?
Heinrich gostaria de ainda ser a criança de Valkyrie, gostaria de poder fazer alguma coisa. Sentiu novamente culpa, remorso por não poder impedir que aquilo continuasse.
– Nada Nana, não vou fazer nada que ponha Liesel em risco.
Sua voz estava fraca, desesperançada. Valkyrie entristecia-se pela provação que seu menino passava. Abraçou-o forte.
Ficaram calados por um bom tempo, o major sentia como se fosse novamente uma criança, apertado contra o corpo macio e quente de Nana, sua babá e sua mãe. Os batimentos cardíacos dela acalmavam os seus.
Mais algum tempo e a senhora o soltou. Aos poucos a cor voltara para seu rosto redondo e belo. Ostentava seu olhar mais materno, tão complacente e bondoso quanto triste.
– E a moça cigana? O que há de ser feito dela? — indagou piedosa.
Já sabia de Anne desde a última visita de Heinrich quando este lhe contou tudo o que acontecera, e lhe confessou o leve interesse que sentiu por ela. Indagou se era certo, Nana respondeu que nada era por acaso.
O homem tornado em menino minutos atrás voltou a ser homem. Olhar grave, coração despedaçado.
– Espero que eu consiga mantê-la à salvo até que tudo isso acabe...
Nana deixou escapar um suspiro triste, gostaria de poder ajudar Heinrich, mas sabia que nada poderia se feito quanto a isso.
– Você é um bom pai mein kind, está desistindo de um amor por sua filha.
Heinrich segurou as mãos rechonchudas e rosadas da babá. Beijou-as.
– Eu não lhe disse que amava aquela moça Nana.
– Não há necessidade de dizer meu bem. Sei mais sobre você do que qualquer pessoa, sei como sente e como funciona seu coração. – afagou-lhe os cabelos como se fosse um garotinho – Percebo o que sente em seus olhos, brilham quando fala dela.
O major sorriu eternecido, amava Nana, a única mãe que conheceu. A governanta abraçou-lhe forte mais uma vez , apertando-o contra o farto busto. Para Heinrich, Nana tinha cheiro de carinho, conforto. Talvez fosse só isso o que precisava.
Notas finais
Liesel é uma garotinha bastante falante apesar da pouca idade, e cheia de atitude também. E a Sra. Weber uma mãezona.
Heinrich foi procurar aconchego na família, será que basta?
E Anne, como deve estar sozinha em Auschwitz?
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Deixem reviews meninas, estou começando a ficar preocupada, o número de leitores excede o de pessoas que comenta. Quero saber o que vocês aí, ilustres leitoras-incógnitas estão achando também. As que comentam o meu muito obrigada, continuem comentando. ;)
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