Bem Vinda Ao Campo
36 Reflexões Madrugueiras
Notas iniciais
Apesar de terem finalmente se acertado, Heinrich deu boa noite a Anne, um leve beijo em seus lábios, outro mais delicado ainda na testa do pequeno Wilhelm, e se retirou do quarto ainda não acreditando no modo como tudo dera certo.
Sentia que estava flutuando, todos os seus anseios e medos sobre o parto foram infundados. Estava claro que o problema sempre fora Gretel, e não ele.
Ela fora fraca demais, ela é que não lutara o suficiente para se manter viva. Liesel por um milagre não morrera ainda no útero.
Anne era completamente diferente de Gretel, não teve nem metade dos cuidados dispensados a outra, muito pelo contrário, passou por um número incontável de preocupações, e ainda assim não se permitiu reclamar ou fraquejar por um minuto sequer.
Era a mulher mais forte que conhecia, e nem era mulher há tanto tempo assim.
Lutou até o fim, e não descansou até ter certeza de que o filho estava bem, vivo. E ainda não conseguia crer que ela possuísse tanta força naquele corpinho pequeno.
Admirava-a mais do que nunca, felicitava-se por poder ter aquela incrível mulher ao seu lado, mãe de seu filho, e de sua filha também.
Veltheim deitou-se, mas não podia dormir, porque Anne continuava em seus pensamentos, espantando seu sono. Não a via mais como um objeto de desejo, uma fonte de prazeres, um amor.
Não mais, ou melhor, não mais somente isso.
Ela havia subido um patamar, estava além de todas as suas qualidades anteriores. Agora era uma mãe, e não havia coisa mais maravilhosa do que isso.
Aquela cigana, por mais impensável que tivesse sido quando a conhecera, tornou-se a pessoa mais admirável para ele.
Acima de qualquer militar, acima do Führer, da Alemanha e do que mais fosse, Anne era sua mulher, mãe de seus filhos.
Heinrich não chegou a conhecer a mãe, Margret Von Veltheim morreu antes que o major completasse um ano de idade, terrível caso de cancro pulmonar, e Nana a substituiu de certo modo.
Apesar de ser a figura feminina e maternal que possuía, Valkyrie Weber nunca pode fazer papel de mãe, pois seu pai, Wilfried, jamais permitiu. Deixava sempre claro que ela era tão somente uma empregada.
Tinha então a oportunidade de vivenciar a presença de uma mãe de fato, e acompanharia isso, tão de perto quanto pudesse.
Derrubar o Nacional Socialismo jamais pareceu tão correto quanto naquele momento. Sua família dependia da queda do Reich.
Quando aquele inferno acabasse poderia acertar sua situação com Anne, casaria com ela, na igreja. Registraria Wilhelm e ele seria batizado tal qual era a vontade de Deus.
Mas isso só poderia acontecer se o Führer morresse, e se isso era preciso, ele faria acontecer!
Dormiu com essas idéias, pensando em todas as maneiras de matar Hitler, e de repente, a idéia de Rudolph de levar uma bomba para o bunker não parecia mais tão absurda.
***
No quarto ao lado, Adolf Hitler não era nem mesmo cogitado, Anne estava maravilhada deitada ao lado do filho vendo-o dormir.
A perfeição daquela tão miúda criatura era inacreditável, as mãozinhas gorduchas, o rostinho redondo, as bochechas cheias, a boquinha avermelhada, os compridos cílios louros cerrados, os cabelinhos finos de ouro.
Entristecera-se ao ver nos sonhos aquela pequena cópia do major, mas agora que o tinha nos braços, sabia que não poderia ser diferente. Era o garotinho mais lindo de toda a face da Terra.
Sentia leves contrações no útero, que ia lentamente voltando ao normal, se pensasse bem sentia dores nas costas e um forte cansaço, mas nada daquilo era significante tendo aquele adorável milagre dormindo ao seu lado.
Lutava contra suas próprias pálpebras porque não queria perder nem um minuto daquele momento incrível.
Sentia exatamente o que imaginara que sentiria ao saber que estava grávida, tinha algo que era e seria seu para sempre, um alguém que amaria independente de qualquer coisa, e teria esse amor retribuído em igual medida.
Não se atreveria a dizer ao major, mas começava a ter certeza de que tudo o que acontecia já havia sido previsto anos atrás. Sua madrinha, Katja Stojka sabia de tudo há muito tempo.
Era aquele o futuro auspicioso que ela previra. Veltheim, Valkyrie, Liesel, Rudolph e Wilhelm eram parte dessa sorte.
Se achava tola por não ter percebido antes, tudo desde a chegada a Auschwitz a encaminhara para seu destino.
O major interveio mesmo que não se metesse com a Solução Final, levou-a até o Dr. Krämer que tornou-se grande amigo e peça fundamental, depois a mão de Deus lhe tocou e ela ficou grávida. Conseguiu escapar à salvo daquele inferno, chegou bem até Berlin, onde foi recebida por Valkyrie e Liesel. A babá lhe acolheu e fez com que sua gestação fosse mais fácil, e Liesel, além de ser um caso de amor a primeira vista, foi uma amável distração e um gostoso treino para a maternidade.
Era mãe dela, não era? Sentia como se fosse, amava-a como se fosse, e se lhe pedissem, não poderia diferenciar os sentimentos que nutria pela menina, dos que tinha pelo filho recém-nascido.
E quanto a Heinrich, o que poderia fazer se não agradecer por ele estar em sua vida? Restava a ela amá-lo e respeitá-lo por ter permitido que ainda estivesse viva, e por lhe dar motivos pra que isso fosse tão bom.
Não sabia por quanto tempo sua felicidade duraria, sabia o quanto seu bem estar era instável, e que todo o seu mundo poderia desmoronar em segundos, mas se pensasse nisso, jamais aproveitaria. Estava feliz, o tempo não importava.
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