Notas iniciais
Atrasou um pouquinho, mas chegou.
Boa Leitura. ;)

Na sala-de-estar, Liesel brincava no tapete, Valkyrie tricotava no sofá, e Anne sentada na poltrona do major, amamentava o pequeno Wilhelm.

Não podia dizer que era algo indolor, pois não era, as sugadas do bebê faziam com que seus mamilos doessem bastante, mas ao mesmo tempo a sensação de o estar alimentando, de ser a fonte de vida do pequeno compensava todas as fisgadas que sentia.

- É uma coisa muito bonita, a amamentação.

- Bonita e dolorida. – disse Anne com um sorriso.

Valkyrie sorriu-lhe de volta, e tornou a se concentrar nos sapatinhos que tricotava para o novo bebê.

- Acha que eles vão demorar?

A governanta balançou a cabeça negativamente. Rudolph e Heinrich haviam saído ainda pela manhã, já passavam das seis da tarde e eles ainda não tinham retornado.

Ao saírem, disseram que iriam resolver assuntos do trabalho. Nem Anne nem Nana disseram coisa alguma a respeito, mas se preocupavam muito com eles.

- Eu acho que já devem estar chegando querida.

Anne trocou de peito, colocando Wilhelm no para mamar no seio esquerdo, assim como Valkyrie havia lhe ensinado, vinte minutos em cada um.

- Eu gostaria que chegassem logo, me sinto estranha por não estarem aqui...

- O que sente é saudades de Heinrich.

- Talvez seja. – concordou Anne com um sorriso de canto.

A verdade é que desde de a noite anterior, ou seja, o nascimento de Wilhelm, sentia novamente aquele calor no coração todas as vezes em que pensava em Veltheim, e agora já não era mais necessário dizer que não sentia.

Liesel, que atentamente prestava atenção na conversa, resolveu fazer uma pergunta que lhe assolava as idéias desde que Anne se mudara para a casa.

- Vai casar com o meu papa, Anne?

Um leve constrangimento ruborizou a faces da cigana, era complicado demais, provavelmente impossível explicar para Liesel porque não poderia se casa com o pai dela.

- Nein, meu docinho, não vou me casar com seu pai...

- Mas as princesas casam Anne!

O argumento de Liesel era irrefutável, se as princesas dos contos de fada se casavam com os príncipes, nada mais justo que Anne, a princesa e fada mais bonita que ela já vira na vida se casasse com seu pai, um verdadeiro rei.

- Acontece que eu...

Antes que Anne pudesse terminar sua justificativa sem sentido, o próprio rei e seu conselheiro real adentraram a sala.

- Perdão pela demora. — disse Heinrich sorridente — Tivemos alguns problemas, mas trouxemos presentes.

- Geschenke! — comemorou Liesel que adorava presentes.

Os geschenke se resumiam à uma boneca com rosto de porcelana e um cavalinho de madeira para Liesel, e um móbile de berço para Wilhelm.

A pequena imediatamente se distraiu, correndo para pegar a boneca das mãos do tio Rudolph.

- Gostou?

A pergunta do major obviamente fora dirigida à Anne, já que o apreço de Liesel pelos novos brinquedos era óbvio.

- Sim, é muito bonito, mas onde vamos pendurar?

- E aí está a outra surpresa! – exultou ele.

Saiu da sala juntamente com Rudolph, e quando retornaram, traziam um pesado berço de madeira.

- Eu disse que compraria um berço para nosso filho.

Anne sentia que estava prestes a chorar, todos os presentes que Heinrich lhe desse não se comparariam à um único presente que ele desse para Wilhelm ou Liesel.

- Nem sei o que dizer...

- Não diga nada.

Adiantou-se para ela e deu-lhe um beijo na testa. Fazer Anne e as crianças felizes, e saber que todos estavam seguros lhe dava a sensação de dever cumprido, estava de acordo com seus deveres de homem e pai.

- Vamos então levar o berço para o quarto? – indagou Rudolph já prevendo o esforço que seria empenhado para levar o objeto de madeira maciça escada acima.

***

Depois de longos minutos, o berço finalmente estava no quarto que Anne ocupava, com o móbile já pendurado.

Rudolph saíra com Nana, Liesel e Wilhelm para dar privacidade a Anne e Heinrich que permaneceram no cômodo.

- Gostou do berço? Sei que não é muita coisa, mas foi o melhor que pude achar.

A cigana abraçou-o fortemente, estivera se controlando desde que ele chegara, tentando disfarçar a vontade.

- Eu adorei. – sussurrou em seu ouvido – Não poderia ser melhor...

Ficaram calados por bastante tempo, os corpos colados, apenas prestando atenção nos batimentos cardíacos um do outro.

- Porque demorou tanto?

A voz de Anne a quebrar o silêncio, relembrou Heinrich do modo como o acaso havia adiado seus planos.

- Problemas no trabalho meine liebe, nada importante. – justificou – Eu deveria ir à uma reunião amanhã, mas por conta do bombardeio ela foi transferida para daqui a três dias...

- Tem informações sobre o bombardeio?

- A Força Aérea Britânica está nos atacando.

- Vai tornar a acontecer?

A tristeza diante da incapacidade embaçou os olhos dele. Provavelmente sim, mas não queria dizer isso para Anne.

- Não sei dizer meine liebe, não sei dizer...

***

Após todos terem ido para a cama, Heinrich e Rudolph encontraram-se no escritório para discutir o futuro de seus planos assim como haviam combinado mais cedo.

- Tem certeza disso Heinrich?

- Absoluta, já relutei muito, mas vejo que é necessário. O Führer precisa morrer o quanto antes, a RAF¹ está atacando Berlin, civis morreram no bombardeio. Isso tem que parar.

O médico fez um aceno enérgico e positivo com a cabeça, concordava plenamente que era o momento exato para agir, só havia uma coisa com a qual não estava de acordo.

- Certo, mas eu vou levar os explosivos. – decidiu pontuando muito bem o “eu” na frase.

- Você não tem experiência com explosivos, e não terá sangue frio para...

- Você é pai. Acaba aqui.

Raramente Rudolph se impunha ao amigo, mas sabia que aquela era a hora para fazer isso. Heinrich não tinha o direito de se arriscar, não tendo mulher e dois filhos, sendo que a mulher e um dos filhos eram ciganos.

- Rudolph...

- Pare de insistir! Não seja idiota, não pode ser pego agora, Anne, Liesel e Wilhelm precisam de você vivo e nas boas graças do Führer.

Sabia que estava sendo duro, mas era preciso, afinal Heinrich era um sujeito bastante difícil, e para convencê-lo era importante ser firme.

- E se você for pego Rudolph? Me diga?

- Ninguém depende de mim, não sou casado, não tenho filhos, minha família está fora da Alemanha. Tenho só a minha vocação, e como médico sinto que sou inútil se não fizer isso parar.

- Mas Rudolph...

- Se eu morrer... – interrompeu ele seriamente – Ninguém sofrerá as conseqüências.

Notas finais
Pois é, Rudolph está cheio de atitude e irredutível.
Mas será que ele não está certo em querer proteger o melhor amigo e sua família?
E por falar em família, tudo parece bem com os Veltheim, não é?
--X--
1. RAF - A Força Aérea Real (RAF), em inglês Royal Air Force, é a força aérea britânica.