Bem Vinda Ao Campo
38 Conflitos
Wilhelm já tinha três dias de vida, seus grandes olhos ficavam abertos com mais freqüência, exibindo um tom cinzento-azulado que prometia tornar-se azul em breve.
Era um bebê bastante calmo, quase não chorava, um tanto quanto preguiçoso ele dormia facilmente em qualquer colo que fosse quente e aconchegante, ainda que preferisse o da mãe.
Extremamente guloso, pedia por leite constantemente, e se demorava a receber peito, começava a “morder” seus próprios dedinhos.
E quanto a dedinhos, adorava segurar os de Liesel, apertando-os com suas mãozinhas pequeninas.
A menina divertia-se toda a vez que colocavam o brüderlein em seu colo, fazia carinho nas bochechas coradas dele, nos cabelinhos louros, beijava o rosto dele todo o tempo. Adorava o irmãozinho, que chamava de Wilhy por não conseguir pronunciar Wilhelm corretamente.
Não fosse pela guerra que estava se desenrolando lá fora, eles poderiam ser uma família perfeita.
- Rudolph, quero lhe fazer um pedido... – disse Heinrich.
Sentado em sua poltrona, com o filho recém-nascido no colo, Liesel brincando no chão ao seus pés, e Anne na poltrona ao lado, ele era a melhor imagem de um patriarca que poderia haver.
- Pois diga, o que você quiser.
- Quero que seja padrinho de Wilhelm assim como é de Liesel, e nesse caso, acho que não poderia ser mais apropriado já que você fez o parto.
O médico nada disse, limitou-se a um sorriso emocionado, um aceno positivo de cabeça.
- Eu não poderia recusar e tampouco ficar menos contente com isso Heinrich, aceito sem pensar duas vezes.
- Fico muito feliz Dr. Krämer, quando o major me contou concordei e acho que não haveria padrinho melhor. – disse Anne sorrindo, os olhos transbordando bondade.
- Acho que já passou da hora de você me chamar de Rudolph.
- E eu tenho certeza de que além de começar a chamá-lo de Rudolph, deveria voltar a me chamar de Heinrich, meine liebe.
- Papa, porque ela não diz meine liebe também? — perguntou Liesel, uma expressão confusa no rosto.
- Porque esse é o jeito que eu digo, ela diz de outro modo...
Não adiantou de nada a explicação, Liesel achava que se o pai dizia “meu amor” para Anne, ela deveria dizer o mesmo. Não entendia o que era amor, mas tinha certeza de que o papa e a fada de cabelos negros se amavam.
- Vamos comemorar! – decidiu Heinrich – Comemorar o nascimento de Wilhelm, a saúde de Anne, e o quanto estamos felizes.
Estava sinceramente cansado da guerra, de tristeza, e do modo como sua vida se tornara sem graça. Era um momento para festas, mais tarde pensaria sobre seus deveres.
Entregou o filho nos braços de Nana e adiantou-se para o gramofone, sua comemoração necessitava de música.
Colocou um disco de Glenn Miller¹ e sua orquestra para tocar. Sentia vontade de dançar como jamais tivera em toda a vida.
- Venha meine liebe, dance comigo. – pediu ele tomando Anne pela mão.
Dançaram, e foi como se a sala tivesse se transformado em um grande salão, rodopiavam juntos, os olhos fechados, a melodia os invadindo.
Anne sentia-se tão contente que mal podia crer, deixava que Heinrich a conduzisse, ria como se fosse uma criança.
- Te amo... – surrou Veltheim ao seu ouvido.
Não disse que também o amava, mas o modo como encostou o rosto em seu peito permitiu que ele soubesse que assim o era.
- É uma festa só para dois? — perguntou Rudolph pegando Liesel no colo. – Ou podemos nos juntar a vocês?
- Juntem-se a nós!
Logo Rudolph segurando Liesel, e Valkyrie com Wilhelm no colo uniram-se a brincadeira, também rodopiando pela sala.
A música animada era contagiante, e a sensação era de que poderiam ficar ali dançando para sempre.
Não poderiam. Um som já conhecido tornou a tocar, aguda a sirene do alarme de bombardeio interrompeu o momento alegre.
Estacaram, as feições congeladas em expressões de susto.
- Para o porão! – ordenou Heinrich, o tom de voz absurdamente controlado.
***
De dentro do abrigo podiam ouvir a música que ainda tocava no gramofone, um estranho contraste com o som das bombas que caíam.
Dessa vez Liesel não chorava, em sua cabeça aquilo era algum tipo de brincadeira dos adultos, algo como esconde-esconde. Só não entendia os barulhos lá fora, talvez fosse trovões.
O bombardeio parecia estar acontecendo mais longe do que aquele da noite do nascimento de Wilhelm, não sentiam o chão tremendo tanto quanto naquele dia.
A luz do porão estava acesa tornando tudo muito menos assustador. Valkyrie sentada em um caixote de madeira embalava Wilhelm, e Liesel atenta, observava o irmãozinho.
Anne e Heinrich abraçados estavam sentados no chão, e Rudolph em pé, parecia extremamente pensativo. Se dispusesse de uma folha de papel e caneta, com toda a certeza estaria rabiscando-a.
Não diziam nada, numa hora como aquela não havia nada a dizer, e se não fosse pelo súbito choro de Wilhelm, teriam ficado em completo silêncio.
- Acho que ele está com fome querida. – informou Nana.
Anne foi até a babá e pegou filho nos braços, sentou-se em uma outra caixa de madeira e retirou um dos seios para fora do decote do vestido.
Poucos meses atrás ficara em choque ao ter os seios expostos, agora isso não significava nada. Ao menos não para ela.
Do outro lado do cômodo Heinrich observava embevecido, era a primeira vez que a via amamentando. Extremamente confuso era o que se passava em sua cabeça.
Inegável o tanto de ternura envolvida naquele ato, o jeito como o olhar de Anne derramava-se docemente sobre o filho. Mas o estranho, é que ao mesmo tempo em que achava tudo aquilo lindo e imaculável, sentia uma leve excitação em ver.
Estava incomodado por sentir aquilo, não devia olhar para os seios de Anne como antes, não eram mais como antes! Era o alimento de seu filho agora, que diabos!
Tentava evitar, mas não conseguia desprender os olhos daquela cena, e o pior era que seus sentimentos sobre ela nem sequer eram definíveis.
Não sabia o que era mais forte, a plenitude de ver Anne se transformando no alimento vivo de Wilhelm ou o desejo que aqueles belos seios inchados lhe incutiam.
Temia haver algo de errado com sua personalidade por se permitir desejar os seios de uma mulher amamentando, ainda mais estando essa mulher amamentando seu próprio filho.
Conseguia discernir as coisas, sabia que entre Anne e Wilhelm tudo não passava de um momento de carinho, e que sua excitação só se devia ao fato de estar vendo o seio moreno dela e não se derivava do aleitamento.
Ainda assim sentia-se perturbado por isso ocorrer ao mesmo tempo em que ela alimentava o bebê.
Ignorando seu conflito mental, Anne recolheu a mama direita para dentro do vestido e colocou a esquerda para fora, pondo Wilhelm para mamar na mesma.
Talvez tudo aquilo estivesse acontecendo com Heinrich porque ficara todo o tempo da gravidez sem sequer tocar em Anne, e sem nem mesmo pensar em qualquer coisa sexual, certamente havia grande tensão acumulada.
O difícil seria que ele compreendesse que era disso que se tratava, e que não havia nada de errado consigo por achar os seios de Anne tentadores, afinal eles eram.
- Acabou. – disse Rudolph assim que ouviu o som da sirene tocando novamente.
- Como? – indagou Heinrich distraído.
Ficou tão ocupado refletindo sobre o misto de sensações que tinha ao observar Anne amamentando que se esqueceu do bombardeio e sequer deu-se conta de que o tempo passara.
- O bombardeio acabou, vamos subir.
Concordou com a cabeça, melhor que saíssem logo do porão, assim não teria mais de lidar com seus conflitos internos.
Notas finais
Novo bombardeio, por mais quanto tempo isso vai durar?
Deixem comentários, suas lindas. ;D
--X--
1. Gleen Miller - Alton Glenn Miller foi um músico de jazz estadunidense e bandleader na era do swing. Ele foi um dos artistas de mais vendas entre 1939 e 1942, liderando uma das mais famosas big bands.
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