A expressão de profunda tristeza de Heinrich era mais do que suficiente para que Rudolph desistisse de sua mentira. Via que o amigo estava realmente preocupado. Não fosse a promessa feita à Anne...

– É grave?

O medo na voz dele era quase palpável, prova de seu amor pela cigana, do zelo que lhe dispensava.

– Não é nada realmente sério, mas demanda cuidados.

– Que tipo de cuidados?

– Anne precisa ficar aquecida, e tem de repousar integralmente.

O major concordou, nem lhe passava pela cabeça a possibilidade de desrespeitar o resguardo dela. Só pensava em sua saúde fragilizada e no medo que tinha de perdê-la.

– Rudolph, eu só não entendo como ela pode ter pegado pneumonia.

O medico deu um suspiro, tinha se preparado para aquela pergunta.

– Provavelmente ela teve alguma gripe forte ainda no gueto, que não curou completamente e o caso se reverteu num quadro de pneumonia.

Não questionou mais, não era médico e não tinha a menor ideia de como ocorriam as doenças, Rudolph certamente sabia do que estava falando.

– Parece que tenho um grande azar com as mulheres – comentou Veltheim estafado – Se eu as amo ou não, as que convivem comigo tendem a adoecer...

– Não seja mórbido. Anne só precisa de repouso.

O dr. Krämer sabia ao que ele se referia, se lembrava perfeitamente de como a saúde de Gretel estava debilitada pouco antes de ela engravidar de Liesel.

Lembrava perfeitamente do desespero de Heinrich que após dez anos de um casamento frustrante, já não acreditava mais na possibilidade de ser pai.

Gretel era neurastênica, recusava comida por medo de engordar e não caber mais em seus vestidos de alta costura, rezava por pecados que não cometeia. Pedia por uma criança, ainda que repudiasse fazer sexo com o marido.

Rudolph ainda tinha na memória todas as conversas que tivera com Veltheim sobre o assunto.

Era uma verdadeira ironia do destino ter posto Anne na vida de seu amigo. O extremo oposto da falecida esposa.

No mínimo era uma gozação do acaso que ele tivesse ficado tanto tempo tentando ter filhos com Gretel e tivesse engravidado Anne tão rapidamente, sem querer e sem saber.

– Tem algum remédio para dar à ela? – indagou Heinrich, completamente alheio as reflexões do outro.

– Não, não quero medica-la, creio que ela só precise de descanço.

O major estranhou, mas novamente preferiu não protestar, Rudolph sabia o que fazia.

– Bem, nesse caso vou ver como ela está.

Ia se preparando para sair quando Krämer lhe chamou.

– Heinrich, tenho mais uma recomendação.

–Diga.

– Evite dormir com ela, deixe-a repousar realmente.

Aceitou mais uma vez sem objeções, a saúde dela era o mais importante.

***

Quando entrou no quarto encontrou Anne sentada na cama. Ela parecia estar a sua espera.

– Deveria estar deitada meine liebe...

– Não estou cansada.

– Está doente.

– Não é nada demais.

Heinrich tirou o quepe e o deixou sobre a escrivaninha.

– Pneumonia é uma coisa séria Anne.

Concordou. A verdade é que se sentia muito mal por deixá-lo preocupado sem necessidade, mas agora não vivia mais para si, e sim para a criança que esperava, e precisava protegê-la ainda que do pai.

– Rudolph me disse que você precisa ficar aquecida, e que tem de repousar. Deite meine liebe.

Deitou-se, havia criado aquela mentira e agora tinha de sustentá-la.

Heinrich a observava, a simples ideia de perdê-la o apavorava. Sabia que haviam boas chances de cura, mas ainda assim tinha medo.

– Não poderei mais dormir aqui com você.

– Por quê?

Tinha noção de que fazer amor com ele se tornara inviável, mas gostava de dormir em seus braços. Lamentava não poder mais.

– Não tenho certeza, entretanto foi uma recomendação de Rudolph, deve ter alguma razão.

– Certo...

Sorriu para ela e beijou sua testa. Não poderia suportar se algo lhe acontecesse, não podia deixar que algo lhe acontecesse.

– Anne.

– Sim?

– Não sei se devia dizer isso, mas gosto muito de você. – confessou fitando-a profundamente – Se fosse outra época, outro lugar, eu viveria a seu lado para sempre.

O coração da cigana apertou, era tão ruim enganá-lo. Era tão ruim saber que as palavras dele eram verdade. Que bom seria se pudessem mesmo ficar juntos para sempre.

– Eu acho que gostaria se isso fosse possível Heinrich...

Veltheim envolveu-a nos braços sentindo que segurava sua felicidade com as próprias mãos. Amava-a tanto! Talvez ela também lhe amasse.

Talvez devesse arranjar algum jeito de tirá-la do inferno que era Auschwitz, ainda que fosse arriscado.

– Está pensando em que? – perguntou Anne acolhida em seus braços.

– Em coisas meine liebe, coisas para fazer assim que você se curar.

Não ia se curar, porque não estava doente. De todo o modo poderiam fazer as “coisas” que ele pensava depois que contasse sobre a gravidez. Em um mês seria obrigada a contar.

***

Sentia como se estivesse invadindo o espaço de outra pessoa. Heinrich não reconhecia mais a casa da Polônia como sua. Sentia falta do alojamento no campo, sentia falta de Anne.

De joelhos ao lado da cama rezava há quase uma hora. Suplicava a Deus para ela se curasse, para que ficasse boa o quanto antes.

Lágrimas silenciosas rolavam por seu rosto enquanto os lábios se moviam rapidamente, proferindo inúmeras preces, provavelmente todas as que o major conhecia.

– Por favor Senhor, não a tire de mim. Ela me fez ser feliz novamente, me ensinou a amar, fez com que eu me ligasse ainda mais a Liesel. Não permita que ela morra...

As vezes repetia a mesma oração, em outras buscava do fundo da mente alguma reza que Nana lhe ensinara, mas sempre ao final delas o pedido era o mesmo. Que Anne se recuperasse.

– Vater unser im Himmel Geheiligt werde dein Name.

Dein Reich komme. Dein Wille geschehe, wie im Himmel, so auf Erden.

Unser tägliches Brot gib uns heute. Und vergib uns unsere Schuld, wie auch wir vergeben unsern Schuldigern. Und führe uns nicht in Versuchung, sondern erlöse uns von dem Bösen.

Denn dein ist das Reich und die Kraft und die Herrlichkeit in Ewigkeit. Amen.

Terminou o "Pai Nosso", beijou a capa da bíblia e a recolocou na gaveta do criado-mudo.

Deitou-se, mas não conseguiu dormir de imediato. A imagem de Anne não lhe saía da cabeça.

Notas finais
Que judição... >_<
Heinrich está achando que Anne está gravemente doente... =O
Ele merece isso?
Comentem. ;)
--X--
Quero aproveitar para agradecer à todos os leitores que vem comentando, inclusive os novos, fiquei muito feliz em descobri-los. Aos que ainda não comentam: Não se reprimam! Sua opinião é super importante.
E depois, quero agradecer as duas maravilhosas recomendações que as Anacarolis e BiaSiqueira fizeram para "Bem Vinda ao Campo". Obrigada suas lindas! ;D