Bem Vinda Ao Campo
60 Prata Derretida
Notas iniciais
Boa Leitura.
Apesar de já passar das nove horas da noite, uma vela ainda estava acesa dentro cozinha dos Kriegel.
A luzinha bruxuleava e sua luminosidade escapava fantasmagórica através do vidro da janela, que do lado de fora, acumulava a poeira dos escombros dos diversos bombardeios.
Do lado de dentro, um velho com o rosto cheio de rugas tinha uma expressão absolutamente carrancuda.
- Eu já disse que não!
- Papa...
- Calada! Menina atrevida! Traz esse aí para dentro de casa e ainda me pede uma coisa dessas...
- Hansi! Não fale assim com nossa filha. Ela só está tentando salvar uma família...
- Uma família que nada tem a ver conosco Muriel.
O outro homem que até então estivera alheio aos sussurros exaltados moveu-se na cadeira.
- Sr. Kriegel, entendo perfeitamente sua posição, e sei que não tenho direito de lhe pedir nada...
- Não tem mesmo! Ilude minha Kristina com suas conversas de moço importante!
- Minhas intenções com sua filha são...
- Não são importantes agora. – interrompeu a moça com impaciência. – Papa, precisa ajudar o major e a família.
- Nein!
- Pare de ser cabeça dura Hansi! Pense nos inocentes, pense nas crianças! — exclamou Muriel em tom de zanga.
O velho ergueu-se de súbito, espiou a janela, voltou-se para os presentes na minúscula cozinha.
- Os tais aliados vão fazer mal as crianças? – indagou furtivo.
Rudolph deu de ombros. Não havia como dar certeza em uma coisa daquelas.
- Não posso dizer que sim ou que não, mas considerando o importante cargo de Heinrich, é bem provável que coisas ruins aconteçam...
Hans Kriegel resmungou, andou rangendo os dentes pelo pouco espaço que tinha na cozinha.
- Não temos acomodações para todos. – disse por fim.
Sentou-se na cadeira, os olhos cinzentos de prata fixavam o chão. Não dava indícios que iria falar mais alguma coisa, parecia ter se resolvido.
- E isso quer dizer o quê papa?
- Quer dizer o quê? – rosnou ele — Bem quer dizer que aquele moleque e a família dele vão ter que se acostumar com o aperto...
- Oh Hansi! – admirou-se Muriel abraçando o marido.
- Já basta mulher, só disse que eles podem ficar aqui.
- Obrigada papa! – agradeceu Kristina também o abraçando.
- Ora chega de comoção. – pediu o velho que tímido, desvencilhava-se das duas.
- Agradeço-lhe imensamente Sr. Kriegel.
Hans fitou a mão do médico flutuando. Demorou-se a observá-la até que a apertou com firmeza.
- E agora, saia já da minha casa rapaz. Já passou da hora de visita ir embora.
***
Deitado na cama ao lado da esposa, Hans Kriegel continuava com os olhos bem abertos. Pensava na decisão que acabara de tomar.
Era certo que permitiria que o “moleque” e sua família ficassem escondidos em sua casa, mas não o faria sem antes usar de um pouco de rabugice.
A verdade é que não teria coragem de por crianças para fora em plena guerra. Crianças na guerra.
O pensamento fez com que ele se arrepiasse por completo. Um velho fantasma passou por ele soprando um ar frio em sua cara.
Agitou-se levemente sobre as cobertas. Que encontro mais perturbador era aquele que tinha com suas memórias.
Olhos cinzentos como os seus o fitavam na escuridão do quarto. Estavam assustados, mas também o condenavam.
Hans ouvia dentro de sua própria cabeça uma conversa há tanto tempo esquecida.
“ – Eu não quero ir. Não tem propósito.
- Já chega! Não me venha com essas suas desculpas furadas de artista moleque! Assuma suas responsabilidades de homem...”
Um soluço encheu o quarto. A prata dos olhos do velho se fundiam em dolorosas lágrimas.
- Mein Sohn... – sussurrou ele muito baixo.
Nova lembrança. Os mesmos olhos, tão cinzas quanto os de Hans o observavam novamente, dessa vez de dentro do passado. Estavam brilhando de júbilo.
“ – Vê pai? Estou sendo um homem como o senhor deseja.
O rosto do jovem se iluminou com um sorriso que lembrava muito aquele que pairava no rosto do homem mais velho.
- Tenho orgulho de você filho.”
Hans parecia ter diminuído de tamanho de tanto que se encolhia sob o cobertor, como se assim pudesse escapar daqueles vislumbres aterradores.
- Nicht Gott, das ist zu viel für mich... – suplicou ele repetidamente – É demais para mim Deus, é demais para mim...
E mais uma vez, a cena passada desenrolou-se diante de si. Ecos do pretérito voltando a tona.
“- Senhor, por favor me escute, os restos do seu filho chegarão em breve. Poderá dar um enterro digno para ele...
- Nein! Mein Sohn! — gritou o Hans do passado caindo de joelhos no batente da porta de casa – Meu filho amado...”
E fora a partir daquele dia que Hans Kriegel parara de sorrir.
Notas finais
--X--
Espero que tenham gostado! Agradeço imensamente aos comentários, e em especial, a Joyce Santos que fez uma adorável recomendação para fic. Muito obrigada sua linda! A fic só acontece por conta de leitoras como você! ;*
Fale com o autor