Bem Vinda Ao Campo

7 Perdendo a Razão


Pela primeira vez, Heinrich começou a aceitar que o Reich estava realmente ameaçado. Stalingrado era sem sombra de dúvidas a derrota mais perigosa que sofreram.

– Três dias de luto não são o suficiente para as perdas... – murmurou Krämer, os olhos sem vida.

– Paulus¹ não deveria ter se rendido.

Heinrich fora incisivo ao referir-se ao marechal-de-campo. Nunca um marechal-de-campo alemão se rendera.

– Não havia mais o que fazer Heinrich, a batalha já estava perdida.

– Isso não interessa. Deveria ter lutado até o fim, manchou nossa honra, e pior, deixou seus homens à mercê dos soviéticos. Melhor morrer em combate a morrerem num campo de trabalho forçado.

– Um campo de trabalho forçado como os nossos...

– Rudolph, essa não é a questão, a questão é que ele aplicou as estratégias erradas, pôs os pés pelas mãos e terminou conseguindo a derrota mais vergonhosa possível.

Calaram-se os dois. O médico pesaroso, pensando em quantas vidas foram perdidas, e o major preocupado com o futuro da guerra, tentando acalmar seu ânimo exaltado. Estavam sozinhos na sala de Rudolph.

– Ouvi dizer que Goebbels² vai fazer um discurso em Berlin. – disse Heinrich.

Rudolph deu de ombros.

– E então vai pedir que o povo esqueça a dor e ajude a Alemanha. Acho reprovável.

– É necessário. Não podemos conter uma revolta popular agora. O Reich precisa da ajuda do povo alemão.

Mais uma pausa. Rudolph respirou fundo e falou o que pensava.

– O Reich de Mil Anos vai cair meu amigo.

Veltheim não elevou os olhos, limitou-se a um ranger de dentes.

– Se quer o bem da Alemanha, e eu sei que é isso o que quer, deve se voltar contra o Führer.

Um murro na mesa, Heinrich levantou lívido, parecia capaz de espancar o médico.

– Rudolph eu tenho tolerado suas atitudes há muito tempo, tenho fingido não ouvir suas baboseiras conspiratórias, — sibilou ele mastigando as palavras — mas agora falo muito sério, mais uma dessas e eu lhe entrego para a Gestapo³!

Saiu furioso, se ficasse certamente surraria o amigo até não poder mais. Será que Rudolph não conseguia entender que tudo tinha limites? Que ele tinha limites?

Ser contra o uso de tortura, certo, ele era contra. Sentir pena dos prisioneiros, tudo bem, ele sentia. Acolher uma cigana, sim, tinha feito isso. Conspirar contra o Führer e o Reich já era um pouco demais.

Há três dias deitara-se perfeitamente feliz, revigorado da viagem a Berlin, pensando nas peculiaridades de Anne, e agora estava indo a loucura, preocupado com o futuro da guerra.

Sentia o sangue correr rápido nas veias, suas têmporas latejavam. Estava sufocando por não poder fazer nada, não deveria estar ali atado à Auschwitz, deveria estar na guerra. Quando aquela estúpida dispensa iria acabar?

Sem que percebesse, suas pernas o levaram até o corredor acarpetado, até a porta com seu nome, Maj. Von Veltheim, escrito em letras de latão dourado. Abriu a porta rispidamente.

– Major! – exclamou Anne num grito de espanto.

Estava nua, saindo do banho, agarrou-se a camisola, tampando o corpo com ela.

– Perdão. Eu não sabia...

Pediu perdão, mas a voz estava tão cheia de fúria contida que as desculpas saíram tortas, enraivecidas.

A cigana tinha os olhos grandes de medo, Veltheim estava deveras assustador, o rosto avermelhado, as veias do pescoço saltadas, os punhos cerrados. O major parecia bufar.

– Preciso me vestir.

– Claro – concordou ele, ainda fora de si – Vista-se.

Virou-se de costas, Anne enfiou-se rápido dentro da camisola.

– Perdão por ter entrado desse jeito.

– Aconteceu alguma coisa?

– Más notícias sobre a guerra.

Jogou o quepe na escrivaninha, desabou sentado sobre a cama.

– Que tipo de notícias? – indagou Anne curiosa, um fio de esperança.

– Perdemos em Stalingrado.

– Muita gente morreu?

Heinrich estranhou a pergunta, imaginava que Anne fosse ficar feliz com a derrota.

– Sim, muita gente.

– É muito triste isso. Triste demais.

– Mesmo os mortos sendo nazistas?

Anne inclinou a cabeça.

– O senhor percebe o que está acontecendo major? Hitler disse que devia limpar a Alemanha dos ciganos, judeus, das raças inferiores, no entanto, ele está matando tantos arianos quanto gente como eu.

Simplesmente não sabia o que dizer, aquelas palavras o impactaram mais que quaisquer conspirações saídas da boca de Rudolph.

– É muito triste um povo morrendo para ter o direito de matar. – continuou ela – Temo que em breve não sobre muito da Alemanha, aquela que eu e você conhecemos...

Veltheim sentia que a fúria se dissipara dentro de si, Anne agora o fazia pensar de um modo que jamais imaginara. Quis parar com isso.

– Acho que essa questão é interessante Anne, mas não sei se estou num bom estado de espírito para pensar tão profundamente.

– O senhor parece não dormir há muito tempo.

– Não tenho dormido. Estou preocupado com o pode acontecer...

– Durma major. Essa noite será longa...

Heinrich entendeu que ela não falava da noite, falava da guerra.

– Então cante para que eu durma, aquela musica da outra noite.

Anne estava pronta para negar, lembrava perfeitamente do rosto da esposa do major, mas ele tinha um olhar perdido, muito cansado, triste.

– Anne...

– Sim?

– Não sei o que fiz de errado aquela noite, lamento, só quis lhe dar uma coisa bonita, para você esquecer de como aqui é feio.

Coração esmagado, Anne não acreditava, não plenamente, e mesmo assim não conseguia ignorar.

– E desculpe por ter entrado tão bruscamente – enrubesceu de leve – Não vi nada, foi muito rápido.

– Certo...

Anne parecia levemente constrangida e Veltheim percebeu que não queria ir embora, não tão cedo.

– Posso ficar aqui mais um pouco?

Ela queria dizer não, assim como também queria permitir.

– O quarto é seu major, o senhor decide.

Heinrich sorriu, gostava de como ela era esquiva, de sua elegante neutralidade, mistério cigano.

– Nunca consigo saber o que você está pensando... – disse ele num sorriso.

– É claro que não, eu é que sou cigana...

Silencio, examinavam-se. O major olhava fundo nos olhos dela, como se tentasse descobrir alguma coisa, desvendá-la nem que só um pouco.

– Tenho a impressão de que você não confia em mim.

A jovem deu uma risada, límpida, quase infantil. Pareciam ter acabado uma partida do “jogo do sério”.

– Não confio.

– Por que não?

– Não se pode confiar num homem que trai suas crenças – justificou suavemente.

– O que quer dizer com isso?

– Se realmente acreditasse nos ideais nazistas não estaríamos conversando agora.

– Eu não concordo com algumas coisas Anne, não significa que eu não acredite...

– Se acreditasse de verdade – interrompeu ela – concordaria com tudo.

O major suspirou, penteou com os dedos os fios loiros, que situação complicada.

– Sou um homem divido entre duas crenças, Anne. O nacional-socialismo e a fé cristã.

A cigana então sorriu, complacente.

– Um homem não pode servir à dois senhores major.

Veltheim sabia do que ela falava, reconheceu a passagem bíblica, Lucas, capítulo 16, versículo 13. Já a lera vezes demais.

– Ser católico é minha decisão Anne, minha escolha. Defender o nazismo é meu dever.

– Enquanto não escolher, fará ambas as coisas malfeitas.

Poderia se sentir pressionado, ofendido, como acontecia todas as vezes que Rudolph tentava lhe falar aquelas coisas sobre trair e derrubar o Führer. Entretanto, quando Anne lhe falava as mesmas coisas, de modo ainda mais incisivo, tinha vontade de ouvi-la.

Talvez fosse o fato de ela ser tão bonita, tudo que lhe saia dos lábios avermelhados parecia agradável de ouvir.

– Anne, me conte sobre sua vida fora daqui, o que fazia?

– Bem eu...

Heinrich sabia que ela continuava falando, mas não escutava o que ela dizia, estava ocupado observando como a boca dela se movia ao falar, ocupado em capturar mentalmente seus leves sorrisos, perceber como os olhos se iluminavam quando ela sorria.

Tinha que beijá-la, precisava.

– E as vezes eu vendia fitas e flores com minha madrinha.

– Claro, claro.

Aproximava-se cada vez mais dela. Sabia que assim que a beijasse esqueceria que o Reich estava comprometido, que toda aquela gente morrera em Stalingrado. Esqueceria sua indecisão entre a fé e o dever.

A cigana estava entretida, contando-lhe coisas. Jurou para si que ouviria com atenção em uma nova oportunidade, agora não, precisava beijá-la agora.

– Era bom, quando eu dançava ninguém mais me olhava estranho, me aceitavam, eu não era mais “uma cigana”. Eu era a dança... – disse ela contente.

Não pode mais suportar. Segurou-lhe a nuca com uma das mãos, os dedos esconderam-se nos longos fios negros. Beijou-lhe, e a sensação dos lábios macios dela se tornou a melhor do mundo.

Anne, pega de surpresa, ficou sem reação. Nunca tinha sido beijada. Sentia a língua quente e úmida do major movendo-se em sua boca, deslizando em sua língua, sentia os lábios dele nos seus, sentia a mão dele escorregando em seu corpo, costas, ancas, coxas.

Heinrich sabia ter perdido completamente as estribeiras, e no momento não se importava com isso. Era bom tê-la nos braços, apertar aquele pequeno corpo em chamas contra o seu. Poderia ficar assim para sempre.

Não ficou, Anne empurrou-o para trás, tinha a expressão mais confusa possível.

– Não diga nada – pediu ele, a voz lânguida – Não diga nada agora.

A cigana queria empurrá-lo outra vez, queria dar-lhe um tapa, esfregar a foto de Liesel em sua cara traidora. Não conseguia. O major tinha lhe dominado completamente, era dono de sua vontade.

O major era aquele beijo, a força, o domínio, a suavidade, o poder de lhe deixar submissa, de lhe fazer pensar somente nele. Anne esqueceu de Liesel, da aliança, da bíblia, do orgulho, de Auschwitz, da guerra. Tudo era Veltheim.



Notas finais
Parece que as coisas esquentaram...
Tanto a tensão entre Heinrich e Rudolph, quanto o beijo entre o major e Anne.
A moça até se esqueceu da Liesel.
-- X
1. Paulus - Friedrich Wilhelm Ernst Paulus foi um oficial do Exército Alemão, alcançando o posto de marechal-de-campo (Generalfeldmarschall) durante a Segunda Guerra Mundial. Tornou-se conhecido por comandar na frente oriental o 6º Exército Alemão, principal unidade alemã engajada na Batalha de Stalingrado.
2. Gooebbels - Paul Joseph Goebbels foi o ministro da Propaganda de Adolf Hitler (Propagandaminister) na Alemanha Nazista, exercendo severo controle sobre as instituições educacionais e os meios de comunicação. Foi uma figura-chave do regime, conhecido por seus dotes retóricos.
3. A Gestapo era a garantia do completo domínio da população pelo Partido nazista. Ela foi a polícia política da Alemanha nazi.