Notas iniciais
É com grande alegria que venho comunicar que meu computador está novinho em folha, e que a situação está completamente normalizada.
A fic voltará a ser atualizada com a mesma frequência de antes.
Boa Leitura.

Sob um princípio de sol nascente, Anne saiu do carro auxiliada pelo major. Piscou diversas vezes até se acostumar com a claridade.

Demorou a perceber os contornos da enorme casa, um palacete em tom pastel, e quando percebeu teve vontade de ajoelhar e agradecer por ter chegado em segurança até ali.

- Vamos entrar. – apressou o major.

Adentrou a mansão pelos fundos, apoiada no braço de Veltheim novamente, a barriga pesada lhe diminuía a velocidade.

Estava escuro na grande cozinha, e Anne de olhos arregalados esquadrinhou cada pedaço dela, os balcões, o fogão, a mulher gorda e loira parada na porta...

- Jesus, Maria e José. – disse ela, as mãos rosadas sobre as bochechas fofas – Mein kind, essa moça é quem eu penso que é?

Heinrich nada disse, apenas confirmou com um menear da cabeça, enquanto Anne o fitava espantada, sem entender.

- Eu não sabia da condição dela mein kind...

- Nem eu Nana, nem eu.

A senhora pareceu que ia se manifestar, mas calou-se, preferindo se aproximar de Anne. Tinha uma expressão piedosa e sem aviso abraçou a cigana.

- Não se preocupe querida, eu vou cuidar de você e aqui estará segura.

Não conhecia aquela mulher, não imaginava se poderia confiar nela, no entanto aquele abraço expurgou todos os medos e fez com que realmente sentisse que nada de ruim aconteceria.

- Nana estamos muito cansados. – explicou Heinrich – Vou levá-la para um dos quartos de hóspedes, e depois vou dormir um pouco. Mais tarde eu lhe explico.

Anne não teve tempo de dizer mais qualquer coisa para aquela senhora tão gentil, o major a conduziu por um sala e depois escada acima.

Parou em frente a uma das portas do longo corredor.

- Esse vai ser o seu quarto. – indicou ele, a porta aberta – Durma, mais tarde conversaremos.

***

Já era próximo das três horas da tarde quando Heinrich acordou, ainda estava um tanto quanto tonto com a sequência absurda dos últimos acontecimentos.

Encontrou Nana e Liesel na cozinha, a menina estava sentada no cadeirão de madeira e a babá mexia algo em uma grande panela.

- Que faz mein schatz? – indagou ele para a pequena.

Liesel deu de ombros com uma expressão engraçada.

- Nada, papa.

Teve vontade de dar risada, inclinou-se para beijar sua testa, em seguida se voltou para Nana.

- Está cheirando... – disse referindo-se à comida que ela preparava.

- Estou fazendo purê de maçã, para acompanhar as salsichas e o chucrute com páprica.

Aproximou-se para espiar a panela, não havia reparado mais estava faminto, e o purê de maçã parecia tão bom que fez sua barriga roncar.

- Está com uma aparência ótima...

- É seu, mein kind?

Entendeu imediatamente a pergunta de Nana, falava do bebê na barriga de Anne, ainda assim demorou-se a responder.

- Sim, é meu.

- Ela é mais jovem do que eu esperava.

- Tem dezessete anos.

- É muito bonita.

- Ela é linda.

- Quem é linda?

A vozinha de Liesel os despertou, ela ainda estava ali.

- Você é linda, mein schatz.

***

Acordou e teve medo de que tudo não tivesse passado de um sonho, precisou abrir os olhos para ter certeza de que não estava mais no alojamento do major em Auschwitz.

Espreguiçou-se lentamente, a gravidez lhe deixava sonolenta, havia sentido com mais intensidade no começo, mas ainda estava dormindo mais do que de costume.

Foi até o banheiro da suíte, se aprumou, lavou o rosto, penteou os cabelos, tentou diminuir os amassados do vestido esticando-o com as mãos.

Quando acabou, ocupou-se de arrumar a cama, deixando o bonito quarto tão impecavelmente organizado quanto estava antes de sua chegada.

Cuidadosamente desceu as escadas segurando firme no corredor. Ouviu vozes alegres vindas da cozinha, reconheceu a do major, da mulher que ele chamava de Nana, e de uma menina. Era Liesel. Era a hora do encontro.

- Anne! – exclamou Heinrich ao vê-la parada na porta – Já acordou...

- Sim...

- Venha conhecer minha filha.

Tomou-a pela mão e a levou para perto do cadeirão onde a menina a observava piscando os grandes olhos azuis-violeta.

- Olá Liesel. Como vai?

- Oi. – disse ela, estava admirada – Wie Sie es nennen?

- Anne, meu nome é Anne.

- Ela é bonita, papa.

- É sim, mein schatz.

A cigana corou, afagou os cabelos loiros e lisos de Liesel, sorriu para a menina, tinha vontade de apertá-la, de a pegar no colo.

- O que é isso? – perguntou ela tocando em sua barriga.

- É um bebezinho.

- Ein baby?

- Sim um bebê, mein schatz. E agora pare de fazer tantas perguntas.

Liesel fez beicinho ao ser interrompida pelo pai, gostara da moça bonita com o bebezinho na barriga, teria ela engolido o bebê para ele ir parar lá dentro?

- Vocês devem comer. – decidiu Valkyrie, até então muda.

A senhora colocou a comida ali mesmo na mesa da cozinha, pratos para Anne e Heinrich, talheres e copos com suco de morango.

- Comam, comam, estão de jejum há muito tempo.

Os dois praticamente ajoelharam e rezaram após colocarem os primeiros bocados de comida na boca, os dotes culinários de Nana faziam com que a comida preparada em Auschwitz parecesse lavagem para porcos.

- Está maravilhoso Nana.

Valkyrie sorriu para Heinrich, logo voltando-se para Anne.

- O que você achou querida?

- Está tudo muito gostoso. A senhora tem mãos de fada.

A governanta sorriu mais uma vez, as bochechas ficaram mais rosadas do que nunca, pegou Liesel no colo, tirando-a do cadeirão.

- Obrigada querida. – agradeceu ela – Comam em paz, vou levar Liesel para brincar na sala.

- Nein, eu quero ficar...

De nada adiantou o protesto da menina que foi retirada da cozinha, levada nos braços da velha babá.

- Dormiu bem? – indagou Heinrich olhando para Anne profundamente.

Ela fez que sim, era estranho falar com ele depois da declaração de amor, simplesmente esquisito.

- Nana já sabia de você, eu contei nas vezes em que vim.

- Mesmo?

- Sim, ela ficou feliz por você ter vindo, vai cuidar de você.

- O que ela é sua?

- Foi minha babá, é a única mãe que conheci, e uma espécie de avó para Liesel.

- É muito gentil.

- É sim, e terá prazer em te ajudar nesse momento delicado.

Anne franziu as sobrancelhas, não eram lá muito compreensíveis as atitudes do major, ao saber da gravidez ficara possesso, esbravejara, e agora estava cheio de cuidados.

- O senhor vai ficar aqui?

- Só por duas semanas, depois volto para Auschwitz.

Arrepiou-se ao ouvir aquele nome, ainda não conseguia acreditar que tinha escapado sem problemas.

- Liesel é muito esperta – disse mudando de assunto – E bem mais bonita do que na foto.

- Ela gostou de você.

- E eu gostei muito dela.

Heinrich sorriu satisfeito, talvez a família de seus sonhos não fosse assim tão inalcançável.

Notas finais
Finalmente Anne conheceu Liesel, e as duas se deram super bem. Será que isso já estava escrito no destino delas?
Heinrich está bem entusiasmado, parece que sua família perfeita não está assim tão longe, resta saber se será assim tão fácil...