Bem Vinda Ao Campo
27 Covil de Conspiradores
As duas meninas de Veltheim brincavam juntas no tapete da sala, empatia instantânea e absoluta.
Ele e Nana as observavam com sorriso, alegres por constatar que estavam se dando tão bem.
– Papa não sabe brincar direito. – reclamou Liesel com a boneca nas mãos – Você sabe...
Uma sombra de riso se formou nos lábios de Anne, estava tão contente por estar ali com Liesel que nem percebeu quando o major e a babá deixaram a sala.
Foram para a cozinha, e ao entrarem fecharam a porta, era o momento de conversar e pôr tudo em pratos limpos.
– Agora em conte tudo, mein kind.
Heinrich suspirou, puxou uma cadeira para que Valkyrie se sentasse, e sentou-se à sua frente.
– Sabe como foi difícil ter Liesel, não sabe?
– Sim, foram precisos dez anos para que Gretel engravidasse.
– Sempre achei que o problema fosse comigo Nana, mas engravidei Anne nas primeiras noites, mal pude acreditar em tamanha ironia.
– Talvez não tenha sido ironia. – falou Valkyrie depois de um longo suspiro – Já pensou que pode ter sido um plano de Deus?
Não havia pensado, e sinceramente não achava que aquele era o momento para pensar naquilo.
– Ela me escondeu a gravidez por seis meses, e por dois desses meses contou com a ajuda de Rudolph para me enganar.
Impossível evitar um leve amargor na voz ao falar daquilo, ainda sentia ciúmes sempre que tocava no assunto.
– Anne deve ter tido seus motivos.
Ainda não tinha mencionado à Nana a explosão de fúria que descarregara sobre Anne e Rudolph ao descobrir a mentira, mas era como se ela já soubesse.
– Eu não vou mentir e dizer que teria ficado tranquilo ao receber a notícia, no entanto, certamente eu teria ficado muito menos bravo se não tivesse sido feito de tolo.
– Você brigou com ela mein kind?
Era uma pergunta, mas soava como uma acusação.
– Sim, gritei, briguei com ela. – disse Heinrich – Me arrependo, mas na hora não pude evitar.
– Não é certo brigar com uma mulher grávida.
– Eu sei Nana, depois me senti muito mal, mas tive tanta raiva e medo.
– Medo?
– Sim, medo, não sabia o que fazer com ela e com a criança, pensei em todas as coisas ruins que vi no Bloco 10, tive medo de que acontecesse com eles. – explicou ele muito rapidamente, em um único fôlego – E tive ciúmes por Rudolph ter ficado sabendo antes de mim, eu sou o pai, deveria ter sido o primeiro a saber.
Valkyrie balançou a cabeça negativamente diante daquela infantilidade, ainda que sendo muito amigos, sempre houvera uma pequena rixa entre Heinrich e Rudolph, talvez devido ao fato de serem tão diferentes um do outro.
– A moça teve os motivos dela, você deveria ter compreendido ainda que tivesse os seus motivos para ficar bravo.
Não disse nada, sabia que ela estava certa, não tinha o direito de contestar.
– Agradeça à Deus pela chance que está tendo para se redimir, seja um bom pai para essa criança.
– É o meu maior desejo Nana, tudo o que eu quero é ser o melhor pai possível para essa criança, e um bom marido para Anne...
– Uma coisa de cada vez. – interrompeu ela enquanto se levantava – Uma coisa de cada vez.
Voltou para a sala, deixando-o sozinho na cozinha, à sós com seus pensamentos confusos.
***
O resto da tarde passou tão agradavelmente que Anne mal percebeu, Liesel lhe tomou toda a atenção, ficando ao seu lado todo o tempo.
Era divertida e muito inteligente, lhe contava um monte de coisas, perguntava outras tantas, à cada instante sugeria uma brincadeira diferente.
E assim foi até a hora do jantar, quando a menina se aquietou, já entrando em batalha contra o sono.
– A comida está ótima novamente. – elogiou Anne – A senhora cozinha muito bem.
– Agradeço mais uma vez, querida, e não me chame de senhora, me chame de Valkyrie.
A cigana sorriu, aquela mulher era como o médico, muito simpática, fácil de se gostar.
– Como a senhora quiser... digo, como quiser Valkyrie.
– Valkyrie. – imitou Liesel.
As duas mulheres riram, e a menina ficou sem entender, não sabia que era ela o motivo do riso.
– Onde está o papa?
– Seu pai saiu para visitar uns amigos, não vai jantar conosco hoje.
O brilho nos olhos de Liesel se apagou ao ouvir a frase da babá, como o pai poderia ter saído e a deixado ali?
Chorou com todas as forças, ficando imediatamente vermelha. O som era tão alto e agudo que doía os ouvidos.
– Ora vamos querida, seu pai voltará logo, não chore.
Liesel ignorou Valkyrie completamente, preferindo continuar chorando profusa e continuamente.
– Papa, ich will mein papa! – exigiu ela – Papa!
Anne se levantou e foi até a menina, segurou suas mãozinhas, e inclinou-se até estar com os olhos na altura dos dela.
– Enquanto seu papa não vem, posso lhe contar uma história?
Atraída pelos olhos vivos e mágicos daquela moça, tão bonita e de cabelos tão negros, Liesel parou de chorar.
– Die geschichte? – indagou curiosa, quase sorrindo.
– A história de uma menininha que não dormia.
– Porque não dormia?
– Te conto no seu quarto, vamos?
A pequena concordou animada, e assim que Valkyrie a tirou do cadeirão ela saiu correndo escada acima.
– Você foi muito boa com ela, Anne.
– Obrigada, cuidei de crianças por algum tempo, no fim elas só precisam de uma distração...
***
Heinrich não podia dizer que os homens que fora procurar eram seus amigos, nem se gostaria que fossem, só havia ido até lá porque Rudolph o convencera e considerando tudo o que o amigo havia feito estava lhe devendo uma.
Sentindo-se completamente estranho, bateu a porta da casa de Friedrich Olbricht¹, um covil de conspiradores.
– Major Von Veltheim! – exclamou o surpreso general no batente – O que faz aqui?
– Rudolph Krämer me disse para vir.
Friedrich respirou aliviado, nunca poderia ter imaginado Heinrich Von Veltheim em uma reunião da Resistência Alemã. Ao vê-lo parado na porta concluiu que seriam delatados à Gestapo, mas se estava ali por recomendação de Rudolph, tudo estava bem.
– Então seja bem vindo major...
Com um aceno de Olbricht foi convidado a entrar, o fez ainda que estivesse profundamente desconfortável.
Notas finais
E onde Heinrich chegará se envolvendo nos planos dos homens?
--X--
Friedrich Olbricht - Foi general e um dos oficiais envolvidos no Atentado de 20 de julho de 1944, na Alemanha.
De 1941 e 1942, o General Olbricht desenvolveu um audacioso plano, a Operação Valquíria com a proposta de acabar com conflitos internos, mas na verdade a meta era outra, um golpe de Estado.
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