Na cozinha a mesa rapidamente foi cheia de comida, salsichas, pães, ovos, suco de morango, leite, queijos, e bolo.

- É triste ter toda essa fartura um dia e depois voltar ao básico – gracejou Rudolph – Como não sentir falta da sua comida Frau¹ Weber?

A senhora sorriu, colocou uma caneca grande de metal na frente de Anne, já sentada à mesa.

- Obrigada.

- O que é isso? – indagou Heinrich apontando para a caneca.

- Cerveja preta. – explicou Nana – É bom para dar leite.

- Ora, isso é só um costume tolo e até perigoso. Mulheres grávidas não devem tomar bebida alcoólica.

- Rudolph, você pode ter estudado e se formado médico, mas sou mais velha que você e já vi e vivi muito, assim é na Bavária, a cerveja preta ajuda a dar mais leite sim!

Acharam graça da zanga de Valkyrie, com os braços roliços cruzados sobre o busto farto.

- Eu sempre ouvi o mesmo, cerveja preta dá leite. – concordou Anne bebendo da caneca.

- Pra que leite? – indagou Liesel confusa.

- Para o bebezinho.

- O da barriga?

- Sim querida, ele precisa de leite.

A menina achou estranha aquela idéia. Como iriam fazer para tirar o leite de Anne e dar para o bebezinho?

Enquanto a pequena nutria dúvidas, os adultos trataram de comer, porque independente da refeição, tudo o que Valkyrie preparava era bom.

***

Anne estava sentada na borda de sua cama. Rudolph a examinava, o estetoscópio colado a barriga dela, Heinrich observava parado na porta.

- Como tem se sentido?

- Bem, é difícil andar, fico cansada por causa do peso, mas não tenho sentido dores nem outros desconfortos.

- Ótimo, ótimo.

- Acho que falta muito pouco doutor.

- E está certa em pensar assim, a criança já virou, o parto pode ser a qualquer momento.

- Isso está certo? – indagou Heinrich preocupado.

- Sim está, Anne conseguiu sustentar a gravidez até o fim, o bebê já está formado, pode nascer agora sem complicações.

Respirou aliviado, ao menos o filho não nasceria prematuro. Sua única preocupação era a velha e persistente de antes, o parto.

- Bem, é isso, agora resta esperar.- concluiu o médico com um sorriso enquanto guardava o estetoscópio – Vou deixá-los a sós, conversem.

Saiu, e ao passar por Heinrich na porta deu uma piscadela.

***

Difíceis foram os primeiros minutos após a partida de Rudolph, não estavam seguros de como ou por onde iniciar uma conversa.

- Fico muito feliz que esteja bem.

- Obrigada, eu também fico feliz.

- Mal posso crer que cheguei à tempo, tive medo de perder esse momento.

- Ainda não sei porque isso faz tanta diferença para você.

Ficou calado, entendia as restrições de Anne, mas ainda assim sentia-se triste pelo fato de ela não se dar conta do quanto a amava, e de como era importante para ele estar ao seu lado durante o parto, precisava estar lá.

- Me preocupo com você, com nosso filho, quero estar perto para ter certeza de que tudo vai ficar bem.

Anne sorriu, era cada vez mais difícil manter-se longe do major, por mais errado e inacreditável que isso parecesse, ele o melhor homem do mundo.

- Tem medo de acontecer novamente?

Sua voz foi suave, a pergunta delicada, mas cortou o coração de Veltheim como uma faca.

Era óbvio que a morte de Gretel lhe afetara mesmo que nunca a tivesse amado, e pensar no mesmo ocorrendo com Anne o fazia sufocar.

- Muito... – confessou sentando-se ao seu lado na cama, segurou suas pequenas mãos.

- Eu também tenho medo, mas penso que Deus olha por mim, e me reconforto.

Abraçou-a, era engraçado envolve-la com aquela barriga grande e pontuda, mas incrivelmente gostoso.

- Você é a mulher mais incrível que já conheci Anne.

A cigana sorriu, afagou o rosto do major delicadamente.

- Há algum tempo atrás o senhor me disse que eu era uma menina desesperada...

A vontade que tinha de beijá-la foi canalizada para um suave encostar de lábios na testa morena dela.

- Cresceu bastante de lá para cá.

- Principalmente na barriga. – brincou ela tocando o ventre inchado.

Riram, e Heinrich deu-se conta de que nunca havia afagado a barriga de Anne. Lembrava-se das inúmeras vezes em que tentara fazer o mesmo quando Gretel estava grávida, lembrou-se de que ela o repelia dizendo que seu perfume causava náuseas ou que estava se sentindo péssima e gorda.

- Eu posso? – indagou, os dedos à poucos centímetros da barriga.

Por breves segundos Anne não soube o que responder, entretanto o olhar dele a convenceu de que não deixar seria um verdadeiro sacrilégio.

- Pode.

Com um enorme sorriso, Heinrich acariciou levemente, as duas mãos envolvendo a grande bola em que se transformara o abdômen da cigana.

- Não disse, mas você ficou linda com a gravidez meine liebe.

E naquele instante percebeu que era a hora de dizer tudo o que escondera, por todo aquele tempo.

- Vai ser uma mãe maravilhosa, essa criança tem muita sorte.

O bebê agitou-se levemente, já não havia mais espaço para chutes ou muita movimentação.

- Eu gostaria muito que Liesel pudesse ter essa sorte também.

Fitaram-se longamente, era algo em que ambos pensaram, mas não tiveram nunca coragem de mencionar.

Anne não conseguia mais pensar em seu plano inicial de fugir com o filho da Alemanha assim que fosse possível, sentia que abandonar Liesel seria o mesmo que deixar para trás aquele bebê que trazia dentro de si.

Em seus melhores sonhos Heinrich idealizara Anne como uma mãe para sua filha, ver o modo como as duas se entendiam concretizava em sua cabeça a idéia de que isso seria perfeito.

- Eu gostaria disso major, se fosse possível eu aceitaria sem pensar duas vezes.

- É possível, eu estou providenciando para que se torne possível.

Beijou a bochecha de Veltheim, sentia que ele estava muito quente, quase febril. Sentia que amá-lo era cada vez mais fácil, e que cada minuto à seu lado tornava-o mais irresistível.

- Não sei mais como te evitar. – revelou ela, um sorriso tímido.

Heinrich teve a certeza de que seu coração parou e em seguida explodiu de alegria, estava pronto para fazer com que ela desistisse definitivamente de evitá-lo quando um sonoro sinal dissipou toda a sua felicidade.

- O que é isso? – perguntou a cigana preocupada.

Veltheim estava branco como cera, parecia não ter mais sangue nas veias.

- Um alarme de ataque aéreo. – disse num sussurro mortificado – É um bombardeio, temos que ir para o porão.

Notas finais
E agora? '-'
--X--
1. Frau - mulher, indivíduo adulto do sexo feminino, senhora.