Bem Vinda Ao Campo

6 Notícias da Guerra


Anne fitou o vestido sobre a cama, com nojo, tinha vontade de rasgá-lo, pô-lo fora de algum jeito.

Como Veltheim tinha a coragem de lhe dar uma coisa daquelas? Sabe-se lá quanto tinha custado, era de seda, seda perolada!

Nunca tivera um vestido daqueles, nem mesmo próximo disso. Entretanto vira muitos como aqueles nos armários das senhoras ricas, cujo os filhos lhe eram confiados. Mulheres importantes, esposas de banqueiros, politos, militares...

Pegou-o como se segurasse alguma coisa suja. Era uma coisa suja, manchada de intenções imundas, promiscuas. Deixou-o sobre a cadeira.

Não seria prostituta de um nazista. Não seria prostituta e amante de um nazista casado.

Como se enganara tanto com aquele homem? Não era nada superior a Engels, era muito pior, o capitão pelo menos deixava seus intentos bem claros, não os ficava disfarçando de gentilezas, de cristandade.

O major desrespeitava então duas das coisas mais importantes para ela. O casamento e a religião.

Anne era cigana, e para ela o casamento era um dos eventos mais importantes que se poderia acontecer. E era católica, devotava sua fé em Santa Sara Kali, a padroeira dos ciganos, e em Jesus Cristo, o filho de Deus.

Estava decepcionada, e ainda sentia aquela pressão no peito, aquela sensação desconfortável que tivera ao perceber a aliança no dedo de Veltheim.

E a mulher dele? Liesel, como se sentiria se soubesse que o marido recolhera uma cigana, que lhe dera presentes, um vestido caro.

Como seria ela, Liesel? Anne não conseguia mais parar de pensar na mulher desconhecida. Certamente era ariana, deveria ser loira, alta, bonita. Deveria haver uma foto!

Vasculhou o armário, não encontrou nada, tentou abrir as gavetas da escrivaninha, mas estavam trancadas. Voltou-se então para os criados-mudos.

O da esquerda continha um bíblia, que causou em Anne ainda mais revolta pelo desrespeito do major à religião. No segundo estava o que ela procurava.

Era linda, nem parecia real, era como um anjo. O rosto perfeito, o olhar indulgente, a expressão cândida.

A mão da jovem tremia segurando a foto ligeiramente velha e amassada. Seus olhos aguaram fitando o rosto da mulher. Recolocou a esposa do major na gaveta.

- Ela é tão bonita...

Deitou-se na cama, esgotada. De um lado a Bíblia, do outro Liesel, ambas “traídas” por Veltheim.

***

Estava feliz, Liesel estava ainda mais bonita do que quando a vira pela última vez. Havia lhe enchido de beijos, abraços. Como a amava.

Rememorava seus olhos azuis, seus cabelos loiros feito ouro, o sorriso. Lhe fazia bem pensar nela.

Poderia ser perfeito não fosse suas preocupações com Anne, ainda não entendia porque ela mudara de temperamento tão depressa. Como saber?

Talvez tivesse se sentido ofendida com o vestido, Heinrich pensara nessa possibilidade. Imaginou que ela pudesse se sentir comprada, sentir que ele estava lhe presenteando para cobrar mais tarde. Mesmo assim comprou e lhe deu o vestido.

Deveria ser mais cuidadoso se quisesse conquistar a confiança dela, era uma moça complicada, de emoções a flor da pele, espírito indômito. Tão cigana.

Dormiu sossegado, Anne e Liesel em seus pensamentos, juntas.

***

Longe dali, rendiam-se as últimas tropas alemães, derrotadas na batalha de Stalingrado¹, a mais sangrenta de todas, o ponto decisivo, o princípio da virada e da queda do Terceiro Reich.

Notas finais
Esse capítulo ficou super curtinho, é mais uma continuação do anterior e um pequeno panorama da guerra. Por isso, o sétimo capitulo será postado em seguida.
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1. Stalingrado - Batalha de Stalingrado foi uma operação militar conduzida pelos alemães e seus aliados contra as forças russas pela posse da cidade de Stalingrado entre 17 de julho de 1942 e 2 de fevereiro de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial.A batalha foi o ponto de virada na frente leste da guerra, marcando o limite da expansão alemã no território soviético e é considerada a maior e mais sangrenta batalha de toda a História, causando a morte e ferimentos em cerca de dois milhões de soldados e civis.