Bem Vinda Ao Campo
50 Milagre de Natal
Notas iniciais
Rudolph o enganou ao dizer que chegariam de surpresa. A surpresa havia sido preparada para ele.
Assim que chegou na sala deparou-se com uma bonita decoração natalina em vermelho e dourado e toda a família reunida.
– Papa – gritou Liesel pulando em seu colo.
– Senti muito a sua falta mein schatz.
Beijou o rosto da menina e afagou suas madeixas louras enquanto a colocava de volta no chão.
– Vai estragar meu “pentenado” papa!
Todos riram não só do erro fonético como também da imensa vaidade daquela pequena mocinha.
E então Heinrich fitou Anne, e se perdeu naqueles lindos olhos de gelo.
– Mein liebe...
Sua voz saiu rouca, e ele adiantou-se para beijá-la. Anne tinha lábios incrivelmente doces.
– Senti sua falta. – disse ela sorrindo.
Mil anos se passariam e aquele sorriso sempre devastaria Heinrich como um intenso furacão.
Ainda com o riso dançando nos lábios, Anne ofereceu Wilhelm para que Heinrich pudesse segurá-lo.
Num misto de contentamento e surpresa, acalentou o menino que crescera e engordara bastante. Estava começando a ficar pesado.
– E você, sentiu minha falta pequeno?
Wilhelm o fitava com os olhos muito abertos. Já não estavam mais cinzentos como antes, haviam clareado e ao que parecia iriam ser como os de Anne.
Sentiu um leve puxão no paletó e ao olhar para baixo percebeu Liesel segurando a barra de tecido.
– Papa, o Wilhy não fala – explicou ela – mas ele também sentiu saudades.
Agachou-se e puxou a filha para um abraço. Como não agradecer a Deus? Seus filhos eram perfeitos.
– A Nana também sentiu saudades.
Valkyrie sorria-lhe. O ato do riso diminuía-lhe os olhos que quase fechavam e aumentava suas rosadas bochechas que saltavam redondas.
– Senti saudades de você também Nana.
– Comeu os biscoitos mein kind?
– Comi todos eles.
***
Aquele ano a ceia estava deveras inusitada. O número de presentes dobrara, antes era apenas Valkyrie, Heinrich e Liesel, agora somava-se Rudolph, Anne e Wilhelm.
Para diferenciar ainda mais aquele Natal dos outros, estava todos esperando o momento da ceia no porão.
A idéia foi de Anne que achou melhor assim para evitar que um possível bombardeio interrompesse o jantar.
Ela e Valkyrie fizeram uma faxina completa no abrigo e improvisaram uma mesa e cadeiras, isso além de terem decorado com fitas, tecidos e velas.
– Como puderam pensar nisso? – indagou Heinrich embasbacado.
– Nos acostumamos com as bombas. É mais como se fosse uma tempestade...
Não tinha certeza se deveria ficar orgulhoso pelo fato de Anne ser tão forte e positiva, ou ficar triste por não poder livrá-la daquela situação.
– Estou com fome... – choramingou Liesel olhando para a comida sobre a mesa.
– Já vamos comer. – acalmou-lhe Anne.
– Mas antes vamos fazer uma oração.
Todos concordaram com Heinrich, abaixando a cabeça e dando as mãos.
– Obrigado senhor Deus por permitir que estejamos todos juntos aqui nessa noite tão especial. Obrigado por permitir que estejamos em família para comemorar o nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo. – disse ele solene – Obrigado pelo alimento que compartilharemos, e obrigado pelo teu infinito amor que é o que nos mantém vivos.
– Amém. – disseram todos em coro.
E puseram-se a atacar a maravilhosa ceia que desprendia o incrível perfume dos temperos usados no preparo.
***
Àquela noite as sirenes de alerta não ressonaram, não houve bombardeios, era um verdadeiro milagre de natal.
Todos foram se deitar com a confortante sensação de barriga cheia, alegria e paz de espírito.
Rudolph pensava em sua correspondente, Kristina, antes de fechar os olhos e cair em um sossegado sono. Lembravasse dos olhos de ouro que não via há algum tempo, e do sorriso angelical que ela tinha.
Valkyrie sorria adormecida. Aquele havia sido um de seus natais mais felizes. Seu menino estava tão alegre! Mal podia se lembrar da última vez em que vira Heinrich sorrindo daquele jeito, mas provavelmente havia sido na noite em que ganhara o apelido de “Kleinen Booten”.
Liesel que há muito já dormia também tinha ares de riso repousando na face. Ainda era muito pequena e tivera realmente poucos natais, mas aquele fora maravilhoso. Ganhara um brüderlein e uma fada de cabelos negros que lhe causava vontade de dizer a palavra mãe ainda que não entendesse muito o seu significado.
Wilhelm pequenino como era não compreendia o encanto daquela noite, não sabia o que era o Natal, mas ainda assim podia sentir a áurea de amor e compaixão da data. Não chorou, estava plácido como o menino Jesus na manjedoura.
Deitados na mesma cama, Heinrich aconchegava Anne em seu peito assim como era no princípio. Aspirava o perfume de seus cabelos.
– Obrigado por tudo meine liebe...
– Por tudo o que?
– Por tudo o que me deu, por ter entrado em minha vida, por ter me feito viver outra vez, por ser minha, por me dar um filho, por amar a minha filha. – suspirou e a apertou contra si – Obrigado.
Anne riu seu riso fácil e doce, sentou-se e beijou-o no rosto.
– Eu agradeço também Heinrich. Você pode até pensar que não, mas se não tivesse interferido, e entrado no meu caminho, eu não estaria viva e não teria tido Wilhelm e encontrado Liesel. Você virou a minha sorte.
O major não acreditava em sorte, mas se assim era o modo como Anne definia os desígnios de Deus, estava tudo bem.
– Quero fazer uma coisa meine liebe. Quero te dar o seu presente.
A chama da vela acesa ao lado da cama tremulava, a cera já estava quase no fim. Heinrich levantou-se e procurou algo dentro do criado-mudo. Pegou muito rapidamente antes que Anne pudesse ver do que se tratava.
– Preciso me livrar disso primeiro...
Tirou a aliança com o nome de Gretel do dedo. Levara aquela coisa consigo por tantos anos que ela marcara sua carne.
Abriu a caixinha que tirara de dentro da gaveta. Era um par de alianças douradas, muito semelhante àquela da qual ele acabara de se desfazer.
– Já tem algum tempo que penso em te dar isso. – explicou sorrindo – Sei que não é como casar de verdade, mas é o máximo possível no momento, simboliza o que eu quero para nós.
Anne mordia o lábio inferior quase não crendo no que via. Não sabia se estava contente ou preocupada.
– Isso pode ser perigoso, podem ver que trocou de aliança e...
– Anne não busque problemas. Aceite o que eu posso te dar.
E ele a fitava com aqueles olhos violeta, sorria aquele sorriso magnético, segurava suas mãos delicadamente, mas com aquela pressão que não a deixava escapar.
Concordou com um menear de cabeça. Beijaram-se suaves como adolescentes ao dar o primeiro beijo, selar de bocas. Uma lágrima correu pelo rosto de Anne.
Trocaram as alianças silenciosamente. Beijaram-se mais uma vez, aconchegaram-se deitados na cama.
– Agora começa a nossa vida meine liebe. – afirmou Heinrich sussurrante.
Anne sorriu, a vela apagou.
Notas finais
Gostaram? Espero que sim! Feliz Natal, muitos presentes, e muita alegria nessa noite mágica. ;D
--X
Meninas, preciso avisar que já no próximo capítulo terá havido uma grande passagem de tempo. A nova vida mencionada pelo Heinrich já começou e se encaminhou. Espero que gostem do que estar por vir também. ;*
Fale com o autor