Notas iniciais
Uma pequena demora...
Mas aí está! Boa Leitura.

Alemanha, Berlin, 8 de janeiro de 1945

O poste da rua, envergado pelo bombardeio mais recente, iluminava o homem que andava a passos largos em direção aos portões de ferro já não tão bem cuidados quanto outrora.

Nevava finamente, e os pequenos flocos acumulavam-se nos ombros de seu sobretudo negro.

A alta figura parou diante da estrutura forjada em metal. Em alguns pontos era possível perceber leves ferrugens.

Quando abriu os portões as dobradiças rangeram e ele fez uma careta de desaprovação. Não gostava de ver as coisas no estado em que se encontravam.

Encobertos pela neve, os arbustos antes perfeitamente aparados estavam mortos, não recebiam cuidados há certo tempo.

Marchou pela alameda que levava à porta da frente da mansão, mas antes que pudesse chegar ao seu destino escorregou na lâmina de gelo que cobria o caminho de pedras.

– Scheiße¹! – exclamou ao cair sentado.

Logo após o palavrão, o rosto de uma gorda senhora apareceu na janela, espiando entre as cortinas.

– Mein kind! – exclamou ela desaparecendo em seguida.

O homem levantou-se espanando a neve de si. Sentia seu traseiro gelado, molhado e dolorido. Ótimo modo para chegar em casa.

Mal pode tocar na maçaneta da porta antes que ela fosse aberta revelando o largo corpo de Valkyrie.

– Entre, entre! — disse ela após lhe dar um abraço amorosamente sufocante.

Apesar de o lado de fora da casa estar malcuidado por dentro estava do mesmo modo impecável de costume. Arrumada e limpa com perfeição.

Atravessou o hall a passos rápidos, ansioso para chegar à sala de estar. Mal havia terminado de cruzar a porta quando quase caiu para trás novamente.

– PAPA! – exclamaram em coro as duas criaturinhas louras agarradas aos seus joelhos.

Liesel agora tinha quatro anos e ficava mais bonita a cada dia, estando sob os cuidados de Anne, seu cabelos não eram mais cortados ao estilo Chanel, estavam compridos, já na metade das costas, e ela havia crescido um bom bocado, já não era mais tão roliça quanto há dois anos atrás.

Wilhelm havia completado um ano há pouco, mas era grande e robusto, e considerando a diferença de idade, era pouca coisa mais baixo que a irmã mais velha. Os olhos eram idênticos aos da mãe, mas de resto era todo o pai. Já andava, e começava a se arriscar a formar pequenas frases.

– Senti saudades de vocês, pequenos! – exclamou o pai puxando as crianças para o colo.

Atravessou a sala carregando-os. Liesel era seu tesouro e Wilhelm seu orgulho. Amava-os incondicionalmente, não poderia haver amor maior...

– Heinrich. – chamou-lhe a voz, fazendo pular seu coração.

Naquele dia fazia exatos dois anos que se conheciam. Se lembrava perfeitamente daquela noite de inverno quando a encontrou esbravejando com os oficias nazistas que a seguravam no chão. Recordava como os olhos dela lampejaram ao encontrar os seus.

Estava suja, com a roupa rasgada e os cabelos embaraçados balançando no vento, e ainda assim, mesmo naquele momento, Anne era a moça mais bonita que já vira em toda a vida.

Não era mais aquela menina cigana, havia florescido. Era agora uma mulher, já não tinha mais as bochechas cheias e infantes que antes possuía, mas seu rosto ainda continuava tão belo quanto antes, talvez até mais. O corpo não mudara, só os vestidos que se tornaram mais sóbrios. Não era mais a mesma, mas ainda era a moça mais bonita que Heinrich já vira em toda a vida.

– Meine liebe...

Heinrich soltou os filhos no chão e adiantou-se para sua esposa, abraçou-lhe e sentiu o mesmo que sentira naquela noite de 1943 quando segurou-lhe a mão pela primeira vez. Ela era o seu destino.

– Senti sua falta – sussurrou Anne beijando sua boca delicadamente.

– Não tanto quanto eu senti a sua.

O abraço apertou-se, Anne sussurrou algo bem baixinho em dialeto cigano. Heinrich não entendeu, mas não perguntou. Com o tempo de convivência, havia se acostumado aos mistérios de sua mulher.

– Hoje faz dois anos.

– Sim.

– Me alegro todos os dias por termos nos encontrado... – disse ela sorrindo.

Afastou-se, ainda com aquele riso maroto dançando nos lábios, era simplesmente impossível não a amar.

– Papa o que o senhor trouxe para nós? – indagou Liesel, sua vozinha ainda era aguda, mas ela não mais tropeçava ao pronunciar as palavras.

– Ora, eu não trouxe nada.

– Papa...?

Wilhelm não terminou a frase, mas seus grandes olhos azuis de gelo derretido reforçavam a expressão desolada da irmã. Como podia o pai não ter trazido nada para eles?

– Mas espere... – disse Heinrich afofando o bolso interno do sobretudo – Acho que esqueci algo aqui e...!

Tirou um embrulho, e ao fazer isso os olhos de Wilhelm e Liesel brilharam. Entregou-o as crianças, eram chocolates.

– Schokoladen! – exclamaram os pequenos.

– Só depois do jantar.

– Mama... – suplicaram em coro.

– Deixe meine liebe, é só hoje.

Anne suspirou revirando os olhos.

– Apenas um para cada, o resto só depois do jantar.

Era uma cena bastante comum, mas no caso dos Veltheim aquela pequena celebração era uma vitória. Estavam todos juntos.

***

Esperava por Anne deitado na cama. Não sabia por que, mas ela demorava-se no banheiro há minutos. Começava a ficar apreensivo com a sua demora.

– Está tudo bem meine liebe? – indagou ele preocupado.

– Sim, sim, está tudo bem. Eu já vou.

De repente Heinrich teve a sensação de que aquele momento já acontecera. Teve um déjà vu.

Anne saiu do banheiro, a longa e fina camisola branca delineava seu corpo, os cabelos negros caíam sobre os ombros, completamente soltos, manto negro.

Era como se revivessem o dia em que haviam se conhecido. Heinrich sentia-se tão impactado quanto ficara ao vê-la sair do banheiro do alojamento com o vestido azul escuro comprado no “Barracão Especial”.

– Você está linda...

– Obrigada.

E ela sorriu, sentou-se na borda da cama. Tinha algo de diferente nos olhos, um brilho que Heinrich não via há algum tempo.

– Porque me olha assim, meine liebe?

– Há algo de diferente no meu olhar?

– Sim... – murmurou ele, sua voz já estava rouca de expectativa.

Puxou Anne para perto, sentiu que ela prendeu o fôlego ao ser arrebatada, ouviu quando ela deu uma risadinha baixa.

– É realmente muito ousado da sua parte me tentar querida.

Anne riu mais uma vez. Eram engraçados aqueles jogos.

– Não estou fazendo nada...

Heinrich a apertou mais fortemente contra o corpo, queria que ela sentisse o quanto estava quente, parecia ter febre.

– Não me desafie.

– Não o estou fazendo.

Mordeu-lhe o pescoço, suave o bastante para não machucar, forte o suficiente para fazer com que a cigana se arrepiasse por inteiro.

– Tem só mais uma chance de escapar, pense bem no que vai dizer amor...

Tendo o corpo todo eletrizado por pequeninas ondas de prazer causadas pela mordida, Anne fitou o marido.

– Não pretendo escapar...

Foi a última frase dita antes que se entregassem a um beijo desenfreado, no qual puxavam-se, mordiam-se.

Como tudo o que ocorria entre eles, o sexo era inesperado, incontrolável, intenso e apaixonado.

O ato guiava-se pela personalidade dos envolvidos. Heinrich era sempre o dominante, tão forte quanto cuidadoso, dobrava a cigana e a envolvia sem esforço, e Anne era aquela coisa indefinida, aquele espírito livre que o chamava, desafiava e por fim se entregava completamente, ainda que insistisse em manter as coisas ao seu ritmo.

Braços e pernas embolavam-se, ambos estavam fervendo em desejo.

A luz da vela iluminava o corpo do major que ia e vinha sobre a cigana, ela gemia, ele mordia os lábios para não emitir som algum.

As mãos morenas de Anne corriam nas costas de Heinrich, deixando arranhões que rapidamente ficavam vermelhos.

Olhavam-se nos olhos, contato inquebrável, buscavam pela mesma coisa. Queriam ver o prazer do outro.

O de Heinrich era bastante óbvio, seus olhos baços de volúpia fechavam-se e reviram-se nas órbitas, suas bochechas estavam coradas por completo, e a expressão de seu rosto oscilava entre sorrisos de antegozo e concentração obstinada

Anne também fechava e virava os olhos, gemia, movia-se agitada sob o peso dele, exigia-o mais perto, puxava ele para si.

Terminava assim como o cúmulo do prazer mútuo, e o momento de maior intimidade que havia, eram os dois como eram, e ainda assim eram uma coisa só.

Um objetivo único e comum, a sensação partilhada, um corpo só, difuso e confuso em meio aos lençóis. Amavam-se, era só.

***

A mão de Heinrich subia e descia no braço de Anne, a aliança dourada com o nome dela brilhava em seu dedo.

– Isso não te traz uma sensação conhecida? – indagou ele.

Estavam em pé diante da janela, Anne colada ao vidro, Heinrich atrás dela, lhe abraçando.

Não fosse a janela fechada, e o fato de o major não ter um cigarro na boca, seria exatamente como costumava ser em Auschwitz.

–É estranho pensar que por pior que fosse aquele lugar, era bom...

A cigana nunca mais falara o nome do campo de concentração, tinha sentimentos muito ambíguos a respeito do local, mas sempre que pensava nele separadamente, apenas como campo de tortura e extermínio e não como o lugar em que conhecera o major, arrepiava-se por completo.

Veltheim abraçou sua mulher, concordava com ela. Apesar de tudo, Auschwitz fora a melhor coisa que lhes acontecera.

– Amanhã tenho que ir a uma reunião da Resistência. – suspirou cansado – Gostaria de ter a tarde livre para passar com vocês.

Anne virou-se no abraço ficando de frente para Heinrich. Selou-lhe os lábios com carinho.

– Depois, você terá muito tempo livre para ficar conosco.

E sempre que falava aquele “depois” referia-se ao fim da guerra. Não cobrava do marido nada que estivesse fora de seu alcance. Sabia o quanto ele se esforçava e arriscava para acabar com o nazismo, não se achava no direito de pedir por mais atenção.

– As crianças estão crescendo rápido demais, perco muito disso... – lamentou-se o major.

Anne sorriu-lhe plácida, aquela velha expressão de indulgência. Seu rosto daria um belo quadro.

– O importante é que quando acabar, nossos pequenos terão uma chance.

Não disse mais nada, puxou-o para a cama e assoprou a vela. Era hora de dormir.

Notas finais
Bastante tempo se passou, Liesel e Wilhelm cresceram, Anne amadureceu, e parece que o relacionamento dela com Heinrich também. Mas mesmo assim, a paixão ainda é a mesma... ;D
Espero que tenham gostado, daqui para frente começa o "pega pra capar" porque é o último ano da Guerra. Preparem-se para novas emoções.
Beijos para todas vocês que continuam acompanhando a história suas LINDAS. ;*
--X--
1. Scheiße - Merda