Bem Vinda Ao Campo

59 Inspirações Angelicais


Notas iniciais
Grande demora, explico lá embaixo.
Boa leitura!

Raios de sol de fim de tarde se infiltravam tímidos pelos rombos que antes, costumavam ser as paredes e os vitrais da Catedral de Berlin¹.

Sentados no último banco da fileira direita da grande nave, estavam os únicos seres viventes do local.

Conversavam em um tom muito baixo, de modo que eles próprios mal se escutavam, mas o teto alto da igreja fazia com que suas vozes ecoassem tal qual sussurros inteligíveis.

Por conta de suas expressões e o modo como os cenhos eram frequentemente franzidos o assunto parecia ser de grave importância.

O homem de cabelos castanhos falava algo que deixava assombrada a moça de tranças louras.

– Isso é terrível Rudolph...

– Eu sei mein engel, eu sei. Mas não é pior que a situação de Heinrich.

E então a jovem inclinou a cabeça em sinal de desentendimento.

– Porque diz isso?

Os olhos verdes do homem examinaram-na longamente, esquadrinhando cada parte de seu rosto.

– Seria capaz de guardar um grande segredo?

Apressadamente ela fez que sim com a cabeça. Todo aquele suspense estava lhe deixando louca.

– Venha comigo... – pediu Rudolph com a mão estendida.

Desviando dos destroços no chão caminharam em direção ao altar. Pedaços de madeira explodida e chamuscada entulhavam-se por toda a parte.

A verdade é que a Berliner Dom havia perdido grande parte de seu esplendor e estrutura física depois dos bombardeios.

Contornaram o lustre principal destroçado no piso, e apesar de estar quase que completamente destruída, a igreja ainda resguardava algo de mágico em si.

Atravessaram então o altar e trancaram-se dentro da sala da sacristia. E ali se encararam por segundos que pareciam intermináveis.

– Lembra-se que Heinrich é viúvo e tem uma filha?

– Sim me lembro.

– Bem, ele não é mais viúvo e não tem só uma filha...

– Ele se casou? Com quem? Você não falou nada sobre isso.

– Não falei porque não podia falar mein engel, mas a resposta é sim, ele se casou e teve um filho, um menino.

– Quando? Com quem?

– Heinrich... ele se envolveu amorosamente como uma prisioneira cigana em Auschwitz, e, decorrente desse envolvimento a moça ficou grávida.

– Oh meu Deus! E então?

– Bem, pode imaginar o quanto é complicada essa situação não?

– Sim, imagino.

– Bem, então compreende que foi muito difícil retirá-la do campo?

Kristina acenou afirmativamente com a cabeça.

– Forjamos a morte dela e... ora, isso é muito para agora, te conto a história toda mais tarde. O importante é que ela conseguiu chegar a salvo a Berlin.

– E a criança?

– Nasceu no porão da casa dele durante um bombardeio, vai fazer dois anos em novembro.

– E está bem?

– Sim, muito saudável.

– E a mãe?

– Bem também.

– Rudolph, ele já estavam lá quando eu te conheci, não estavam?

– Sim, e Anne sabe sobre você.

– Anne, é o nome da esposa do major?

– Sim é.

Os olhos de Kristina vaguearam pela sala, e quando voltaram para Rudolph estavam carregados.

– Onde eles irão ficar quando os aliados chegarem?

– É esse todo o problema. Heinrich pretendia escondê-los na casa do padre Drechsler, mas como te disse há pouco, ele foi executado por traição...

Estava arrasado por não ter conseguido arranjar nenhuma solução para ajudar seu melhor amigo.

– Ora, que cara é essa Rudolph? Ao acaso já tomaram Berlin e levaram a família do major embora?

O médico espantou-se com o súbito entusiasmo da menina que tinha um enorme sorriso no rosto.

– Sei de um lugar em que jamais procurariam a família de um major nazista.

– Onde?

– Na minha casa!

***

O dia transcorreu como se a entrada atípica de Heinrich sequer tivesse acontecido. Ficaram na sala de estar como de costume, as crianças brincaram no tapete e buscaram a atenção do pai. Anne e Nana lhes contaram amenidades do dia a dia, e com os olhos arregalados de espanto, escutaram sobre os avanços da guerra.

Heinrich contou-lhes sobre o modo como os russos estavam cada vez mais próximos de Auschwitz. Falou sobre a evacuação privada do general Löhnhoff, onde só seus escolhidos eram liberados para voltar para casa.

Por instinto ou delicadeza, nenhuma das duas questionou o que deveria ser feito a respeito. Entendiam que como homem, provavelmente Heinrich se sentiria ofendido se pusessem em dúvida sua capacidade de cuidar da família.

Já era noite e mais uma vez o major Von Veltheim, sentado na cama, esperava pela esposa que se demorava no banheiro.

Daquela vez ela não saiu com sorrisos ou olhares convidativos. Estava muito séria, e ainda assim tinha uma expressão de profunda indulgência.

Sentou-se ao seu lado calada, e igualmente muda acariciou-lhe a face com extrema delicadeza, carinho de mãe.

– Diga-me querido, o que tanto lhe perturba? – indagou após longos momentos de contemplação.

Respirou fundo, esperava por aquela pergunta, ensaiara várias vezes a resposta, e ainda assim ela continuava parecendo tão horrível quanto era.

Meine liebe, as coisas são muito piores do que parecem.

– Porque diz isso?

– Porque o plano que eu possuía para manter você, Nana e as crianças a salvo foi arruinado.

– Como? E porque?

Apesar das perguntas seguidas, o tom de Anne era gentil, não o estava julgando e era só por isso que Heinrich conseguia prosseguir.

– Eu pretendia esconder vocês na casa do padre Drechsler, mas hoje quando fui procurá-lo na igreja, o novo pároco me disse que ele foi executado...

– Executado?

– Sim, por traição...

E então a cigana compreendeu o seriedade do momento e o estado de miséria em que Heinrich estava quando chegara em casa.

– Você entende que não foi sua culpa, não?

– Ora meine liebe, de certo modo...

– Ele se envolveu porque era um bom homem, e no mais, o padre Drechsler sabia bem onde estava se metendo.

Suspirou, por mais que sentisse pela morte do confessor, suas preocupações eram maiores, não havia tempo para se aprofundar no assunto.

– Pode ser, mas a questão é que... – e Heinrich precisou fazer uma pausa – Não tenho onde escondê-los.

Esperava por cobranças, imaginara que Anne exigiria que encontrasse uma solução, que ela lhe esfregaria cara a sua responsabilidade de homem de dar um jeito.

Na penumbra do quarto, os olhos da cigana se iluminaram. E em seguida o gelo dos mesmos se derreteu.

– Vai ficar aqui conosco?

– Sim, vou. – respondeu ele, mesmo que a pergunta parecesse ser totalmente sem sentido – Ficarei até o final.

Ao que uma sombra de sorriso dominou os lábios da mulher que recolheu-se em seu peito.

– Então todos ficaremos bem.

E aquela única frase varreu o desespero que invadira o coração do major. A confiança plena de Anne despertou-o, fez com que ele enxergasse que ainda restava tempo.

Notas finais
Anjos podem realmente ser ótimos provedores de soluções....

--X--

Pois bem, a demora deve-se a todas as atribulações que tenho com a faculdade. Além do trabalhos e provas, eis outra situaçãozinha perturbadora:

Tem sido bem difícil escrever.

Sei que a história ficou meio abandonada e isso é terrível, mas vou tentar melhorar toda essa situação.

Obrigada a quem permanece desde o princípio da fic, obrigada a quem comenta, e a quem não comenta, mas lê, agradeço mesmo assim.

--X--

1. Catedral de Berlin - é o nome coloquial para a Igreja Evangélica (ou seja protestante), em Berlim, Alemanha. Foi construída entre 1895 e 1905. Se encontra na Ilha dos Museus e é vizinha do Lustgarten e do Berliner Stadtschloss (sede do governo municipal de Berlim).