Bem Vinda Ao Campo
57 Futuro Incerto
Notas iniciais
Boa Leitura!
“Querido Rudolph,
Gostaria de ter mais para lhe falar, mas infelizmente nada de interessante ou agradável tem ocorrido.
A última novidade é que papai meteu-se em uma nova confusão, brigou com dois rapazes em um bar porque eles disseram estar animados por terem sido convocados para na fronteira, disseram estar ansiosos para matar alguns sovietes.
Por sorte ele não apanhou tanto, só alguns roxos e arranhões, mas nada que o impeça de continuar procurando por problemas.
Mamãe ficou bem triste, mas acho que ela já se acostumou a ter de lidar com as consequências da rabugice do papai.
Sobre a guerra, creio que você provavelmente saiba mais do que eu, no entanto, soube que o exercito dos americanos invadiu a cidade Darmstadt. Papai diz que em breve eles tomarão Berlin e “chutarão o traseiro de Hitler”.
Espero que isso aconteça em breve, talvez assim, possamos nos ver. Sinto saudades suas, temo que algo aconteça antes de podermos nos reencontrar.
Como já disse, eu realmente gostaria de ter mais para lhe contar, mas infelizmente é só isso.
Ansiosa para lhe encontrar novamente,
Kristina Kriegel.”
Rudolph aspirou levemente o papel que segurava nas mãos, Kristina havia perfumado a carta. Adorava seu perfume.
Flores, ela tinha cheiro de flores, Kristina era como primavera, sempre tão tenra, fresca, menina.
Sentia saudades de vê-la pessoalmente, olhar naqueles olhos de ouro, apreciar o sorriso tímido que fazia corar as bochechas de porcelana.
- Ah mein Engel...
- Rudolph!
Tomou um susto tão grande que a carta caiu de suas mãos, apressou-se para recolhê-la, era seu tesouro.
- Você está bem? Parece assustado. – disse Heinrich sentando-se diante da mesa do médico sem esperar pelo convite.
- Estou bem, só estava distraído.
- É de Kristina? – indagou espiando o papel.
- Sim é dela.
- Há quanto tempo não a vê?
- Seis meses.
- Quando pretende oficializar esse namoro Rudolph?
O amigo deu um longo suspiro.
- Não creio que isso ocorra tão breve, o atual momento não permite relacionamentos e, além disso, ainda tem o pai dela.
Heinrich deu uma risada alta. Há tempos não tinhas notícias de Hans Kriegel, mas se lembrava muito bem daquele velhote rabugento.
- É isso pode ser um problema... – concordou balançando a cabeça. – Mas tenho outro assunto para tratar com você.
Os semblantes do major e do médico mudaram, tornaram-se sérios assim como a áurea de sobriedade que invadiu a sala.
- Diga.
- Lembra-se sobre o que lhe falei a respeito do padre Drechsler?
- Sim lembro, alguma novidade?
Heinrich inclinou-se sobre a mesa, falou muito baixo.
- Ele conseguiu falar com outro padre, na Inglaterra.
- E então?
- Repassaram todas as informações que eu dei a Inteligência Britânica.
- Todas?
- Sim, os relatórios foram entregues, agora é apenas uma questão de tempo...
Tempo. A palavra ecoou sussurrante. Assim como Hans Kriegel, Heinrich e Rudolph sabiam o quão próximo estava a ruína do Reich, todos sabiam, exceto Hitler.
Os exércitos Aliados estavam próximos de conseguir fechar o cerco à Berlin. Assim como escrito na carta de Kristina, haviam tomado Darmstad, mas antes também haviam tomado Trier, Möchengladbach, Vynen, Apeldoorn, Köln, Stettin, Bonn, Koblenz, Saarbrücken e Gdingen¹.
Batidas apressadas interromperam o silêncio e o pensamento dos dois amigos, fosse o que fosse, era de grande urgência.
- Dr. Krämer!- chamou a voz do lado de fora.
O médico abriu a porta nervosamente , teriam sido ouvidos?
- General Löhnhoff!
E foi Heinrich quem falou ao constatar a presença de seu superior.
- Sabia que o encontraria aqui Veltheim.
O velho general entrou na sala e trancou a porta. Estava esbaforido e com as pontas dos bigodes ridiculamente desarrumadas.
- Tomaram Wiesbaden e Frankfurt! – exclamou ele num sussurro quase afônico – Quero que vocês deixem o campo!
- É uma evacuação?
- Não Krämer, pelo amor de Deus, só estou tirando daqui quem eu acho que importa.
Rudolph engoliu em seco, não era nada justo.
- Senhor, e quanto aos outros?
- Ficarão Veltheim, ficarão. Os russos já chegaram a Danzig, em pouco tempo estarão aqui em Auschwitz.
- O senhor também vai?
O general fitou Rudolph, havia algo diferente em seus olhos azuis aguados, um súbito orgulho, tão intenso que os bigodes desarrumados pouco importavam.
- Eu ficarei doutor. – disse Löhnhoff altivo. – Mas vocês dois sairão daqui imediatamente.
- Eu me recuso.
- Você vai comigo. – afirmou Heinrich duramente ao mesmo tempo em que apertava o ombro de Rudolph – Quando e como vamos general?
- Agora mesmo, peguem esses papéis e vão para a estação.
Ficaram estáticos olhando para o general, tal qual um capitão de navio, ele iria afundar com seu “barco”.
- O que estão esperando? Saiam já daqui, é uma ordem!
***
Até chegarem a cabine que o general Löhnhoff reservara para eles, Rudolph e Heinrich tropeçaram em vários oficiais de alta patente que também haviam sido liberados para deixar Auschwitz.
Apesar da urgência com que o general os mandara sair, não havia agitação no trem. Era como se fosse apenas mais uma viagem comum.
- Não é justo que os outros não sejam sequer avisados. — lamentou-se o médico enquanto fechava a porta da cabine.
- Pare de pensar só nos outros. Pense um pouco em você, em Kristina e no futuro que poderão ter.
O major tinha o semblante extremamente sério, fitava a janela ansioso para que o trem começasse a se movimentar.
- Eu penso em mim, e muito em Kristina, mas isso não está certo.
- E o que está certo? Nada está certo!
Estava nervoso, não conseguia deixar de pensar em sua família e em todas as coisas que precisaria fazer para protegê-los.
Desde que o general Löhnhoff lhe dera o conselho de retirá-los da casa em Berlin, refletira muito sobre locais que poderiam ser seguros para os esconder, e o único que pareceu aceitável fora a casa do padre Drechsler, que ficava nos fundos do terreno da igreja.
- Sabe que vai ficar tudo bem, não sabe?
A voz de Rudolph soou como se viesse de um lugar muito distante, tão perdido que Veltheim estava em seus próprios pensamentos.
- Sinceramente eu não sei.
- Deus não permitiria que nada ruim acontecesse.
Heinrich esboçou um breve sorriso amargurado.
- Muita coisa ruim já aconteceu...
E era curiosa aquela conversa onde as frases pareciam sair trocadas, pelas bocas inversas.
- Porque isso agora, você sempre foi tão devoto.
- Sei que sim Rudolph, mas agora também sei o quão próximo tudo está de acabar, e não sei se o que está por vir será muito melhor do que isso...
A verdade era que o fim na guerra já não era mais a preocupação do major, e sim o futuro incerto que tinham pela frente.
Notas finais
--X--
Minhas queridas, quero agradecer imensamente por todos os comentários, agradecer as novas leitoras, e pela INCRÍVEL recomendação que a PrettyLittleMonster fez para fic! Obrigada mesmo suas lindas! São vocês que fazem essas história acontecer.
--X--
1. 2. 3. - São todas cidades alemães ou ocupadas por alemães .
Para deixar mais claro a situação em que a guerra se encontra, fiz uma mapinha para vocês onde é possível ver as cidades citadas e Berlin.
Está no link abaixo, e dá para ter uma boa ideia do cerco feito a capital alemã:
http://img593.imageshack.us/img593/9086/cercoaberlim.png
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