Bem Vinda Ao Campo

58 Luzes no Final...


Notas iniciais
Tá aí queridas. ;)
Boa Leitura.

No fim da tarde de 9 de abril de 1945, Heinrich Von Veltheim parou mais uma vez diante dos portões de ferro de sua casa.

Mais uma vez os abriu rangendo, e atravessou a alameda que levava dos jardins até a porta principal.

Mais uma vez deixou o chapéu no cabideiro do hall de entrada e mais uma vez surpreendeu a família reunida na sala de estar.

- Heinrich!

Daquela vez a recepção foi diferente, Anne adiantou-se aos filhos e correu para o marido precisava tocá-lo, certificar-se de que ele estava ali.

Apertou-o, abraçou forte, mas era como abraçar um muro de pedra, frio e sem vida, Heinrich parecia morto.

- Olá meine liebe... – disse sem a emoção costumeira, enquanto se desvencilhava dela.

Bagunçou os cabelos de Wilhelm e deu um rápido abraço em Liesel com a mesma apatia com que cumprimentara a esposa. Passou por Valkyrie e dispensou-lhe um olhar de poucos amigos.

Não disse mais nada, apenas saiu da sala, subiu as escadas e fechou-se no escritório, porque não conseguia olhar para aqueles rostos cheios de esperanças.

Eram aqueles olhos brilhando de expectativa que lhe condenavam, que esfregavam em sua cara que não podia protegê-los.

Maquinalmente abriu a cristaleira e tirou dela uma rebuscada garrafa de cristal e um bojudo copo. Sem se dar conta, encheu-o com o conteúdo da garrafa, whisky.

Observou o líquido âmbar por breves segundos. Virou-o de um só gole, sentindo queimar a garganta e esquentar o peito.

Seu costume era de parar no primeiro copo, mas bebeu outros dois com a mesma velocidade com que sorvera o primeiro.

Não tinha coragem de descer as escadas e contar para a família que não tinha o que fazer, encará-los e dizer que não tinha um lugar seguro para escondê-los.

Observava o copo vazio e a garrafa de uísque ainda pela metade. Reprimia a vontade de encher o copo novamente.

Por mais que a sensação abrasadora da bebida envelhecida em carvalho fosse agradável, e por mais que aquele líquido âmbar espalhasse um adorável e leve torpor por seu corpo, Heinrich sabia que embriagar-se não era a solução de seus problemas.

Sentia-se fraco e inútil por não poder fazer nada, sentia-se covarde por estar enclausurado no escritório, bebendo, enquanto as pessoas que mais amava esperavam na sala, sem sequer ter ouvido uma palavra de conforto ou uma justificativa.

Tinha plena noção de que não poderia se esconder no para sempre, mas não tinha o menor ânimo para revelar o quão crítica estava a situação.

Já não tinha mais forças para permanecer sendo positivo, para continuar sonhando com uma vida feliz longe da guerra. Estava cansado demais, exausto. Tudo o que queria era dormir e esquecer. Queria fugir da realidade.

Arrastou-se para o quarto, carregando toneladas de culpa e mais uma de auto-desprezo. Mas talvez, se dormisse, pudesse ter alguma boa idéia, uma luz no fim do sonho.

***

No andar de baixo, apreensão e choque pairavam sobre a sala, o clima tenso havia se instaurado com a saída de Heinrich, mas permanecia mesmo tendo se passado diversos minutos.

Valkyrie tinha os olhos miúdos arregalados de espanto, e a constante expressão de riso havia abandonado seu rosto.

As crianças, Liesel e Wilhelm, estavam chocadas, não conseguiam entender a súbita frieza do pai, justo ele que costumava ser tão carinhoso.

A única pessoa na sala que se mantinha neutra era Anne. Estava pensativa.

- O que houve com o meu menino, Anne? – indagou Nana em tom de súplica – Vou ver o que ele tem e...

- Não. Deixe que ele fique sozinho.

Foi incisiva ao falar, porque sabia que a velha babá iria resistir em deixar de lado o seu menininho com problemas.

- Por quê? Porque tenho que deixá-lo sozinho?

Era de se apiedar daquela cena. Valkyrie estava desolada. Não conseguia ficar em paz sabendo que sua criança estava sofrendo.

- Ele é um homem crescido, e homens crescidos não gostam de ser vistos chorando.

Não poderia haver uma frase melhor para aplacar o ímpeto maternal de Valkyrie e para exibir o quão Anne via além do que estava a sua frente, o tanto que ela conhecia o marido.

- Vamos fazer o almoço? — indagou a cigana já renovada, um sorriso no rosto como se nada tivesse acontecido – Logo Heinrich descerá e estará faminto.

***

Assim que se deu por acordado, teve imediata consciência de uma dor de cabeça terrivelmente latejante. Ao abrir os olhos pensou que ficaria cego por conta da luz que invadia a janela entreaberta.

Sentou-se na cama e arrependeu-se de ter bebido tão rapidamente três copos cheios de whisky e de barriga vazia. E ai se deu conta do quanto sua barriga estava vazia, e de quanta fome estava sentindo.

Levantou-se e ficou feliz por constatar que não estava cambaleante. Ainda sentindo os olhos queimarem nas pálpebras foi até o banheiro onde lavou o rosto, o que o deixou um pouco mais apresentável.

Desceu as escadas com total noção de que tinha péssimas notícias para dar, mas antes que chegasse ao patamar inferior, o cheiro de batatas e carne assada invadiu suas narinas, fazendo com que seu estômago soltasse um longo e audível ronco.

Mal entrou na cozinha e foi surpreendido por sua família, alegremente esperando-o na mesa.

- Sente-se querido, só falta você.

Não conseguia crer que sua esposa pudesse existir, tão incrível e especial que ela era. Apesar de tudo, esperava-o, com aquele riso doce, como se a vida fosse absurdamente fácil.

- Obrigado...

- Vamos rezar papa?

Emocionou-se ao ouvir a pergunta de Liesel que já havia posto as mãos unidas, pronta para oração.

Fez uma rápida prece, porque estava sem palavras para usar, e porque sua barriga doía ansiando pela comida certamente maravilhosa que Nana prepara.

- Im Namen des Vaters und des Sohnes und des Heiligen Geistes...

- Amen.

Foi interrompido antes de chegar ao “amém”, mas ficou feliz ao constatar que fora Wilhelm que o pronunciara, com os olhinhos fechados, e as mãozinhas unidas. O pequeno havia dado fim a oração.

Quis chorar, mas não o fez, sorriu com os olhos porque estava com o peito cheio de orgulho.

- E agora, vamos todos comer! – disse Nana com os olhos repuxados de riso.

Notas finais
Está aí, Heinrich curtindo uma fossa (cujo motivo ainda é desconhecido... hahahah) e a família reanimando-o. Anne é uma mulher bem esperta. ;)