Bem Vinda Ao Campo
54 Entre Costelas e Janelas
Notas iniciais
(vários trabalhos de férias inconcluídos >_<")
Para as novas e veteranas LINDAS,
Boa leitura!
Fazia pouco mais de um mês desde a última despedida e a situação da guerra se agravara, mas em Auschwitz, o clima era sempre cinza, nem tranquilo e nem desesperador.
Uma áurea de conformação pairava sobre o campo, de certo modo os oficias haviam aceitado que já não havia muito a fazer.
A maioria levava a situação com indiferença, no entanto, alguns se revoltavam por debaixo dos panos.
Por conta disso, o general Löhnhoff pedira a Heinrich que investigasse uma suspeita de conspiração por parte dos soldados. Não sabia por que o general ainda se preocupava com isso. Que diferença faria se alguém conspirasse contra o Reich estando tão próximo do fim?
Pobre general que mal imaginava que ele, delegado a deter a conspiração no campo era um dos maiores conspiradores que poderia haver.
Há poucos dias recebera uma carta do padre Drechsler, seu confessor, avisando que tudo estava bem e que Deus certamente receberia sua prece.
Com isso o padre queria dizer que os relatórios militares que Heinrich lhe dera antes de voltar a Auschwitz já estavam nas mãos de um clérigo inglês, e que este em breve os entregaria à inteligência Britânica.
Exceto por Nana, Liesel e Rudolph, o padre Drechsler era o único que sabia da existência de Anne e Wilhelm.
Era um verdadeiro homem de fé, havia se arriscado para que aqueles relatórios chegassem aos ingleses. Era um bom homem o padre Drechsler.
Garantira a Heinrich que assim que o Reich caísse, ele e sua família teriam um lugar na nova Alemanha, que ele seria absolvido por Deus e pelos homens.
Àquela altura, 17 de março de 1945, o destino da guerra já se mostrava certo, a derrota para a Alemanha era um futuro muito próximo.
Más línguas, aliás, verdadeiras línguas sibilavam pelos cantos que muitos dos homens de alta patente e do círculo pessoal de Hitler estavam deixando o país com suas famílias, ou negociando rendição com os inimigos.
De certo modo Heinrich não era o único.
Sempre que pensava no final da guerra, o major imaginava sua família em paz, vivendo na casa que por um milagre se mantinha intacta após tanto tempo de guerra, após seguidos e contínuos bombardeios.
Pensar que o fim estava tão próximo o enchia de expectativa e temor.
Pensava a respeito enquanto se dirigia ao barracão dos soldados àquela noite, segundo as “fontes” do general, haveria balbúrdia no alojamento.
Pessoalmente Veltheim não tinha nada contra a conspiração dos soldados, há muito deixara de considerar a bandeira nazista como algo digno de honra, mas como ainda era seu trabalho, via-se obrigado a fazer cumprir as leis.
Antes que atravessasse a porta, ouviu o som elevado de uma voz familiar.
- Deveríamos estar matando esses bastardos russos ao invés de ficar esperando que eles cheguem para nos matar!
Apesar de já ter se graduado há muito tempo, o soldado Zeller havia permanecido no campo. Com medo de se arriscar na guerra, dera um jeito de se juntar aos homens do capitão Engels. Era um dos guardas de prisioneiros agora.
E era no mínimo curioso que logo ele manifestasse tamanho desejo de guerra uma vez que fizera o possível para escapar dela.
Algumas palmas e gritos de incentivo se fizeram ouvir. Heinrich decidiu que era ora de entrar.
- Creio que há gente falando mais do que devia por aqui.
A voz calma e firme do major espalhou-se no recinto, fazendo com que todos os soldados prendessem a respiração e se aprumassem rapidamente em posição de sentido. Quase todos.
O esperado era que Zeller se espantasse tanto quanto os outros ao perceber a presença de Veltheim ali, mas o rapaz voltou-se para o superior com ar de deboche.
- Ora se não é o Major “Não Maltratem os Prisioneiros”.
Só por aquilo Zeller já poderia ser mandado para a prisão militar, mas aos se aproximar dele, o major descobriu o real motivo da bravura do soldado.
Zeller estava tão embriagado que acender um fósforo perto dele era um grande risco de explosão.
- Só vou perguntar uma vez, mais algum soldado bebeu?
Algumas mãos se ergueram silenciosas, mas Heinrich não estava satisfeito com o pouco numero de confessos.
- Espero que estejam sendo sinceros, porque vou inspecioná-los um por um.
E uma quantidade muito mais considerável de mãos subiu ao ar.
- São uma vergonha... – disse ele fitando longamente cada rosto – Uma verdadeira vergonha!
A risada de Zeller ecoou estridente, o homem estava completamente fora de si.
- Senhor... – disse em tom de pilhéria – Porque não toma um vinho conosco e nos conta sobre a sua puta cigana? Sabe que eu nunca a esqueci?
O major olhava lívido para o soldado, não podia crer, mesmo estando bêbado, era surreal que Zeller falasse aquilo.
- É uma pena que eu não tenha visto o rosto, mas já dá para eu me aliviar só de imaginar minhas mãos puxando aqueles cabelos pretos...
Soltou uma nova risada ao mesmo tempo em que se desequilibrava em seus próprios pés.
- Com aquele cabelo comprido ela deveria ser uma loucura de quatro não é mesmo major? Imagino os cabelos caindo sobre as costas morenas dela...
Heinrich estava petrificado, tal como todos os outros presentes. Aquela situação era simplesmente inimaginável, era tão absurda que ele nem podia respirar.
- Me falaram que ela tinha um belo par de seios, diga major, por dentro ela era mais quente que as moças alemães?
O simples fato de Zeller chamar Anne de “puta cigana” já era motivo mais que suficiente pra que Heinrich quisesse matá-lo, todo o resto era apenas um adicional para sua fúria cega.
- Conte a verdade major, o senhor a matou de tanto foder!
E antes que o sorriso debochado do bêbado soldado se transformasse em uma nova risada, o punho de Veltheim atingiu-lhe a boca fazendo com que ele engolisse alguns dentes.
Sem se dar conta, ele espancava Zeller diante de todos os outros soldados que por bom senso, assistiam a tudo calados.
Queria matá-lo ali mesmo, queria infringir o máximo de dor possível àquele bastardo que ousava ofender sua esposa, a mãe de seus filhos.
Sentiu quando o nariz de Zeller entortou fazendo com que algo morno jorrasse em sua mão.
Não parou ainda que os nós de seus dedos doessem de tanto socar a cara do infeliz. Não parou quando Zeller caiu no chão cuspindo sangue. Não parou quando alguns soldados o pediram que fizesse.
Parou apenas quando ouviu o som das costelas daquele desgraçado rachando sob as suas botas.
Como se tivesse finalizado uma obra de arte, afastou-se para ver melhor. Zeller parecia ter sido atropelado, estava desacordado, caído no chão em um ângulo estranho, e com sangue por todo o rosto e peito.
- Tirem isso daqui... – rosnou o major pondo os cabelos para trás, deixando rastros de sangue nos fios louros.
E foi só. Saiu do barracão mecanicamente, sem a menor emoção, como se não tivesse deixado um homem semi-morto para trás.
No fundo, achava que Zeller ainda não havia apanhado o suficiente, ainda não havia pagado tudo o que devia.
Sentia a raiva percorrendo seu corpo, estava tão furioso que sequer se lembrava do motivo de ter ido ao barracão.
***
Na ala médica, Rudolph injetava morfina no desfigurado soldado Zeller. O rosto do rapaz havia inchado terrivelmente, e o nariz virara uma disforme protuberância roxa.
Três costelas haviam sido quebradas, mas aparentemente não perfuraram qualquer órgão.
Apesar do estado deplorável e de ter engolido cinco dentes, Zeller sobreviveria.
Poderia ser surpreendente imaginar que um só homem fizera tamanho estrago em um rápido lapso de raiva. Mas sabendo que aquele homem era Heinrich, e o motivo da agressão, Rudolph achava que a mão Deus havia parado seu amigo antes que ele matasse o soldado.
Não havia muito que fazer por Zeller, mas ao menos a morfina permitiria que ele não quisesse morrer tamanha seria a dor assim que ele acordasse.
O médico não nutria qualquer simpatia pelo paciente, mas sendo ele um ser humano, não negava tratamento e todo o auxílio que pudesse dar para diminuir seu sofrimento.
Deixou o recinto pensando em todas as explicações que seu melhor amigo teria que dar no dia seguinte por conta do espancamento do soldado.
Entendia que a ofensa fora demais, mas ainda achava que Heinrich havia se exposto muito além do que devia.
Como explicaria o ataque de fúria causado pela menção de uma cigana morta há quase dois anos?
Tentando afastar da cabeça a idéia fixa de que aquela confusão traria graves problemas, Rudolph foi para os seus aposentos, pensando em rabiscar algumas coisas para Kristina, sentia falta da moça, seu anjo salvador.
Ainda que não fosse muito dado a sonhos, imaginava-se ao seu lado. Talvez pudessem se mudar para o campo algum dia, e aí realizaria o sonho da menina de morar em uma casa branca de madeira, com grandes janelas que sempre ficariam abertas e cadeiras de balanço varanda.
Notas finais
Heinrich é básico né? Botou a mulher no meio ele só quebra o nariz, três costelas e faz engolir cinco dentes, super tranquilo o rapaz... '-'
E Rudolph... ah... sonhando com uma casinha no campo... *-*
Mas pera! Acho que essa história não acaba aqui heim! Explicações terão de ser dadas.... ih... >_>
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