Bem Vinda Ao Campo
45 Engel
Notas iniciais
Em uma padiola improvisada, Heinrich e Hans Kriegel carregavam pelas ruas da cidade o desacordado Dr. Krämer.
Não trocaram qualquer palavra durante o percurso. Hans bufava e rangia os dentes vez ou outra.
A cena não era lá muito incomum, algumas pessoas carregavam feridos também. Era como um campo de batalha armado no centro de Berlin.
Assim que pararam na frente do portão da casa do major, o velho soltou um longo assovio.
– Estão te pagando bem para ser um cretino.
– Essa casa é herança familiar. – explicou Heinrich sorrindo – Espere aqui, preciso avisar a governanta.
Kriegel deu de ombros, não ligava, e nem entendia porque a governanta tinha que ser avisada.
Limitou-se a ficar ali do lado de fora da mansão do major. Revoltante olhar para aquele palacete mesmo tendo ele dito que era herança familiar.
Hans Kriegel odiava aqueles aristocratas ricos, odiava os nazistas, e remoia-se de raiva por não conseguir odiar aquele homem. Parecia até ser um sujeito decente o tal Heinrich.
– Vamos? – indagou Heinrich.
– Depressa.
Ergueram a padiola e sem maiores dificuldades carregaram o médio desacordado pelos jardins. Hans assoviava para os arbustos aparados e para as rosas que cresciam ao lado das paredes.
Espantadíssima, Valkyrie esperava no batente da porta da cozinha. Tinha as mãos sobre as bochechas.
– Oh meus Deus! – dizia ela repetidamente – Oh meu Deus!
Ignorando as exclamações redundantes, entraram quietos na cozinha, e assim permaneceram por todo o tempo até chegarem ao quarto de hóspedes que Rudolph ocupava.
– Vamos colocá-lo na cama. – indicou Heinrich.
– O que ele é seu?
– É meu melhor amigo.
– Hunf... entendo.
– Porque não gosta do nazismo Sr. Kriegel?
– Por quê? Por quê? Ora moleque, que pergunta mais estúpida, por isso é uma grande idiotice.
– O senhor acha?
– Hitler quer nos convencer que somos melhores que os outros por descendermos de um povo antigo qualquer. Acho tudo isso um monte de bosta.
Balançando a cabeça de forma negativa várias vezes, Hans ajudou Heinrich a cuidadosamente, depositar Rudolph sobre a cama.
– Estamos perdendo nossos melhores homens nessa guerra de merda... – grunhiu o velho com profundo amargor.
– O senhor perdeu alguém, Sr. Kriegel?
Por um breve momento pareceu que ele diria alguma coisa. Seus olhos cinzentos lampejaram como se estivessem ligeiramente úmidos.
– Isso está ficando pessoal demais, moleque.
Ficou então mudo, com o semblante sisudo de antes. Cada ruga de seu rosto parecia ter se aprofundado mais.
Desceram as escadas completamente calados. Hans não percebeu uma moça morena espiando do fundo do corredor.
Quando passaram por Valkyrie, o velho fez um breve aceno de cabeça. Não esperou pelo retorno do cumprimento.
– Já fiz o que me pediu moleque, vou embora – informou Hans já saindo para o pátio.
– Espere!
Heinrich apressou-se para alcançá-lo, apertou sua mão firmemente.
– Muito obrigado pela ajuda, Sr. Kriegel.
– Até a vista moleque.
Soltando resmungos extremamente audíveis, o velho sumiu na escuridão da rua pouco iluminada.
***
– Vai chamar um médico?
– Sim, e você e Wilhelm vão ter de ficar escondidos novamente...
Silêncio. Heinrich fitava Rudolph ainda desacordado. Era possível sentir o peso que tinha no coração.
– Não se culpe... – sussurrou Anne envolvendo-o nos braços – Acidentes acontecem.
Sem resposta. Anne apertou o abraço tentando trazer o “seu” amado major de volta a vida.
– Ele disse a menina que sentia muito...
– A menina que o encontrou?
– Sim.
– E você? Sente muito?
– Você nem imagina meine liebe.
– Então se prepare para conversar quando ele acordar.
– Se...
– Ele acordará em breve.
Deu-lhe um beijo na testa e saiu do quarto. A cigana sentia que os amigos deveriam ficar sozinhos.
***
A madrugada foi terrivelmente conturbada. Heinrich não conseguia encontrar posição, seus olhos se negavam a ficar fechados.
Mexia-se na cama tanto quando um peixe no anzol. Não podia dormir, sentia-se culpado.
Talvez por conta do clima de tensão instaurado, Wilhelm também não dormia, impedindo Anne de fazê-lo. Não chegava a chorar, mas resmungava, era como um gatinho miando.
Logo ao lado, Rudolph permanecia dormindo, mas tinha seu sono perturbado por pesadelos horríveis.
Revia em sua mente o momento em que ouviu o alarme de bombardeio. Estava longe dos abrigos públicos, e mais longe ainda da casa de conhecidos.
Não sabia como fora parar naquela parte da cidade. Não havia nada ao redor.
Sem opções, correu sem qualquer rumo definido, até que chegou em uma ruazinha repleta de casinholas.
Havia ali uma espécie de barraco para guardar ferramentas, e naquela situação, era o mais próximo de um abrigo que encontraria.
Ficou lá por um tempo que lhe pareceu infinito. As bombas caíam e ele pensava na discussão que tivera com Heinrich aquela tarde. Tinha consciência de que havia sido duro demais.
Pensava nisso quando com um grande estrondo seu “abrigo” veio abaixo. Alguma bomba caíra por perto e seu impacto fez ruir a frágil estrutura do pequeno barraco.
Depois tudo ficou branco e quieto.
Pensou que havia dormido. Não sentia o próprio corpo, mas estava consciente. Talvez aquilo fosse morte.
De repente começou a sentir muita dor. Não compreendeu, estava morto ou não?
Ouviu algo como “Papai, veja isso!” e em seguida, assim que conseguiu abrir os olhos viu um anjo.
– Como se sente? – indagou a divina criatura.
Tão linda quanto um sonho, parecia ter uma luz própria tão forte que ofuscava suas vistas.
– Me sinto mal, muito mal...
– Não se preocupe, eu irei cuidar de você.
Ela sorriu e por alguns segundos Rudolph não sentiu mais dor.
– Mein engel, diga a Heinrich que eu sinto muito...
Agarrou as mãos daquela jovem anjo de tranças louras com o resto das forças que tinha. Precisava contar-lhe a revelação que tivera.
– Eu não acreditava em Deus, agora eu acredito...
E então tudo escureceu.
Notas finais
Será que ele retornará para nossa história?
E Rudolph acordará em breve como Anne garantiu?
E quando ele acordar, como será?
Não deixem de acompanhar e de comentar suas lindas! Beijos pra vocês.
--X--
Engel = Anjo
Mein Engel = Meu Anjo
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