Bem Vinda Ao Campo

32 Chegando de Surpresa


O relógio contava exatamente seis e vinte e cinco da manhã quando Heinrich e Rudolph pararam diante do trem na plataforma, o primeiro a entrar foi o major, seguido pelo médico.

– Passagens e licenças, por favor. – pediu o oficial parado ao lado da porta.

Heinrich apresentou seus papéis e o ingresso de embarque, Rudolph só tinha a licença, não houvera tempo para a compra das passagens.

– O bilhete, por favor, doutor.

– Não tenho um bilhete.

– Não posso permitir que entre.

– Você pode e vai. – interveio Veltheim.

– Sinto muito major, mas não posso...

– Acho que alguns reichsmark¹ lhe ajudarão a poder.

– Não posso aceitar suborno.

– Eu creio que possa, sim senhor – e tirou da carteira várias notas que colocou no bolso do homem. – E se dinheiro não for o suficiente, talvez eu me lembre de sua bondade e o tire desse cargo inferior, francamente, bilheteiro de trem, o senhor poderia ser mais do que isso.

Sorriu para o homem e saiu andando em direção a sua cabine, Rudolph o acompanhou, nenhum dos dois olhou para trás. Sabiam do poder que a ambição tinha sobre os homens, aquele oficial não tornaria a incomodar.

– Você sabe como influenciar as pessoas Heinrich, acho que poderia convencer vários homens à se juntarem a nós.

O major deu de ombros, provavelmente poderia fazer isso, mas o risco de se pôr em problemas era muito grande.

– Acho que não falta muito para o parto...

– Certamente que não, eu não me surpreenderia se chegássemos atrasados.

– Estou aflito Rudolph, não sei o que faria se algo desse errado.

– Então pense que vai dar certo.

– Acha que vai dar certo?

– Acho que é provável.

Odiava aquela tática médica de não dizer nada sem que houvesse certeza, não custaria nada a Rudolph lhe garantir que tudo ficaria bem ainda que fosse mentira.

– Como será essa criança? Acho que vai se parecer com Anne, seria maravilhoso se assim fosse, ela é tão bonita...

– Pois eu acho que pode se parecer mais com você.

– Por quê?

– Anne é uma cigana mestiça, você é um ariano puro, são maiores as possibilidades de a criança ser mais ariana do que cigana.

– Não importa, vai ser lindo o meu filho. – disse ele, sorriso no rosto – Um filho, sempre quis um filho homem, e agora vou ter...

– Ainda pode ser que seja uma menina.

– Não, não, agora tenho certeza de que é homem. Liesel, disse que é um menino.

– E se for uma menina?

– Será bom também...

***

Dois meses na companhia de Valkyrie Weber provaram para Anne que a sensação de segurança que teve ao conhecê-la era mais do que real.

Não havia mulher mais dedicada e cuidadosa que ela, com aquele sorriso afável no rosto rosado e gorducho ela sempre se propunha a ajudar.

Era severa quando necessário, e adorável todo o tempo, não deixava que Anne pegasse peso, andasse ou ficasse muito tempo em pé.

– Acho que está chegando a hora Valkyrie, tenho a impressão de que vai ser logo...

Sentada à mesa da cozinha, Anne observava enquanto a outra preparava o café da manhã, ovos, salsichas e diversos tipos de pão.

– Realmente falta pouco querida, acho que talvez mais uma semana.

– Eu acho que menos.

– Uma pena que Heinrich não vai estar aqui, ele não disse quando vinha nas cartas.

Anne deu de ombros, sabia que em seu intimo a presença do major era fundamental, mas ainda assim não admitiria.

– Valkyrie, o que aconteceu com a mulher dele...?

A babá ficou calada por alguns segundos, não sabia como dizer, esperava que Heinrich já tivesse contado.

– Ela morreu no parto querida.

Anne ficou muito séria, quieta, achava que a mulher de Veltheim tivesse morrido algum tempo depois do nascimento de Liesel, e não no exato momento.

– Gretel era uma mulher doente, não precisa ficar preocupada meu bem. Ela era fraca, e já tinha passado da idade de ter filhos.

Tentava prestar atenção nas palavras acolhedoras de Valkyrie, mas não conseguia.

– O dr. Krämer disse que minha gravidez era perigosa, por eu ser muito nova...

– Bobagem, antigamente as moças ficavam grávidas muito cedo e tudo ocorria bem, os médicos acham que sabem de tudo. – decretou a senhora aproximando-se de Anne – Vai dar tudo certo querida, e logo teremos um lindo bebezinho para cuidarmos.

Sorriu e levantou-se, tinha vontade de agradecer aos céus por ter Valkyrie ao seu lado, abraçou a gorda senhora.

– Obrigada por ser tão gentil...

– Não agradeça minha querida, é por isso que estou aqui.

***

Entraram silenciosamente pela porta dos fundos, Heinrich queria fazer uma surpresa para a família.

Ouvia as vozes de Anne, Nana e Liesel, estavam na sala, cantando alguma melodia infantil. Ao adentrar o cômodo viu a filha rodopiando, Nana sorrindo parada em frente a janela e Anne sentada em sua poltrona, a barriga enorme estufada no vestido.

– Olá...

Papa! – gritou a pequena correndo para abraçá-lo.

Mein kind! Não esperávamos sua chegada.

– Vim por acaso, nem eu sabia que viria. – explicou ele, soltando Liesel.

Andou até Anne, beijou-lhe a testa.

– Trouxe uma surpresa. – sussurrou.

– Que surpresa?

– Entre Rudolph.

O médico adentrou a sala, sorria. Nana o abraçou, Liesel ficou na dúvida, mas acabou segurando sua mão.

– Dr. Krämer, quanto tempo. – disse a cigana enquanto se levantava vagarosamente.

– Muito mesmo.

– O que veio fazer aqui?

– Ajudar na hora do parto.

Anne sorriu, abraçou o médico.

– Que bom que está aqui.

Poderia se sentir enciumado por ela não ter lhe abraçado e sim a Rudolph, mas estava tão feliz por ter chegado a tempo de ver o nascimento de seu filho que nem se atentou para o fato.

– Já que estão aqui, vamos fazer o lanche da tarde. – decretou Valkyrie sorrindo.


Notas finais
Rudolph e Heinrich em Berlin, Anne prestes a parir... *-*
Tudo vai bem por enquanto. ;D
--X--
1. Reichsmark - Reichsmark (RM) foi a moeda oficial na Alemanha de 1924 até 1948.