Notas iniciais
Atrasou mais chegou... ;)
Boa Leitura.

Heinrich podia sentir a guerra se intensificando a cada dia, e sua ansiedade para retornar a Berlin crescia angustiantemente.

Enviava cartas para Nana, perguntava se elas estavam bem, e por “elas” se referia a governanta, Liesel e Anne.

Não fazia perguntas mais específicas, ou mencionava a cigana, as cartas poderiam ser interceptadas, mas ainda que superficiais as notícias de que tudo estava dentro da normalidade mantinha seu resto de calma intacto.

Ele e Rudolph se viam pouco, cada qual se preocupava em continuar seu respectivo trabalho e recolher o máximo possível de informações válidas para serem repassadas à Resistência.

Riscava os dias no calendário, pelas suas contas Anne daria à luz no final de novembro, outubro já havia ficado para trás há duas semanas e alguns dias, estava tão desesperadoramente próximo que ele começava a pensar em maneiras e desculpas que permitissem seu regresso ao lar.

Não teve coragem de perguntar novamente sobre a saúde de Anne, não estava pronto para ouvir o pior.

- Veltheim, preciso de você na minha sala, imediatamente.

Levou um breve susto com a interpelação de Löhnhoff, o general marchava depressa pelo corredor.

Enquanto o acompanhava, a inabitual ausência de falastronices começou a deixar Heinrich preocupado, pensou que de algum modo, sua presença nas reuniões da Resistência havia sido descoberta, ou pior, Löhnhoff sabia de sua fuga com Anne do campo.

Percebia que seu cérebro estava beirando um colapso quando entrou na sala do general, o que diria? Não tinha nada a dizer, a sua execução por traição era certa.

- Sente-se Veltheim. – ordenou Löhnhoff apontando para a cadeira.

- De que se trata sua urgência, general?

Ele parecia irritado, como se algo não estivesse de acordo com os seu ideais.

- Você vai me substituir em uma reunião com o Führer em Berlin.

- Perdão, mas não compreendi.

- Fui convidado à uma reunião no bunker do Führer, mas não poderei comparecer. – resmungou o general amargurado – Minha mulher está adoecida, em Paris, vou para lá amanhã pela manhã.

- Sinto muito pela sua esposa.

- Não sinta. É só uma mulher velha e gasta.

Heinrich baixou os olhos, achava os modos de Löhnhoff desrespeitosos. Não que ele fosse uma excepcionalidade, o major ainda lembrava bem do modo como seu próprio pai se referia as mulheres, “objetos de desejos, causadoras de todos os males.”

- Enfim, você vai no meu lugar, e depois me fará um relatório.

- Porque eu senhor?

Nem mesmo sabia o porquê da pergunta, deveria aceitar imediatamente, era sua chance única de acompanhar o parto de Anne, ainda assim, tinha dúvidas quanto a sua indicação.

- Porque te acho um exemplo do verdadeiro homem alemão, e te estimo Veltheim, quero que me represente. – explicou ele – Melhor você do que um desses assessores borra-botas que eu tenho, nunca foram para a guerra, moleques!

Veltheim fez uma aceno afirmativo com a cabeça.

- Estou às ordens general.

- Ótimo, aqui estão os seus papéis de licença, a autorização para entrar no bunker, e aqui estão as passagens. Você vai no primeiro trem para Berlin, ele sai daqui às seis e meia, amanhã.

- Perfeito general, será um enorme prazer representá-lo ante ao grande Führer!

Levantou e bateu continência, Löhnhoff sorriu, não havia um protetor do Reich melhor que o major Von Veltheim.

- Sieg Heil! – bradou o general ainda sorrindo.

- Heil Hitler! – finalizou Heinrich, o braço direito estendido saudando a foto do Führer na parede atrás de Löhnhoff.

***

Rudolph teve certeza de que estava em maus lençóis quando foi arrastado pelo braço por Heinrich para dentro de sua sala. Haviam sido descobertos.

- O que houve?

- Vou para Berlin! – exultou o major enquanto fechava a porta do consultório.

- Por quê? O que disse para ir?

- Nada, Löhnhoff me mandou ir em seu lugar em uma reunião com o próprio Führer no bunker!

- No bunker?! Heinrich essa é uma oportunidade única, é a chance que temos de...

- Não Rudolph. – interrompeu ele seriamente – Eu me propus a participar disso, mas a Resistência está depois da minha família, aceitei a tarefa para ver o meu filho nascer e nada mais.

O médico deu um suspiro, não havia o que contestar, não podia simplesmente obrigar Heinrich a levar algum explosivo para a reunião, e nem pedir para que ele se arriscasse a tal ponto estando tão próximo de ser pai novamente.

- Então eu vou com você, e eu levarei uma bomba comigo.

- Não diga loucuras! Você é um médico, não um soldado preparado, não vou permitir que faça isso.

- Não pode me impedir, e você precisa de mim, precisa que eu esteja lá quando Anne for dar a luz.

O major não podia acreditar que ainda não tinha pensando nesse detalhe, como Anne poderia dar a luz sem um médico ou uma parteira?

- Rudolph, eu concordo que você vá comigo para Berlin, mas não aceito essa idéia de você entrar na reunião com uma maldita bomba.

- Não tem outra opção, sinto muito por ter de chantageá-lo desse jeito, mas é a única forma Heinrich...

Sabia que ele não fazia por mal, provavelmente faria o mesmo se a situação fosse invertida, mas não podia deixar que ele se expusesse tanto, se fosse pego, certamente seria fuzilado ou coisa pior.

- Você não tem estômago para esse tipo de coisa, não é capaz de machucar ninguém Rudolph, você é bom demais para isso.

- Não me subestime, eu já vi coisas verdadeiramente horríveis, e não só sou capaz, como meu maior desejo é matar esse demônio disfarçado de homem.

Mal podia reconhecer o amigo, estava cheio de ódio, era tão estranho ver isso em sua personalidade suave.

- Se te pegarem, você será morto...

- Se assim tiver de ser, será.

- O que vai ser de mim?

- Aprenderá a se virar meu caro, e agora sem melodramas, vou até meu superior pedir para que adiantem minha licença.

O velho Rudolph Krämer de sempre estava de volta, a vivacidade dos olhos verdes brilhava como antes, e a áurea de calmaria pairava ao seu redor.

Notas finais
O parto está chegando!
E Rudolph se decidiu a se arriscar... >_>
Comentem. ;D
--X--
1. Bunker - Em arquitetura militar, uma casamata é uma instalação fortificada fechada e abobadada, independente ou integrada numa fortificação maior, à prova dos projéteis inimigos. A partir da Segunda Guerra Mundial, começou-se a utilizar o termo "bunker" para designar certos tipos de casamatas. O termo "bunker" tem origem na designação, em língua inglesa, dos paióis de carvão dos couraçados, que eram blindados de modo a protegerem o combustível de eventuais impactos de projéteis inimigos.