Bem Vinda Ao Campo
53 Chamas
Notas iniciais
Boa leitura.
“Jamais me imaginei escrevendo um diário ou coisa do gênero, parece-me muito tolo e até mesmo os relatórios de serviço sempre me foram enfadonhos.
No entanto, nos últimos dias senti a necessidade de registrar o que se passa por aqui, e talvez assim eu possa expurgar todos os maus sentimentos que carrego comigo.
Hoje é 10 de fevereiro de 1945, estou prestes a voltar para o campo de concentração de Auschwitz na Polônia, prestes a deixar minha família para trás aqui em Berlin.
A cada vez que me despeço tenho a sensação de que pode ser pela última vez, a cada beijo que dou em minha mulher e filhos, acho que pode ser o último que darei.
A guerra avança e a Alemanha é gradualmente empurrada para o abismo que nós mesmos cavamos.
Não me atrevo a por toda a culpa em Hitler, não o faço porque sei que a coisa só tomou a proporção atual porque nos deixamos seduzir por ele.
Há que se admitir, quando Adolf surgiu foi como a tábua da salvação pela qual esperávamos.
Não sei dizer se outro poderia ter feito o que Hitler fez, há algo de muito carismático em sua pessoa, o que o torna ainda mais assombroso. Um encanto mágico que encobre um monstro.
Encontrei-me com ele algumas vezes, e em todas as ocasiões o mesmo sempre foi extremamente gentil, muito polido, simpático até.
Mas a proximidade também me deixou perceber que Hitler é um homem muito doente, sofre de diversos males, problemas gástricos, de pele, ficou surdo após o último atentado contra sua vida, e manco também. Fora isso, é certo que tem algum problema psiquiátrico. Hitler é um homem louco.
Não me apiedo de sua situação, na verdade, sinto ainda mais a culpa por ter permitido, e em algum momento apoiado esse lunático a quem chamamos de Führer.
O divisor de águas que mudou completamente minha opinião sobre superioridade racial ocorreu há dois anos atrás, quando conheci minha esposa.
Ainda me lembro de como a encontrei, em frangalhos, o vestido rasgado, suja como um cão de rua e ainda assim a mulher mais forte e bonita que já vi em minha vida.
Devo dizer que a princípio tratou-se apenas de atração física, mas quando passei a conhecê-la, pude ter certeza de que o fato de Anne ser cigana não afetava sua personalidade, pelo contrário, aquilo a deixava ainda mais interessante.
Cada pequeno segredo, cada particularidade, todos os seus mistérios me envolveram irreversivelmente e logo eu me peguei amando aquela moça.
Jamais me imaginei em minha atual situação. Casado clandestinamente com uma cigana que deveria estar morta, tenho um filho cigano de quem ninguém sabe, e ambos vivem escondidos em minha casa que é bastante próxima do Palácio do Reichstag¹.
Foi por eles que mudei radicalmente de posição. Se antes eu protegia, agora almejo matar Hitler, porque este é o único modo de ter minha família a salvo.
Descobri recentemente que não posso contar com quem achei que poderia.
Aqueles que se intitulam e “Resistência Alemã” desistiram de lutar, acovardaram-se após o fenomenal fracasso do Atentado de 20 de Julho.
Não tenho certeza se posso culpá-los.
Lamento, mas no fim sei que também são homens com família, talvez esperar que eles lutem uma batalha que é minha seja pedir demais.
Perdi várias horas pensando em como matar Hitler, cheguei a ter boas idéias, mas sozinho, por mais que eu deteste o fato, seria impossível colocá-las em prática.
Não pensei que fosse chegar a esse ponto, mas é isto, irei me tornar um traidor por completo. Irei auxiliar os Aliados² em tudo o que eu puder.
A guerra tem exaurido os alemães de tal modo, que mesmo nossos homens mais determinados em salvar a pátria do Nazismo enfraqueceram.
Talvez, esses estrangeiros preocupados em deter Hitler sejam os mais adequados para por fim em tudo.
Ainda não sei como, mas procurarei por eles, oferecerei meus serviços, porque é isso o que eu sou. Um soldado, sempre pronto para defender a Alemanha de quem quer que seja, ao lado de quem for.”
A vela queimava lenta, estava quase no fim, quando Heinrich pôs a caneta de lado. Correu os olhos sobre o que escreveu muito rapidamente.
Por sua expressão facial vaga era difícil saber se ele estava satisfeito ou não com aquele breve registro de suas memórias.
Cuidadosamente destacou a folha da agenda. Em seus olhos, brilhava refletida a chama daquele toquinho de vela.
Aproximou o papel do fogo, sem pressa esperou que as bordas da folha amarelassem, não tinha porque ter pressa.
Estava perdido em seus próprios pensamentos, e ainda que olhasse diretamente para o fogo e o papel, via apenas os contornos de Anne deitada, dormindo tranquila no quarto ao lado.
Sem perceber soltou a folha que caiu sobre a vela, consumiu-se em chamas, decompôs-se em cinzas sobre a mesa do escritório.
Com um suspiro cansado o major esfregou os olhos enquanto se levantava da cadeira. A manhã seguinte seria mais uma daquelas incertas despedidas.
Notas finais
-- X --
1. Reichstag - é o nome do prédio onde o parlamento federal da Alemanha (Bundestag) exerce suas funções. Localiza-se em Berlim no distrito de Mitte.
2. Aliados da Segunda Guerra Mundial - foram os países que se opuseram as Potências do Eixo na Segunda Guerra Mundial. A União Soviética, os Estados Unidos e o Império Britânico eram as principais forças. A França antes da sua queda e após a Operação Tocha, e a China no teatro de operações Ásia-Pacífico são também consideradas Potências aliadas. Já, a Polônia foi o primeiro país aliado, pois sua invasão deu início a Segunda Guerra Mundial na Europa, enquanto o Brasil o único país América Latina a enviar tropas para os campos de batalha europeus.
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