Bem Vinda Ao Campo
25 A Salvo
Notas iniciais
Boa leitura.
Deixou que o major a beijasse, porque no fundo ansiava por aquele beijo. Sentir o gosto dos lábios dele, depois de tanto tempo era devastador.
Queria sinceramente permanecer em seus braços, queria dizer que também o amava, mas não podia. Tinha que manter-se focada ao plano que traçara.
– Por favor major... – pediu o afastando – Não vamos confundir as coisas.
Como se um balde de água fria tivesse sido jogado sobre sua cabeça, Heinrich despertou. O que pensava que estava fazendo?
– Você tem que continuar dentro do caixote Anne, a tampa fica aberta, mas você tem que continuar aí.
Retomou a direção do veículo tentando ignorar a mágoa que tomou conta de seu peito ao ter sua declaração de amor recusada por Anne. Tinha achado que ela gostaria de saber.
Talvez ela tivesse se sentido do mesmo modo quando ele fizera todo aquele escarcéu por conta da gravidez omitida.
Procurava não pensar nisso, tentava se concentrar em todos os quilômetros que teria pela frente, nas horas de viagem que ainda restavam.
Vez ou outra a espiava pelo retrovisor, parecia tão menina que pensar que ela estava grávida de um filho seu era quase loucura.
Era como se a liberdade tivesse lhe devolvido verdadeira idade, apenas dezessete anos. Heinrich apertou o volante, sentia-se culpado, ela era tão nova.
Os olhos de gelo brilhavam, tão inocentes e cheios de expectativa que a cigana parecia ser uma criança.
Talvez fosse a luz diferente, ou o simples fato de terem deixado Auschwitz com sua sombra de morte para trás. Nunca tinha reparado em quanto Anne era jovem, o rosto ainda com reminiscências de traços infantis. Era só uma mocinha.
Tinha lhe feito mulher, lhe feito um filho. Estava certo?
– Vai demorar muito, não? – indagou ela suavemente.
– Sim, muitas horas. Só chegaremos pela manhã.
– Torno a agradecer major, por tudo o que está fazendo. Por se arriscar para me salvar.
Demorou a responder, ainda estava assombrando com a constatação da meninice dela, e incomodado por voltar a ser chamado de major.
– Não me agradeça – pediu num sussurro baixo – Você é o que mais importa agora...
***
Anne adormeceu deitada em seu caixote, não tinha dormido nada na noite anterior à fuga, estava cansada.
Obrigando os olhos a ficarem abertos, Heinrich continuava a dirigir, não havia feito mais nenhuma parada e nem faria. Só poderia parar ao chegar em casa.
Ainda se pegava olhando pelo retrovisor ou por cima do ombro, a fim de ver se Anne dormia bem.
A recusa dela em relação ao seu amor doía no peito, mas como não continuar amando-a se ela ressonava com a tranquilidade dos anjos, as mãos sobre a barriga, uma sombra de sorriso nos lábios.
Mal percebia a paisagem se transformando através dos vidros das janelas, só pensava em Anne, no filho que ela levava no ventre, na segurança que finalmente poderia lhes dar.
Não avisara à Nana que a levaria para casa, tampouco que iria para casa. Não pode, as cartas poderiam ser receptadas, alguém poderia lhe ouvir ao telefone, achou melhor não avisar.
Tinha certeza de que ela receberia Anne com os rechonchudos braços abertos, que daria a cigana todo o apoio e cuidado necessário.
E Liesel? Ora, Liesel certamente gostaria de Anne, afinal, se ele se apaixonara pela moça, sua filha haveria de adorá-la.
Sentia as pálpebras pesadas, os bocejos eram cada vez mais frequentes, e mesmo sob a possibilidade eminente de cair no sono, não diminuía a velocidade. Estava no máximo que seu carro poderia aguentar, 95km/h.
Forçava-se a ficar atento, tamborilava os dedos no volante para se distrair, já havia superado a maior parte da viagem, e Berlin estava logo ali, a fronteira entre a Alemanha e Polônia estava logo ali.
Lamentava ter de acordá-la, mas seria pior se simplesmente baixasse a tampa do caixote sem aviso.
– Anne...
Precisou chamar mais algumas vezes, de maneira lenta ela despertou, mas sentou-se rápida como um gato assustado.
– O que houve?
– Não houve nada, só te acordei para avisar que estamos chegando perto da fronteira. Precisa fechar a caixa mais uma vez.
Concordou bocejando e esfregando os olhos. Se era necessário o que poderia fazer? Tornou a deitar e puxou a tampa sobre si.
Olhando nervosamente para o caixote fechado Heinrich diminuiu a velocidade à medida que chegava perto da cancela. Quatro oficiais o esperavam.
– Pois não? – indagou um deles.
– Estou a caminho de Berlin, e gostaria de passar, se não se importa. – respondeu no tom mais amigável que conseguiu.
– Poderá seguir viajem assim que vistoriarmos o carro, senhor.
Veltheim sorriu, baixou o vidro e pôs a cabeça para fora da janela.
– Creio que não tenha me reconhecido.
O homem não esboçou nenhuma reação, mas o soldado ao seu lado deu-lhe uma leve cutucada.
– É o major Von Veltheim... – murmurou pelo canto da boca.
– Oh, perdão major! Eu realmente não o esperava por aqui e...
– Não se preocupe, não é usual que eu viaje de carro, hoje foi uma exceção.
– Ainda assim peço que me perdoe major.
– Já lhe disse para não se preocupar, estava apenas fazendo o seu trabalho, mas agora agradeceria se me deixasse seguir viagem.
– Claro senhor, pode seguir major.
Sorriu mais uma vez para o soldado e deu partida no motor. Tudo estava bem, faltava muito pouco para a real segurança.
***
Novamente obervava o sono de Anne pelo espelho retrovisor, tentando ignorar o seu próprio.
Berlin estava maravilhosamente próxima, logo poderia descansar em paz sabendo que Anne e o bebê estavam seguros. Logo poderia deitar e dormir sem a culpa de os estar condenando.
Antes que pudesse perceber, sentiu que estava adentrando a cidade, ainda adormecida naquela primeiras horas da manhã.
O alívio provocado pela paisagem berlinense era indescritível, havia conseguido, salvara Anne e seu filho sem prejudicar Liesel. Todos os que amava estavam e ficariam bem.
Agradecia a Deus por cada metro ultrapassado que o deixava mais próximo do lar, por cada suspiro de sono que Anne dava, na certeza de que ela estava salva.
Estava com um sorriso indissolúvel quando desceu do carro para abrir os portões de ferro de sua casa. Manteve-o ao voltar para o veículo, e permaneceu até que o houvesse estacionado nos fundos da casa.
Após a respirada mais longa que já dera na vida, Heinrich permitiu-se tocar as bochechas de Anne para despertá-la.
– Acorde Anne, chegamos... – sussurrou em seu ouvido – Está a salvo agora...
Notas finais
Pois bem, no fatídico dia 29, chego em casa e minha mãe me avisa que o computador pífou de vez.
Só não pirei completamente porque a história estava salva no Dropbox.
Não consegui postar antes, mesmo com a fic a salvo por conta da correria que se deu aqui em casa.
Já escrevi alguns outros capítlos à moda antiga (papel e caneta), e vou postá-os assim que for possível.
Creio que a situação se normalizará em breve, conto com o apoio de vocês, com sua paciência, e torço para que não tenham desistido de mim ou de "Bem Vinda ao Campo".
Obrigada por tudo,e novamente peço desculpas.
Beijos e até mais. ;)
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