Bem Vinda Ao Campo
56 A Noite Chegando ao Fim
Notas iniciais
Boa Leitura.
“- Eu sei de tudo Veltheim.”
O estômago de Heinrich revirou três vezes para em seguida despencar para o fundo da barriga quando ouviu aquilo.
– Sei que você, com a ajuda do médico, forjou a morte daquela cigana! Sei a que tirou daqui dentro daquele baú que levou no carro!
Por algum motivo que Heinrich não compreendia, o general falava muito baixo, em sussurros quase inaudíveis. E mais incompreensível ainda era ele só ter dito aquilo depois de tanto tempo.
– Aquela mulher te enfeitiçou, não sei o que ela fez, mas fez muito bem. Fez de você um tolo...
Parecia decepcionado, como se o fato de Heinrich ter se apaixonado pela cigana fosse muito mais grave que a fuga com ela do campo.
– Se ao acaso alguém soubesse, Liesel teria problemas.
– O senhor sabe, porque não tive problemas?
– A escondeu em Berlin, Veltheim? Se fez isso, devo dizer, foi genial.
– Porque não tive problemas?
– Diga, o que te levou a arriscar sua própria filha? Só uma paixão arrebatadora por uma cigana? Acho que não...
Löhnhoff balançou a cabeça negativamente, e logo seu rosto foi tomado por aquele sorriso esperto.
– Sua cigana não tem registros, exceto uma ficha provisória que encontrei nos arquivos do Dr. Krämer, e segundo essa ficha, a moça não foi esterilizada...
Enrolou as pontas do bigode vagarosamente, parecia muito satisfeito com suas conclusões.
– Ela estava grávida quando saiu daqui, não estava?
Ficou calado, ainda que Löhnhoff já soubesse de tudo, não queria confirmar. Simplesmente não podia confessar que era verdade.
– Responda-me o seguinte, a criança vingou? É um menino ou uma menina?
– Não faço idéia do que o senhor está falando.
– Ora faça-me o favor Veltheim, se fosse para te denunciar eu teria feito isso dois anos atrás.
– Senhor, esse assunto não faz o menor sentido e...
– Vou ignorar sua persistência em continuar a mentir para mim Veltheim. Preste atenção ao que eu vou dizer, sugiro que tire a cigana, a criança, e Liesel de sua casa em Berlin o quanto antes.
– Porque diz isso, senhor?
– Os russos estão chegando, e quando chegarem, famílias de nazistas dificilmente serão poupadas.
Confirmou com a cabeça espantado, não entendia porque o general ainda que sabendo de tudo não fizesse nada a respeito.
– Senhor, sei que não tenho o direito de questionar, mas porque não me denunciou como traidor?
O velho general endireitou-se na cadeira, parecia severo, tinha um olhar grave.
– Você, apesar de trair o Reich, é um dos melhores soldados que já conheci.
– Como isso pode ser possível?
– Seu dever é defender a pátria não?
– Sim senhor.
Uma sombra de sorriso percorreu muito rapidamente o rosto enrugado de Löhnhoff.
– Você está fazendo isso rapaz.
E aquela frase foi o mais próximo que o general Löhnhoff chegara de falar algo contra o Reich e o Führer.
– Mas agora, está dispensado. Tenho muito a fazer.
Com um misto de imenso alívio e profunda admiração pelo homem que tinha a sua frente, Heinrich levantou-se.
– Obrigado por tudo senhor. Devo dizer que recebi alguma punição?
– Diga que eu fui suficientemente ríspido.
– Sim senhor. Obrigado novamente.
– Pare de agradecer Veltheim... – pediu o general sorrindo – E agora responda-me, menino ou menina?
Viu-se parado ali, era no mínimo engraçado que aquele fosse o fim de tão turbulenta conversa.
– Um menino, senhor.
Löhnhoff soltou um som que lembrava riso e bufar ao mesmo tempo.
– Jamais tive um herdeiro, bom para você Veltheim, bom para você.
Heinrich sorriu assentindo com a cabeça. Saiu da sala sem se dar conta do olhar paternal que o general lhe dava.
***
Anne e Valkyrie tinham expressões sérias, estavam silenciosas desde o final da transmissão. O rádio já havia sido desligado, mas elas continuavam quietas esperando por sabe-se lá o quê.
– Mama... – disse a vozinha fraca de Liesel.
– Sim querida.
– Vamos ter que ir embora?
Os olhos da cigana aguaram por completo quando ela voltou-se para a filha, como dizer, como explicar para a menina a maldade dos homens?
– Meu docinho, porque acha que teremos de ir embora?
– Porque acho que essas pessoas de quem falaram no rádio são malvadas, e a senhora e o Wilhy sempre têm que ficar escondidos quando vêm pessoas diferentes aqui em casa...
Nunca Anne havia imaginado que a menina se atentaria para aquele fato, Liesel não tinha contato com as idéias nazistas ou com o preconceito gerado por elas, mas aparentemente percebera que por algum motivo sua mãe e seu irmão precisavam ficar no quarto quando por ventura alguém aparecia e que nunca ficavam no quintal da frente.
– Liesel, meu amor, talvez tenhamos que ir embora, talvez não. Vai depender do que o seu pai achar melhor, está bem?
– Mas mama, quando vamos saber?
As lágrimas que antes segurava caíram pelo rosto moreno. Liesel correu e abraçou a mãe que soltou um leve soluço.
– Vamos saber quando fora a hora querida.
Tentava em vão parecer forte, mesmo sabendo que estava desmoronando completamente.
A notícia de que os russos estavam avançando em território alemão era tão boa quanto inquietante. Anunciava o fim do Reich, mas por outro lado, o que esperar dos sovietes? Estariam seguros? A salvo?
Esperava ansiosa por alguma carta de Heinrich, mas dado o caos ocasionado pelas baixas e invasões que a Alemanha sofria, já não era mais possível contar com os serviços do correio.
E apesar da falta de comunicação com o marido, ainda que as coisas se tornassem cada vez mais difíceis, Anne ainda resguardava dentro de si um fio de esperança, cultivava no peito uma certeza de que Heinrich daria um jeito de salvar sua família e que no final tudo ficaria bem.
Buscava acalmar-se pensando que enfim, aquela longa e terrível noite estava prestes a acabar. O dia estava para nascer.
Notas finais
E em Berlin, a situação torna-se cada vez mais difícil...
-- X --
Pois bem, agora as explicações.
Além do fato de a faculdade absorver grande parte, para não dizer quase que a totalidade do meu tempo, ultimamente me senti um tanto quanto... desestimulada.
Entendam, o número de comentários não correspondem ao número de leitores, e não saber o que os leitores estão achando da história é bem triste.
Maaaaaas, resolvi chutar a melancolia e postar logo!
Melodramas à parte, espero que tenham apreciado o capítulo. ;)
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