Belos tempos.
8 Desencontros.
Notas iniciais
A tarde de domingo, foi muito triste com a partida do seu irmão de volta para a capital. Dessa vez, não foi possível dissuadir d. Constância de acompanhá-lo. Ela, juntamente com sua criada, a Luzia, rumaram para a capital em companhia de Albertinho. Sua mãe alegava que queria ver com os próprios olhos se o filho estava bem instalado, e também precisava fazer compras. Além de que desejava visitar sua irmã Carlota, que residia na capital. Sem argumentos, dr. Assunção foi obrigado a preparar a viagem para a esposa, mas se sentia incomodado em não poder acompanhá-la.
Após os dissabores dos preparativos da viagem, que Laura não pode acompanhar, por que ainda precisava fazer repouso, Dú voltou para o quarto a fim de lhe contar como fora a partida da sua mãe e de Albertinho e prepará-la para dormir.
__ Dú ... minha mãe não poderia ter ficado até eu melhorar?
A bondosa D. Lurdes, ficou sem palavras diante da mágoa que ouviu na voz de sua pequena criança.
__ Laurinha, ela quis apenas aproveitar o carro que levaria o seu irmão. E isso depois de seu pai garantir que você estava bem.
__ Não adianta mentir, Ba. Eu sei que papai não queria que ela fosse sem ele. Eu os ouvi discutindo daqui do quarto...
__ Minha princesinha... vamos fazer o seguinte: esqueça isso, o que importa é que você já esta bem melhor, amanhã poderá ir para a sua tão adorada escola e entregar aqueles lindos desenhos para o Edgar!
__ O quê?! Que desenhos? Não é nada disso Bá ...
__ Criança, pulemos essa parte, certo?! Você não largou mais esse caderno desde que leu a tal estória ... Sabendo como você desenha bem, eu já esperava que criasse algo para ofertar ao jovem Edgar.
Laura estava muito envergonhada, pois mesmo sendo a sua bá, ela não conseguia explicar a necessidade que sentia em retribuir o empréstimo do livro com algo que também fosse muito importante para ela.
Enquanto a arrumava para dormir, D. Lurdes conversava com a pequena Laura, dizendo-lhe que não havia nada de mais em retribuir o presente, e que era natural que a atenção que o Edgar estava lhe dedicando lhe despertasse bons sentimentos em relação a ele.
__ Ele parece ser um bom menino, Laurinha. Um pouco triste e com o olhar cansado, mas um bom menino, e um amigo é sempre uma benção. Agora, limpe essa cabecinha de tantos pensamentos e vá dormir, amanhã, você precisa levantar-se cedo.
Assim que d. Lurdes ajeitou as cobertas ao redor da menina, despediu-se com o costumeiro beijo em sua testa e saiu de mansinho do quarto.
O sol infiltrava-se tímido pelas frestas da cortina de renda da janela, mas foi o suficiente para despertar a jovenzinha que repousava tão tranquilamente.
Como seu uniforme encontrava-se, dobrado numa cadeira próxima a cama, Laura começou a preparar-se para o retorno as aulas depois de um final de semana prolongado.
Quando Du entrou em seu quarto, para acordá-la, encontrou-a já arrumada e a pentear os longos cabelos castanhos.
__ Bom dia Laurinha! Que maravilha, vejo que esta animada.... e o pé, como está?
__ Eu estou bem Bá. O pé melhorou bastante e já consigo até firmá-lo no chão ... veja.
Assim dizendo, ficou de pé para que D. Lurdes verificasse que ela já estava conseguindo apoiar-se sem dificuldades.
__ Foi chato ficar presa nesse quarto todo o feriado, mas pelo menos me recuperei.
Enquanto a ajudava a terminar de aprontar-se, Du ouvia atentamente a conversa animada de sua pequena menina, sobre o retorno á escola e o quanto estava feliz em poder ir. Ansiosa para reencontrar seus colegas e sua professora.
Já estavam descendo as escadas, quando Laura viu o pai, vindo em sua direção, com o semblante bem preocupado.
__ Bom dia Paizinho! Já estou descendo, e me sinto ótima!
__ Que bom querida, viu como foi melhor ouvir o seu velho pai e fazer repouso?!
__ Sim ...
__ Laura, sei que lhe disse que te levaria à escola hoje, porém aconteceu um acidente com um dos empregados agora a pouco e eu terei que ir com a charrete até lá pra ver o que foi ... Caso seja preciso tenho que levá-lo ao posto médico, para medicá-lo, não tenho soro aqui na fazenda, e parece que ele foi mordido por uma cobra venenosa.
Laura lutava contra as lágrimas de decepção por não poder ir à escola, pois com a partida da mãe na véspera, ficara apenas uma charrete e ela não poderia exigir que o pai desse prioridade a ela e deixasse o pobre homem ferido e sem assistência.
__ Tudo bem meu pai, eu entendo... Não se preocupe, ficarei bem.
Dando um suave beijo na testa da filha, Dr Assunção, despediu-se prometendo voltar assim que possível.
Como não restava outra alternativa, Du retornou com a menina para o quarto. Já no fim da manhã, Laura pediu que ela a levasse para o jardim, para respirar um pouco, e esperar pela hora do almoço.
Atendendo ao seu pedido, D. Lurdes, preparou o banco sob uma frondosa amendoeira, que lhe proporcionaria uma sobra fresca e perfumada, no jardim na lateral da casa, onde as rosas cresciam em profusão de cores e cheiros e era possível ter uma bela vista de boa parte da fazenda.
Assim que Laura se acomodou, confortavelmente no banco do jardim, Dú retirou-se a fim de resolver os últimos detalhes do almoço e verificar se havia chegado alguma noticia do empregado ferido ou do pai de Laura.
Laura, agora sozinha, pensava se sua amiga iria estranhar sua ausência, já que ela havia lhe dito que iria à escola. Envolveu-se em alguns devaneios e logo depois retomou a leitura do livro que havia pego na biblioteca, ou melhor que Edgar havia procurado para ela... “a revolta das bruxinhas”.
A estória era envolvente e logo se viu perdida em meio àquelas palavras e esqueceu-se de seus probleminhas...
Por Edgar.
Edgar levantara-se cedo naquela manhã de segunda feira, ansioso para ter notícias de Laura e também para saber se ela havia lido o seu livro, e qual a sua opinião.
Atormentara-se todo o domingo, pois concluiu que fora precipitado em entregar-lhe algo que era tão valioso para ele. E se ela não gostasse, ou pior, se fizesse caçoada de sua escrita? Isso o estava martirizando... A Laura com toda certeza tinha acesso a bons livros, ele até ficara surpreso por ela procurar um livro na pequena biblioteca da escola, mas como ela mesma disse, foi uma indicação de uma amiga. Pensou em ir até a fazenda, novamente, para buscar o livro, mas a vergonha não permitiu, e como não tinha muito que fazer, pois o pai não abria a mercearia aos domingos, brincou com o irmão, conversou com a mãe enquanto a ajudava, e por fim, recolheu-se ao seu quarto, tentou ler um pouco, mas não conseguia concentrar-se. Saiu, para encontrar-se com os amigos na pequena praça, no vilarejo, mas a conversa e brincadeiras deles também não lhe animaram. Ele gostaria de poder conversar com alguém sobre o que estava acontecendo, mas com certeza seus amigos não entenderiam e pior, ele seria motivo de piada por muito tempo.
Qual não foi sua decepção, quando deu o horário de inicio das aulas e a Laura não apareceu. Ele viu de onde estava, a menina que sempre estava junto dela, parecendo que a esperava, mas como Laura não veio dirigiu-se sozinha para a sala de aula.
A manhã não passava, o tempo parecia que estava se arrastando... O jovem estava aflito para que desse o horário do fim das aulas e ele pudesse descobrir o que acontecera afinal. Infelizmente, naquele dia as lições passaram completamente despercebidas para o garoto, que não conseguia tirar o peso do arrependimento de ter entregado suas preciosas palavras para uma menina que ele mal conhecia!
Mas, por fim, o sinal tocou... ele não prestou atenção em qual música a diretora D. Ana escolhera naquele dia para indicar o término das aulas.
Assim que foi possível, Edgar se despediu de seus amigos e rapidamente rumou para casa.
Em casa, e aguardando o chamado da mãe para o almoço, Edgar pensava se deveria ou não ir á fazenda para ter noticias de Laura. Sua mãe o encontrou completamente absorto nessa dúvida, quando foi chamá-lo para almoçar.
__ Edgar...
Como o filho não respondeu e parecia muito concentrado olhando para um caderno sobre a mesa, D. Margarida entrou no quarto, que estava com a porta aberta e aproximou-se devagar. Mas ainda assim viu o susto que o seu menino levou ao ver que ela estava ali.
__ Mãe!
__ Dou uma moeda para descobrir o que tirou você do ar assim ...
Edgar tentou disfarçar.
__ Ora, minha mãe, não é nada, estou pensando sobre um assunto que discutimos hoje na escola ... por isso me distraí.
__ Que assunto?
__ Vamos almoçar?! Estou com muita fome!
__ Filho, você sabe que pode contar comigo, não sabe? Essa sua cabecinha esta preocupada com alguma coisa, disso eu tenho certeza ... talvez eu possa te ajudar...
Edgar lhe deu um pequeno sorriso, e os dois já saíam do quarto.
__ Não é nada mãe, não se preocupe.
D. Margarida, como boa mãe, não conseguiu não se preocupar, e algo lhe dizia que o que incomodava o seu filho era algo relacionado com a menina que ele socorrera uns dias atrás.
Já era fim de tarde, quando Edgar, se viu com todos os seus afazeres prontos: suas tarefas da escola e a incumbência de ajudar o pai a arrumar as prateleiras da mercearia.
Assim que sua mãe lhe deu a permissão ele foi buscar o seu cavalo e saiu num passo lento. Quando deu por si já estava nos limites da fazenda Laranjeiras.
Dirigiu-se então ao barracão onde sabia que deveria encontrar o Sr Benjamim, nesse horário. Mas, não havia ninguém lá, e isso era incomum. O Sr Benjamim, sempre se reunia com os empregados da fazenda no fim da tarde para organizar o trabalho do dia seguinte. Edgar, por demonstrar interesse em explorar a gruta que havia nas terras da fazenda, acabara por se aproximar do Sr. Benjamim, quando fora até ele pedir autorização para passear pelas terras da fazenda e o que conforme ele mesmo dizia, lhe agradava ver um jovem com sede de aprender. E desde então, sempre que podia, Edgar ia a fazenda para conversar com o administrador.
Edgar esperou alguns minutos e quando viu que ninguém apareceria mesmo, dirigiu-se para o caminho de volta. A trilha que ele pegou para alcançar a estrada permitia ver a frente da casa da fazenda, e lhe pareceu que havia visto alguém debruçado sobre uma das janelas a olhar o por do sol... Ele ficou ainda mais algum tempo a observar a pessoa, e imaginou se seria a Laura. Mas estava muito longe e não dava para ver direito. Assim, logo que a pessoa entrou, ele seguiu seu caminho para casa.
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