Belos tempos.
3 Acidente ou providência?
Notas iniciais
Um sol forte e brilhante, saudou aquela manhã de sábado, o primeiro dia do longo feriado que teria pela frente. Mas para Laura o não começou muito bem. Sua melhor amiga, Tais, foi com os pais para a capital, visitar a avó.
Ela estava muito chateada, porque além de ficar sem a sua amiga também não teve permissão de sair para andar com seu pônei. Nem mesmo o seu pai, sempre tão companheiro, quis tomar-lhe o partido e pelo contrário reforçou os motivos de sua mãe para não deixá-la sair.
__ Laura, o dia amanheceu ensolarado, mas tem chovido muito e as trilhas estão escorregadias. Não é seguro você sair, mesmo que seu irmão vá com você. Dissera o seu pai, ganhando um sorriso cúmplice de sua mãe.
__ Minha filha, amanhã, se continuar com tempo firme, e seu pai achar que é seguro, deixaremos você andar um pouco no seu pônei, esta certo?
__ O que posso fazer não é? A não ser obedecer. Meu alento é que pelo menos terei a companhia de Albertinho. Com licença.
Subiu as escadas, ainda contrariada, mas estava disposta a procurar outro passatempo. Ao procurar pelo irmão em seu quarto, viu que ele já não estava lá. E a Luzia, a empregada pessoal de sua mãe, lhe informou que ele levantou cedo e que já saiu.
Ainda mais amuada, foi para o quarto, tentar ler um pouco. Ao olhar pela grande janela de seu quarto, sentiu-se tentada a sair para um passeio ao ar livre, mesmo que a pé. E pensando assim, trocou-se com uma roupa mais apropriada para o que intentava fazer e saiu, sem chamar atenção sobre si. Se a visse, provavelmente sua mãe arranjaria um jeito de impedi-la de sair, ou encontraria alguém para acompanhá-la. E não era isso que ela queria....
Resolveu passar no estábulo primeiro e ver como estava seu querido pônei, Trovão. Como não havia nenhum cavalariço por perto, foi até o pônei, deu-lhe uma maçã, que retirou do cesto que estava na baia.
__ olá amigão! Como está.... triste né? Mas não tem jeito, acho que não poderemos sair hoje, quem sabe amanhã?!!
Enquanto falava, alisava a crina do pônei e logo pegou uma grande escova para massageá-lo, coisa que muito agradava seu forte Trovão. Passou um bom tempo ali com ele, jogando conversa fora, mimando-o e como o sol se mantinha firme e dourado como nos livros que lia, Laura resolveu preparar o trovão e dar uma voltinha com ele, pelos arredores.
Logo saiu a um manso galope e sua ideia era ficar pelo pátio mesmo, assim não correria o risco de ver a eterna lei da desobediência cobrar-lhe o preço. Sempre lhe diziam que quando desobedecemos aos pais, algo de ruim nos acontece.
Era tão libertador sentir o vento limpo soprar-lhe no rosto, o calor do sol a tocar-lhe os braços e aquecer todo o seu ser com aquela energia maravilhosa. Nesses momentos ela sentia-se verdadeiramente parte daquele lugar. E em seu intimo sabia que seria muito doloroso ter que se afastar daqueles campos e daquela vida.
Ao chegar numa das fronteiras dos pastos com a mata, é que percebeu que já estava muito distante do pátio da fazenda, resolveu apear só um pouquinho para usufruir da quietude daquele lugar e deixou o Trovão pastando próximo dela. Um tempo depois, algo na mata assustou o pônei e ele saiu em disparada. Ao levantar-se rapidamente na tentativa de reter as rédeas da montaria, Laura acabou por prender o pé no meio de umas pedras e logo sentiu a pontada de dor subir do pé para a perna.
Seus olhos encheram-se de lágrimas, tamanha a dor que sentia. O medo gelou-lhe o sangue... e se fosse uma cobra? Pensou. Mas lembrou-se que calçara as botas de cano alto, mesmo estando de vestido. Tentava desenganchar o pé do estreito veio entre as pedras, e depois de muito esforço, conseguiu.
__ Ai!
Assim que tentou pisar o pé, que havia ficado preso, perdeu o equilíbrio e foi obrigada a sentar-se na relva. Por segurança, afastou-se das pedras, onde ela poderia ter outra desagradável surpresa.
Retirou a bota, e nem foi preciso livrar-se da meia para ver que algo sério havia acontecido. Conseguia mexer o pé, então não o quebrara. Morando na fazenda, era necessário aprender algumas coisas, e sua bá, sempre dizia que a melhor proteção era sempre o conhecimento. Por isso, fazia questão, que mesmo escondido da D. Constância, a Laura aprendesse algumas coisas, que poderiam lhe servir ou ajudar alguém numa situação de risco.
Laura daria tudo para não ter desobedecido aos pais. Não avisara a ninguém que ia sair. Todos acreditavam que ela estava no quarto lendo. E agora, o que faria?
Tentou levantar-se sem a bota, mas a dor era insuportável. Apesar de não parecer que tinha quebrado, não iria conseguir andar com o pé naquele estado. E o seu corajoso Trovão não dava sinal de voltar. Provavelmente voltaria para a fazenda e aí seria sua salvação e sua perdição. Descobririam que ela havia saído. Não queria nem pensar no castigo que teria!
Estava saltitando, a procura de um tronco caído que pudesse lhe servir de apoio, quando ouviu um barulho vindo de dentro da mata.
Seu pequeno coração, que tentava ser corajoso e não se derreter em lágrimas, pois já havia um bom tempo que estava ali, não suportou mais esse aperto e ela soltou um grito, cheio de pavor. Tapou os olhos com a mão, pois lhe faltou coragem para ver o que teria que enfrentar...
__ Eia!! Calma garoto!
Não é possível! Pensou Laura. Essa voz.... é ....
Edgar, assim que prendeu as rédeas de seu cavalo e o acalmou depois do grito que ouviram, correu ao encontro da Laura.
__ Laura... o que vc esta fazendo aqui sozinha? O que aconteceu?
Ele sentiu um pavor, como nunca antes havia experimentado.
__ Algo assustou o meu pônei e na confusão eu acabei por machucar o pé, daí não consegui voltar para casa. Ah, Edgar eu fiquei com tanto medo quando ouvi o barulho vindo da mata, ....
Ela não conseguiu mais controlar e o choro que vinha prendendo por pura teimosia, desceu em grossas lágrimas.
Edgar, assim que a viu assustada, nem pensou no que estava fazendo e a pegou no colo. Ele não era tão mais velho assim do que ela, mas havia saído aos homens da família de sua mãe. Era muito grande para sua idade. E o trabalho já o estava deixando forte.
Acomodou a Laura, numa grande pedra que estava próxima e abraçou-a, tentando acalmá-la.
__ Sshii... calma Laura. Está tudo bem agora. Estou a cavalo e vou te levar para casa. Não se preocupe!
Aos poucos Laura foi se acalmando, e o que sentia era a sensação reconfortante do abraço do Edgar... o medo aos poucos dava lugar a um formigamento em todo o seu ser, e aquele sentimento era algo desconhecido para ela.
Edgar delicadamente acolhia as lágrimas que ainda restavam no rosto de Laura, com a ponta dos dedos. Quando ela se mostrou mais calma, ele logo ficou encabulado e afastou-se.
__ Edgar, eu fui uma tola .... Insisti em sair mesmo sem autorização e ainda fui descuidada! Não faço ideia de para onde foi o trovão.
__ Que trovão?
__ É o nome daquele pônei medroso, que eu insisto em chamar de meu.
Ele sorriu e disse:
__ Não fique chateada com ele, você disse que ouviram um barulho que o assustou, a bobagem foi você ter deixado as rédeas dele soltas...
Laura agora se mostrava mais segura e não conseguiu controlar seu gênio.
__ Vai brigar comigo agora. É isso?
__ Não. Claro que não! Só estou dizendo que não vai adiantar nada você ficar com raiva de sua montaria. O melhor a fazer é aprender com o ocorrido... se é que você me entende.
Enquanto conversavam, Edgar procurava algo por entre a mata...
__ O que vc esta procurando? Perdeu alguma coisa ai?
__ Não, sua bobinha.... mas ..... Achei!
Ele recolheu algumas folhas, macerou-as usando duas pedras e colocou sobre o pé machucado da Laura.
__ Isso. Fica quietinha um pouco. Pronto! Essas folhas vão diminuir a dor um pouquinho.
__ Menino, vc me surpreende a cada vez que nos encontramos! Trabalha na biblioteca, entende de plantas, qual será a próxima surpresa?
Eles entabularam uma conversa leve e agradável, enquanto o Edgar, colocava o emplastro no pé da Laura e logo em seguida pegava-a no colo novamente para colocar sobre o cavalo.
Enquanto ele a acomodava sobre a cela, Laura voltou a sentir-se formigando. Era uma sensação agradável mais assustadora, porque era desconhecida e estava relacionada com esse menino que também era quase um desconhecido.
Por sua vez, Edgar também estava perdido em meio aos sentimentos que a proximidade dela lhe provocava. Até pouco tempo atrás, não suportava nem ouvir a voz de uma menina, e agora vinha se derretendo a cada vez que estava perto dessa menina em particular. Isso provavelmente não era bom.
__ Agora vamos. Seus pais devem estar a sua procura. Provavelmente sua montaria voltou para a fazenda sozinha.
__ Tem razão. E muito obrigada pelo cuidado, essas folhinhas que você colocou no meu pé, realmente trouxeram um alívio.
__ Disponha.
Ele não conseguia parar de olhar para ela. Aqueles eram os olhos doces que vira na diretoria, naquela manhã chuvosa. E pareciam prendê-lo, como um ímã. Viu que ela estava ficando sem graça, com seu olhar insistente, então tratou de montar no cavalo, tendo a Laura à sua frente.
__ Você deve estar com sede. Quer um pouco de água, tenho aqui no cantil.
__ Sim, obrigada!
Laura tomou um pequeno gole, e devolveu-lhe o recipiente. Perguntando:
__ O que você estava fazendo dentro da mata? Sua casa é aqui perto?
__ Não, moro no vilarejo, meu pai tem uma mercearia lá.
__ Mas então, vc está muito longe de casa!
__Estou. Eu gosto de andar pela mata, e explorar. E aqui nas suas terras, há uma pequena caverna e sempre que posso venho dar uma olhada.
__ Caverna, aqui?! Nunca soube que tivesse uma!
__ Tem uma, e o lugar onde ela está é lindo. Você precisa conhecer!
__ Não sei não, depois de hoje, acho que ficarei de castigo para sempre.
Edgar mantinha o cavalo, num ritmo leve e confortável. Não queria que o passeio acabasse. Era muito bom tê-la por perto, mas estavam próximos da casa da fazenda, e logo a avistaram.
__ Bom, estamos chegando...
__ Olhe ali, acho que vem vindo um grupo a cavalo. Disse Laura.
O pai já havia dado pela falta da filha e imaginou que ela houvesse saído, mas ficou preocupado quando o cavalariço veio lhe dizer que o pônei de Laura não estava na sua baia e Du, havia lhe dito que não via Laura desde a hora do desjejum. Já estava saindo de casa quando viram o Trovão, pastando tranquilamente próximo á casa. Então, ele sentiu o gelo do pavor tomar contar do seu ser. O pônei voltou sem a sua filha. Tinha medo até de pensar no que poderia ter acontecido com ela. Tratou de reunir alguns empregados e organizou-os de maneira a cobrirem a maior área possível, era urgente encontrar a Laura antes que Constância retornasse da visita que fora fazer a sua tia, no vilarejo. Já estava saindo a galope, quando viu ao longe, o que parecia duas pessoas num cavalo. Virou o cavalo para aquele rumo e o seu grupo foi ao encontro deles....
Fale com o autor