Belos tempos.
4 Um alento para o castigo.
Notas iniciais
Dessa vez não teria escapatória, sua mãe iria matá-la. Simples assim. E ainda contaria com a total ajuda de seu pai. Ele era sempre atencioso, e gostava de ouvir-lhe a opinião, mas sempre dizia que confiança era algo de valor inestimável e que portanto não deveria ser quebrada. Não só descumprira a ordem de ficar em casa, como se colocara em perigo.
Laura estava a pensar sobre isso enquanto se aproximavam cada vez mais, do grupo de cavaleiros que provavelmente estava saindo em seu socorro.
O Sr Assunção desce do cavalo rapidamente, assim que seu cavalo fica emparelhado com o de Edgar.
__ Mas o que é isso? Laura o que houve com vc? Quem é esse... rapaz?!
__ Calma pai. Já está tudo bem...
__ Como está tudo bem? Você perdeu o juízo? Eu fui muito claro com você. Não dei permissão para que saísse, pior, saiu sem avisar a ninguém. E ainda volta machucada! Desça já desse cavalo.
O tom de voz de seu pai era um bom indicador de que ela estava com sérios problemas. E ficariam piores quando a mãe a visse.
Edgar e Assunção tomam a mesma iniciativa de ajudar a pequena Laura a descer do cavalo, mas com o olhar que o pai da menina lhe lançou, Edgar resolveu desistir do movimento.
Com Laura já no chão, o pai se abaixa para olhar o ferimento em seu pé.
__ Você consegue mexer o pé minha filha?!
__ Consigo pai ... mas dói ainda.
__ Vamos para casa, lá olharei melhor o que lhe aconteceu e você pode se preparar ....
O Sr Assunção já se virava para colocar Laura sobre seu próprio cavalo, quando o Edgar ainda montado, se aproximou.
__ Senhor, não foi culpa da Laura. A montaria dela se assustou e fugiu. Ela não tinha como voltar para casa.
Assunção não estava muito satisfeito com a presença daquele rapazinho. Mas suas boas maneiras lhe obrigava a agradecer-lhe por ajudar sua filha.
__ Você é ... ?
__ Edgar. Pai ele se chama Edgar, e estuda na sua escola.
__ Estou conversando com o rapaz, Laura, por favor, .... depois conversaremos. E já cansei de lhe dizer que a escola não é minha.
Agora olhando para Edgar continuou:
__ Então você estuda na Escola do projeto. E o que estava fazendo dentro dos limites de minhas terras?
__ Me desculpe senhor. Eu tenho autorização do seu administrador, o Sr Benjamim, para passar por suas terras. E por coincidência estava por perto quando vi a Laura. Eu a conheço da escola. Eu a estava levando para casa, quando o senhor nos encontrou.
__ Sim isso eu pude ver. Bom meu rapaz, antes de qualquer coisa tenho que lhe agradecer. E depois, em outra oportunidade, conversaremos melhor, sim?
__ Como o senhor quiser.
Seu olhar triste em direção a Laura deixou claro o quanto ele estava preocupado com o castigo que porventura ela levasse. Mas ele não poderia fazer nada, além de acenar-lhe em despedida.
Laura viu o Edgar partir com o coração apertado, era bom conversar com ele, tê-lo por perto e agora com a partida dele estaria entregue as reprimendas do seu pai. Por mais que o Sr Assunção fosse compreensivo, essa ele não iria perdoar com facilidade.
O Sr Assunção notou aquela troca de olhares de despedida e não ficou nem um pouco satisfeito, teria que descobrir quem era aquele moleque que estava a cercar a sua filhinha.
Laura seguia com seu pai, imersa em pensamentos, pois achou melhor não falar muito, ou poderia deixar o pai ainda mais bravo.
Chegando diante da escadaria da casa grande, o pai a ajudou a descer do cavalo e levou-a no colo para dentro. Sempre cheio de cuidados, ele a ajudou a sentar-se no grande sofá, cor de vinho, que dominava a sala. Laura nunca gostou muito daquela sala .... ela lhe dava medo, não sabia explicar bem o porque. Mas pelo jeito, era ali que o seu pai iria examinar o seu pé ...
__ Laura, sua mãe ainda não chegou da visita que foi fazer. Por isso serei breve e espero que você não repita este ato de rebeldia.
Novamente aquele tom, que raramente o pai usava com ela, mas que ela conhecia muito bem, pois ele parecia guarda-lo para situações criticas. Ele rapidamente, retirou os restos de folhas que ainda estavam em seu pé, limpou-os, aplicou um outro remédio, de odor bem desagradável, e enrolou uma faixa sobre a área machucada.
__ Pai, eu não tinha a intenção de ir longe, e realmente não fui muito distante, mas algo assustou o Trovão e ele fugiu e me deixou para trás.
__ Não precisa repetir a estória que seu amigo contou. Não me interessa, como aconteceu, o que me importa é que eu fui claro com você sobre o perigo de sair hoje e você não me deu ouvidos. Como quer que eu confie em você assim? Tem ideia de quantos perigos poderiam ter te assolado nessa sua aventurazinha?
__ Acho que sim. Me desculpe. Prometo que nunca mais farei algo assim.
Seus olhos já estavam marejados de lágrimas, mas não queria derramá-las na frente do pai, por isso passou as mãos rapidamente sobre os olhos para tirá-las.
__ Promessas são fáceis de serem feitas, Laura, o difícil é cumpri-las. Espero que você não me peça para sair de casa nos próximos dias, e agora vou levar você para o seu quarto e a D. Lurdes irá te ajudar. Por enquanto não direi nada a sua mãe, ou terei o desprazer de ouvi-la me culpar por ser benevolente demais com você. Agora vá, e pense muito em tudo o que aconteceu. Depois conversaremos mais. E não coloque o pé machucado no chão, até que eu diga que sim. Entendeu Laura?
__ Sim Senhor.
Sem mais palavras, o Sr Assunção a levou para o quarto e deixou-a entregue aos cuidados de sua babá. Quando viu o pai sair e fechar a porta, com o semblante visivelmente magoado e por sua culpa, Laura não conseguiu conter as lágrimas e chorou. Acalentada pela sua adorável Du, acabou por dormir com a cabeça em seu colo.
Quando acordou, já estava escuro e se viu agasalhada em sua cama com sua boneca preferida ao lado. Pouco tempo depois Du entra bem devagar no quarto, para ver se sua menina estava dormindo ainda ...
__ Já acordei Du, pode entrar. E muito obrigada pelo seu colinho, eu estava precisando mesmo viu!
Sentou-se na cama e com a ajuda de sua ba, ajeitando os travesseiros, recostou-se.
__ Imaginei que estivesse acordada ou acordando .... você dormiu a tarde toda minha pequena! Como esta se sentindo? E o pé, ainda dói muito?
__ Não sinto muita dor, apenas um pequeno desconforto quando mexo o pé .... não foi nada grave Du, você mesma viu meu pai dizendo. Minha mãe já chegou Du?
__ Já ... chegou, e não sei como, descobriu o que tinha acontecido com você, e acabou por discutir com o seu pai. Agora ele esta na biblioteca, todo carrancudo e sua mãe já se recolheu dizendo que está com enxaqueca.
__ Ai meu Deus! Olha só o que eu fiz ! Eles já brigam tanto e eu ainda fui arrumar mais motivo!
Segurando a mão da menina, D. Lurdes responde:
__ Laurinha, você melhor do que ninguém sabe que eles não precisam de motivos para discutir. Se não fosse essa sua peraltice, seria outra coisa qualquer. Não se preocupe, daqui a pouquinho eles já estarão bem. Mudemos de assunto agora. Tenho uma encomenda para você.
D. Lurdes diz, como quem quer ver além do que estar para ser visto ...
__ Encomenda para mim? O que é? Quem mandou?
A curiosidade da menina logo suplantou a preocupação com os pais e ela estica as mãos para que a baba lhe entregue a tal encomenda.
__ Sabe que eu gostaria de entender isso também!! Quem mandou? Você vai me contar quem é esse Edgar ou terei que guardar a encomenda até que o faça?
__ O Edgar? Mas ... não estou entendendo ....
__ Mocinha, quem faz perguntas aqui sou eu. Quem é Edgar?
Laura olhou pensativa para D. Lurdes, sem saber direito o que dizer, já que nem ela sabia a resposta ...
__ É um menino que eu conheci la na escola, e coincidentemente ele estava por perto hoje quando me machuquei. Foi ele quem me trouxe para casa. Não sei se posso chama-lo de amigo .... conheço-o a muito pouco tempo.
__ Vamos Laurinha, você pode fazer melhor do que isso! Diga-me como o conheceu? Onde ele mora, de quem é filho? Vamos menina, não tenho o dia todo!
Ela fazia cócegas em Laura, que nunca resistia a esses ataques e sempre dava boas gargalhadas, e dessa vez não foi diferente. Logo, elas já conversavam num tom de segredo e Laura contou para a sua Du, como e onde conhecera o Edgar. E como foi desastroso a primeira vez que eles conversaram.
__ Ora, ora, vejo que esse tem um gênio que rivaliza com o seu! Que interessante! Então ele ajuda na biblioteca da escola também ... me lembro de ver você conversar com um garoto dia desses na biblioteca, então é ele!
__ Isso mesmo! Agora você pode por favor, entregar a encomenda que ele me deixou!
__ Sim senhora! Mas veja lá, eu sou mais esperta que o seu pai, e estou de olho em você, viu mocinha! Aqui está. Não sei do que se trata porque não li, mas espero que me diga!
__ Sim, sim, sim .... agora me dê licença. Faça a gentileza de trazer algo para eu merendar, me lembrei agora que estou com muita fome.
Laura guardava o pedaço de papel com ambas as mãos, sobre o colo enquanto via a ba sair do quarto, rindo da sua reação. Afoita, assim que ouviu a porta ser fechada, ela abriu cuidadosamente a folha que fora dobrada como se fosse um botão de rosa ... e leu.
“ Laura,
Fiquei preocupado com você. Mas achei melhor não aparecer em sua casa, tendo visto que seu pai não me receberia de bom grado. Espero que ele não tenha sido muito severo, e também que você entenda o quanto é perigoso esse tipo de passeio. Seu pé ainda dói muito? Amanhã eu tentarei deixar um livro meu, de que gosto muito, para lhe fazer companhia, enquanto você melhora.
Edgar.”
Um lindo sorriso brilhava em seu rosto, quando terminou de ler o pequeno bilhete. Ela tentava em vão, refazer as dobras que reconstruíram o botão de rosa, mas foi inútil...
Guardou a folha, dentro de seu caderno de desenhos, e rapidamente lhe ocorreu que poderia escrever uma resposta para entregar ao Edgar quando ele viesse trazer-lhe o tal livro. E assim fez.
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