Belo Vestido

3 Parte I - Capítulo 3


Notas iniciais
Meus amores e minhas amoras. Neste capítulo farei o enorme agradecimento à MBS, que me encheu de alegria ao ser a autora do primeiro comentário (de muitos, acredito eu). Esse capítulo é dedicado a você, coleguinhaaa. Aproveitemmm

POV Nick

Termino de limpar meu pé, deixando o pano no tanque e vou para a cozinha, de onde sinto um cheiro de lasanha. Quando chego lá, Pat está abraçando minha mãe por trás, ela está com a cabeça virada, o beijando. Me sento na cadeira e limpo a garganta para dizer "Oi? Cheguei! Arrumem um quarto!".

— Está com fome, Nick? — Minha mãe tenta disfarçar enquanto passa as costas da mão sobre a boca.

— Sim. – Respondo e ela me passa um prato, que fico girando nos dedos.

Percebo que a menina trocou de roupa, pois agora está com um short. Ela se senta ao meu lado, e não sei por que, mas ajeito a postura quando ela o faz.

— Sinto muito ter que fazer você trocar de roupa, Chris. — Minha mãe se desculpa também notando o short.

— Já disse que não foi nada, Mônica.

— O que aconteceu? — Pergunto tomando um gole de suco.

— Derramei um copo disso aí no colo da Chris. — Rio e viro a cabeça um pouco para o lado dela, dando outra olhada nas suas pernas.

— Podem ficar aí conversando, se quiserem, mas eu vou comer. — Pat pega um prato e se serve. Faço a mesma coisa. Chris fica atrás de mim, e esperamos Pat se servir. Minha mãe também pega um prato, e quando Pat sai e estou prestes a pegar a espátula, ela me interrompe:

— Primeiro as damas, Nick. — fala de um jeito como se eu fosse o pior cafajeste do mundo e entra na frente. Será que agora Mônica acha que eu vou ficar estendendo o tapete só porque a garota chegou? Quando minha mãe acaba, Christina olha para mim e eu faço sinal com a cabeça para que se sirva. A mãe passa por trás, dá dois tapinhas nas minhas costas, e vai se sentar na sala, com Pat. A menina sussurra um "obrigada" e passa na minha frente. Ela termina de pegar e eu me sirvo e depois volto ao meu lugar. Ela para na porta, com o prato na mão.

— Não vai lá pra sala? — pergunta. Faço que não com a cabeça. Ela fica parada, como que pensando.

— Acho que vou comer aqui na cozinha mesmo. — diz para os dois. Então vem e se senta de frente para mim. Não digo nada.

POV Christina

Começamos a comer em silêncio. Ele tem uma cara um pouco carrancuda e apenas encara o prato. Ao perceber que estou olhando para ele, levanta os olhos a mim, e novamente sinto medo do seu olhar.

— Escuta, a gente não deveria se estranhar logo de cara. — falo casualmente.

— O quê?

— Só acho que talvez estejamos muito desconfiados, sabe? — Ele me encara por um tempo.

— Talvez. – é tudo o que ele responde.

Ele termina de comer antes de mim, leva o prato até a pia e sai sem dizer nada. Termino algum tempo depois, e faço o mesmo. Quando passo pela sala, meu pai e Mônica estão se beijando. Fico sem saber o que fazer então apenas subo as escadas de cabeça baixa.

— É melhor ir se acostumando. Eles fazem isso o tempo todo, em todo lugar. — Nick estava em pé no topo da escada, escovando os dentes ao lado da porta do banheiro.

— Devo ficar preocupada? – Puxo assunto.

— Acho que não. – Ele se vira à esquerda para cuspir na pia. – É só fingir que não está vendo e ouvindo nada. – Apesar de ainda de uma maneira estranha, acho que esse é o jeito dele de começar a ser simpático.

— Anotado. – sorrio e entro no quarto.

POV Nick

Termino de escovar meus dentes e me dirijo até meu quarto no fim do corredor, mas no meio do caminho vejo a porta do quarto da garota entreaberto e escuto um som vindo de lá. Chego perto e coloco a cabeça para dentro. Ela está com fones grandes cor de rosa dançando enquanto coloca algumas peças de roupa no armário. Ela canta alguma coisa que não consigo identificar sem perceber que estou ali. Rio baixinho. Ela se vira para pegar alguma coisa em uma mala que estava atrás dela, e então me vê.

— Espiando propriedade alheia, Nick? — Diz tirando os fones, um pouco corada.

— Só vendo como ficou o quarto. — Respondo olhando pela primeira vez as paredes.

— Você não tinha visto ainda? — Pergunta como se estranhasse.

— Não me deixaram entrar aqui. Eu não sabia o que era, achei que fosse alguma pintura nova da minha mãe, mas agora entendi que é porque era o quarto de outro ser humano.

— Pera, você não sabia que eu estava vindo? – balanço a cabeça negativamente e ela parece ficar chocada.

— Relaxa, não é como se eles tivessem vergonha de você, nem nada. É só que ele não queriam me sobrecarregar de informações. Eles ficaram noivos há apenas 2 meses, etc. – dou de ombros.

— Entendi... Pode entrar se quiser ver. — Convida meio incerta.

— Não quero invadir vossa privacidade. — Faço uma reverência e saio.

POV Christina

São mais ou menos cinco da tarde e estou quase acabando de colocar tudo em seus novos devidos lugares quando Mônica bate na porta.

— Oi Chris. Como está indo?

— Indo... — respondo um pouco desanimada ao ver que ainda falta uma mala gigante.

— Cansada? — ela sorri amigavelmente.

— Um pouco.

— Patrick vai comprar alguns materiais que faltam para a piscina. Pensei que poderíamos dar uma passada no shopping. O que acha?

— Claro.

— Ótimo. Estarei esperando lá em baixo. — ela sai.

Começo a procurar um tênis. Como que uma ironia do destino, a mala que faltava era a que estava com os calçados, então tenho que procurar na bagunça. Acho o primeiro pé.

— Cadê, cadê, cadê você, meu bem?

— Costuma falar sozinha? — Nick me surpreende parado na porta com os braços cruzados. Finalmente encontro o outro.

— Achei! — me levanto calçando o par direito em pé, tentando me equilibrar. — Só às vezes. — brinco andando com um pé calçado e o outro não até a porta. – E você costuma ficar na porta do quarto das pessoas? Me ajuda aqui. – peço estendendo uma mão pra que ele me ajude a me equilibrar e eu consiga calçar o outro pé.

— Só quando elas estão atrasadas e quero apressá-las. — diz segurando meu braço.

— Então você também está indo ao shopping?

— Nossa, você acabou de chegar e já quer me excluir dos passeios em família, é isso mesmo? – ele brinca soltando meu braço como birra, mas eu estava despreparada e acabo caindo. – Caramba, foi mal. – ele fala sério, porém rindo.

— E você já quer me excluir do grupo de pessoas que andam? – brinco e me levanto. Pego meu celular na penteadeira e passo por ele apagando a luz do meu quarto e de novo sinto aquele perfume.

****

No caminho de volta do shopping, paramos em uma sorveteria. Cada um faz seu pedido e aproveito para perguntar os sabores favoritos de cada um, o que faz Nick revirar os olhos e me olhar com uma cara de “sério?” e Mônica se empolga completamente e começa a tagarelar sobre o assunto. Realmente começo a entender o que meu pai disse sobre ambos serem bem diferentes.

Choveu enquanto estávamos no shopping, e quando estamos caminhando de volta para o carro, um ônibus passa por nós e espirra um pouco de água em todos, mas joga uma cachoeira em mim, por ser a que estava mais na ponta da calçada. Nick e meu pai não demoram um segundo para começar a rir.

— Ai, meu Deus, Chris, você tá bem? – Mônica logo trata de se preocupar

— Eu tô bem, dentro do possível. – respondo limpando um pouco de água da minha bochecha direita.

— Bem molhada. — Nick diz para começar a gargalhar de novo, colocando uma mão sobre a barriga.

— Desculpa estragar a piada, mas ela ainda vai no seu carro, rapaz. — Mônica alfineta. Ele para de rir na hora.

— Ah mas não vai mesmo, não desse jeito, no meu banco, não!

— Sem stress, temos uma capa de chuva aqui em algum lugar — meu pai estabelece a paz enquanto procura algo no porta-luvas. Nick me encara e dá um sorrisinho idiota. — Aqui, Chris. — até meu pai está sorrindo. Que incrível primeiro dia!

Visto o plástico e me sento no carro. Ainda bem que eu tinha esquecido meu celular aqui dentro. Vez ou outra, escuto um riso curto de Nick ou do meu pai. Assim que chegamos, vou direto pro chuveiro. Tenho que lavar meu cabelo que estava muito bom hoje de manhã, mas fico com preguiça de secá-lo de novo. Desço as escadas com a toalha enrolada na cabeça e vejo que meu pai e Mônica estão abraçados embaixo de cobertas no sofá assistindo a um filme romântico qualquer. Pego algumas batatinhas na despensa e como encostada no balcão. Nick aparece para buscar algum salgadinho também, mas não fala nada. Quando finalmente me olha, brinco:

— Devo ser a garota mais bem limpa da terra. Foram três banhos, só hoje.

Ele dá uma risadinha, e sobe. Depois de um tempo faço o mesmo. Assim que escovo os dentes e me jogo na cama nem tenho muito tempo para pensar que meu cabelo não está completamente seco, apenas desmaio de cansaço pelo dia.

No dia seguinte

POV Christina

Acordo mais cedo que todos na casa, talvez por ansiedade, talvez por costume. No internato o café da manhã era servido das 6h às 7h30, e o refeitório era a alguns metros do Dormitório. Então já dá pra imaginar o horário em que eu estava de pé. Aproveito meu momento a sós na cozinha pra descobrir o que cada porta e cada gaveta têm. Nunca imaginei que uma das minhas maiores dificuldades ao chegar na casa do meu pai seria ter que adivinhar onde estão os garfos, ou entrar em uma batalha interna para chutar qual prateleira teria os copos. Tenho quase certeza de que pela tarde eu já terei esquecido metade das coisas que tentei memorizar agora, mas como moro aqui agora, em poucos dias espero já estar familiarizada. Pego uma geleia de morango caseira que Mônica fez um pouco antes de eu chegar e passo em algumas torradas. Levo meu prato e meu copo com suco de caixinha (já que ligar o liquidificador iria acordar a todos) pra área da frente. Sento-me em um sofá velho, que eles provavelmente descartaram da sala de estar ao fazerem a mudança, mas viram bom proveito em colocá-lo ali, e devo dizer que concordo. Como silenciosamente, apenas com o som das torradas se rachando a cada mordida e meus pensamentos sendo tomados pelas lembranças. Normalmente, a maior parte delas seria da minha mãe. Mas como tive uma virada e tanto na vida esses dias, é mais fácil lembrar-me do que eu estaria fazendo a essa hora lá no internato. Dou uma espichada para olhar pela porta e enxergar o relógio analógico em cima da mesinha de centro. 8h13. Se eu ainda estivesse estudando, estaria na aula, isso é óbvio. Mas eu morei alguns meses lá mesmo depois de formada, então alguns hábitos foram criados. Talvez eu estivesse no complexo esportivo, jogando tênis com algum dos monitores que estivesse desocupado. Ou na biblioteca, raramente lendo e geralmente conversando com Michelle, uma amiga que também já estava formada, há mais tempo do que eu, inclusive, mas que continuava por lá. Porém hoje, eu estava ali, sentada num sofá surrado, em frente a uma casa da qual faço parte agora, sonhando com meu futuro.

****

Não saberia dizer em que momento do meu desjejum improvisado acabei pegando no sono, mas cá estava eu, sendo acordada pela Mônica.

— Oi, querida. Quando você veio pra cá? Não passou a noite, né?

— Não, não mesmo. Era umas oito quando desci. Que horas são agora?

— Dez e meia. Vou começar a preparar o almoço, pode me ajudar se quiser. – Seu convite acaba me levanto a comentar um assunto que pensei ter mais tempo para confessar.

— Ah, claro. Só tem um probleminha. Eu não sei cozinhar. – evito olhar pra ela pra não perceber se ela estiver desapontada. Afinal, todos esperam que uma garota de 18 anos já saiba cozinhar. Na verdade, qualquer pessoa com a minha idade já consegue se virar na cozinha. Mas como meus últimos 4 anos foram passados em um lugar onde a comida era servida em um balcão, digamos que não tenho muito dessa noção gastronômica.

— Isso não é um problema, querida. Você pode aprender aos poucos. Além disso, é sempre bom ter alguém pra provar os molhos e me dizer se está bom ou não de sal. – Ela pisca e sorri. Isso realmente me tranquiliza, o fato de ela ser tão compreensiva.

Entramos e começamos a fazer uma torta de palmito, e conversamos quase mais do que cozinhamos, pra ser sincera. Apesar de minha primeira impressão da Mônica ter sido um pouco demais, agora estou gostando do exagero dela em ser receptiva, até porque eu não tenho a maior facilidade do mundo em me entrosar. O jeito dela simples de me tratar me faz pensar que meu pai realmente deve ser uma boa pessoa, pra ter escolhido tão bem. Enquanto a torta assa, fazemos o básico arroz e o típico feijão, o qual eu quase deixei queimar. Eu faço um suco de goiaba, mais para me sentir útil naquela refeição do que pra termos o que beber, porque havia vários iguais aos que eu abri de manhã na despensa. De qualquer forma, meu pai elogia o suco assim que toma uma golada antes mesmo de fazer seu prato.

— Hum, estava mesmo morrendo de sede. Isso aqui está muito bom. O que achou, Nick? – ele pergunta para o rapaz que acaba de entrar na cozinha e está servindo-se do suco.

Após tomar um gole e fazer uma expressão de análise, ele diz:

— É, dá pro gasto. – Por um momento fico enrijecida, já que ele parecia estar de bom humor ontem quando fomos dormir, até que percebo um sorrisinho de canto no rosto dele, mesmo virado de lado, tentando ver se eu morderia a isca.

— Ei, da próxima vez você que faça, então, seu folgado. – Rebato fingindo ter me sentido ofendida. Ele ri e admite que estava bom, sim.

Mais uma vez almoçamos nós dois na cozinha, e meu pai e Mônica sentados no sofá da sala. Apesar da pequena interação antes de nos servirmos, durante a refeição ele não fala mais nada. Não insisto, pois sei que deve estar sendo estranho pra ele também, eu ter chegado assim, de supetão. É só que eu nunca fui acostumada a tanto silêncio durante a comida. No internato, todas as minhas amigas e eu nos sentávamos em uma mesa com lugar pra umas 15 pessoas. Não chegávamos a enchê-la, mas nem era necessário, pois todas conversavam com todas. Aproveitávamos esses momentos depois da escola e antes do horário de estudos e atividades extracurriculares para comentar tudo que tinha acontecido durante as primeiras 5 horas do dia. Era bem divertido. Uma das coisas que percebo que estão fazendo mais falta pra mim. Dessa vez eu acabo primeiro, provavelmente porque belisquei tanto quando Mônica e eu estávamos preparando que perdi um pouco da fome. Depois de deixar meu prato na máquina, penso duas vezes antes de perguntar a Nick:

— Quer que eu espere você acabar?

Ele faz que não com a cabeça, porque está com a boca cheia. Depois de terminar de mastigar, diz:

— Relaxa, isso aqui não é o quinto ano. – E me dá uma olhada como se eu fosse uma pessoas de outro mundo. Reviro os olhos.

— Eu sei, senhor sabedoria, só estava querendo ser gentil. – Coloca uma das mãos na cintura.

— Nesse caso, doce Christina, meu muito obrigado. – Ele satiriza sorrindo de leve ao levar outra garfada à boca.

— Por nada. – rio e saio da cozinha.

Passo por meu pai e Mônica, que dessa vez não estão aos beijos, e sim concentrados no telejornal e subo para o meu quarto, pra terminar de desencaixotar umas coisas. Depois de uns 20 minutos, acabo encontrando um porta retratos com uma fotografia da minha mãe. Observo-a, me sentando na cama. Essa foi antes do incidente. Ela estava com os olhos quase fechados por causa do sol, mas seu sorriso que pendia mais para a direita continuava o mesmo. Os mesmo olhos cor de mel. E o mesmo cabelo preto comprido, que nessa foto aparentava estar molhado. Acho que eu devia ter uns 5 anos nessa época, porque me lembro de ela tê-lo cortado quando eu tinha 7. Quando alguém bate à porta, coloco o porta retratos virado pra baixo de repente, e meu coração acelera como se tivesse levado um susto. Talvez inconscientemente, não quisesse admitir que sentia a falta dela. Felizmente Mônica não parece perceber minha atitude e entra sorridente como sempre, seguida de meu pai.

— Oi Chris, desculpe interromper sua arrumação, mas seu pai tem uma boa notícia para te dar. – Ela olha pra ele, mostrando a deixa. Minha cara beirava a curiosidade e a descofiança ao mesmo tempo.

— É, eu tenho. A Mônica me contou o que você disse hoje de manhã e eu achei uma boa ideia. Mesmo. – meu corpo relaxa ao lembrar que comentei com ela sobre meu interesse em frequentar aulas de pintura. – Então podemos visitar o centro de artes amanhã e ver se algum lugar tem vagas, eu não sei direito como funciona a matrícula pra essas coisas. – Ele ri. – Se você quiser, claro.

— Sim, sim, eu quero, sim. – Sorrio. – Obrigada. – e estendo minhas mãos aos dois. Mônica dá uma piscadinha e meu pai continua com seu sorriso dentro do normal.

— Bom, que ótimo. Vamos deixar você terminar agora. Na verdade, vamos dar uma saidinha, temos uma consulta no oftalmologista, — ele olha de canto de olho para Mônica – então se precisar de alguma coisa, pode nos ligar, ok?

— Nick vai ficar aí também, pode falar com ele se acontecer qualquer coisa. – Mônica complementa.

— Ah, tranquilo. Boa consulta. – Sorrio e eles saem.

Continuo arrumando as coisas e depois de achar que já fiquei tempo suficiente fazendo isso hoje, decido ir para o sofá de hoje de manhã. Infelizmente não tenho nenhum livro novo pra ler, então fico apenas na companhia do Spotify. Observo algumas abelhas que estão rondando as flores que crescem perto do caminho de pedras que faz o acesso da calçada até a casa. Mas não parece ser suficiente. Preciso bater perna. Decido dar uma volta pela vizinhança, e levo meu celular para no caso de me perder, poder usar pra pesquisar. Fico pensando se deveria avisar o Nick sobre isso, e mesmo sem ter total certeza, subo as escadas e bato no quarto dele.

— Entra! – ele grita de dentro e então eu coloco a cabeça pra dentro.

— Oi! – digo um pouco animada demais, insegura se devo abrir a porta por completo ou não. Ele está deitado na cama, com um notebook em cima do colo. Está sem camisa, e provavelmente com um samba canção por baixo, mas realmente não fico olhando pra isso. – Então, eu vou dar uma volta por aí. Tipo, no quarteirão. Sabe, só pra ver o bairro.

— Tá. – uma pausa. — Quer que eu vá com você?

— Não! Tipo, não.- olho pra ele contrariada.

— Ok, então.

— Quer dizer, você pode ir se você quiser, é lógico. Eu não vou tipo, te proibir. Mas não era isso o que eu queria dizer.

— Então o que era? – ele pergunta, aparentemente se divertindo com minha confusão.

— Ué, era o que era. Vou dar uma volta no quarteirão. Ponto.

— Tá, mas se veio dizer isso pra mim... – ele me olha como se eu devesse continuar a frase, insinuando que eu quis convidá-lo.

— Olha, não foi isso, tá? – começo a me arrepender de ter vindo.

— Então por que veio?

— Sei lá, eu só achei melhor avisar. Só isso.

— Ok. Assim se um psicopata te pegar, eu vou poder dizer aos CSI’s que a última vez que te vi, você disse que ia dar uma volta no quarteirão. Combinado. – ele tira uma com a minha cara. O que ele diz me deixa um pouco desconfortável, mas tento não mostrar.

— Tá, que seja. – reviro os olhos antes de fechar a porta.

— Tchau! – ele grita assim que fecho a porta. Acabo rindo, mas não me dou ao trabalho de responder. Desço as escadas e começo a virar as ruas aos pares, pra ficar mais fácil de lembrar quando estiver voltando. Não tenho certeza se vai funcionar, mas Waze tá aí pra isso, né? Depois de várias voltas, vejo um pracinha que não sabia existir. Desço até lá, onde há alguns rapazes jogando basquete em uma quadra mais ou menos rodeada por uma grade de arame não muito firme. Me sento embaixo de uma árvore e coloco os fones, voltando ao Spotify, Dessa eu imaginei estar satisfeita com a volta e que isso garantiria que eu ficasse por um tempo assim, mas uma lambida me fez dar um pulo.

— Deus do céu. – jogo meus fones pra longe enquanto me afasto tentando ver o que foi aquilo. Aacalmo do susto quando vejo um filhote vindo na minha direção. Ele sobe no meu colo, e não proíbo já que ele não parece ter sarna ou carrapatos. Acabo brincando com ele durante um tempo, até que decido estar na hora de voltar. Recolho meus fones e meu celular e começo a voltar pra casa. O cachorrinho vai até um senhor sentado em um banco de cimento e começa a se entreter com ele. Com sorte, pareço estar conseguindo me lembrar do caminho de volta com facilidade. Sinto o som de passos atrás de mim, e isso imediatamente acelera meu coração de uma forma desnecessária. Mas parece que algumas coisas nunca irão nos abandonar por completo. Muito receosa, viro e mais uma vez relaxo quando vejo o mesmo filhote.

— Cara, você realmente tem que parar de fazer isso. – Digo levanto as mãos à testa, e secando um suor. – Vai embora, eu não sou sua dona, não. – O animal não se move e começa a latir pra mim. – Ei, para com isso! Aqui! Pega! – Jogo um graveto pra ele, que vai atrás, provavelmente achando que fosse comida e volta tão logo percebe que está enganado. Me olha com uma cara de pidão. – Não dá, não. A casa nem é minha. – Cruzo os braços e fico olhando pra ele. Depois de alguns segundos, um clarão, e em seguida, um trovão. Olho pro céu e percebo várias nuvens escuras. – Bom, talvez você possa se esconder da chuva só essa noite, o que acha? – Percebo que estou bancando a idiota falando com o cachorro no meio da rua quando uma senhora olha pra mim de forma estranha e sorri assim que a encaro, então volto a fazer meu caminho e ele naturalmente me segue. Assim que chegamos em casa e me certifico de que ninguém pode me ver, falo com ele mais uma vez, agachando e acariciando sua cabeça:

— Vamos ver o que o Nick acha de você.

Notas finais
:)