Belo Vestido

4 Parte I - Capítulo 4


Notas iniciais
Olá gente, uma coisa muito importante! Eu editei a história e diminui a quantidade de capítulos! Mas o que estava escrito foi mantido. Fiz isso para evitar capítulos muito pequenos, como eu achei que estavam ficando. Então agora vou me dedicar a postar capítulos maiores. Pra isso, eu peguei os 6 capítulos e transformei em 3, e peguei o capítulo que tinha acabado de escrever e juntei com o sétimo. Então a primeira parte desse capítulo já foi lida por alguns. Peço desculpa pelo transtorno, mas realmente acredito que isso vai melhorar a qualidade da história! Beijosss.

POV Christina

— Ok, primeiro de tudo, isso não é um filhote. – Nick diz de forma incisiva enquanto encara o cachorrinho. Foi um pouco difícil tomar coragem de bater à porta dele pela segunda vez, mas dizer que eu tinha sido seguida por um cachorro até em casa foi o suficiente pra ele levantar da cama e me levar a sério pela primeira vez desde que cheguei.

— Como não? Olha só pra ele, todo pequenininho.

— Exatamente. Ele é só um cachorro pequeno. – Ele se abaixa e dá uma olhada nos dentes do bichinho. – Você realmente não percebeu que ele estava te seguindo até abrir a porta e vê-lo correr pra dentro da sala? – Ele parece duvidar um pouco da história que contei. É claro que eu não poderia admitir que o havia guiado discretamente até aqui, seria muita ousadia pra uma recém chegada à casa. Apenas dou de ombros, sem muita estratégia pra tentar convencê-lo disso. – Olha, sinto muito informar, mas ele vai ter que te seguir de novo pra longe daqui.

— Por quê?! Você achou alguma doença nele? Mesmo se ele tiver, é só tratar...

— Não, nem é isso. Ele até que está bem pra um cachorro de rua. Mas não vamos ficar com ele, só isso. – Ele cruza os braços, dando o ultimato. Pelo menos ele pensa que está dando. Nesse mesmo momento, outro trovão ensurdecedor aparece por ali.

— E desde quando isso já estava decidido? Você pode dar a ele o benefício da dúvida, até meu pai e sua mãe voltarem e dizerem se ele pode ficar.

— Christina, não é assim que funciona. Você não pode sair pegando todos os vira-latas que você vê na rua e querer transformá-los em pets. – A chuva começa a cair em chuviscos.

— E você não pode jogá-los pra uma tempestade. – Aponto pra fora da varanda, onde as gotas começam a ficar mais encorpadas.

— Tempestade?! – Ele ri. – Isso aí é só uma chuva de verão, daqui a pouco vai ter passado, assim como sua obsessão por esse cachorro. – Ele entra e deixa a porta aberta. Suspiro.

— Eu vou esperar eles chegarem de qualquer jeito! – grito, mas sem a certeza de que ele tenha me ouvido.

Eu e o cachorro nos sentamos no chão de madeira maciça da qual é feita a varanda. Na verdade, eu me sento e o cachorro deita a cabeça nas minhas pernas. Como Nick consegue dizer não a uma coisinha dessas?

A chuva realmente engrossa e aumenta de volume. As gotas que caem a mais ou menos um metro de mim são trazidas pela ventania e começam a me alcançar. “Só uma chuva de verão, é?” Decido entrar e trazer alguma coisa pro animal comer, e assim que entro na cozinha, ouço um barulho imenso e a luz se apaga. Tateio até a geladeira e a abro, apenas confirmando que a energia caiu e não que a luz queimou quando percebo que a lâmpada dela também não acende. Ok, e agora? Lembro de ter visto um pacote de velas em uma prateleira alta do armário. Consigo abrir a janela pra ter mais luz, mas como ela fica virada para a garagem, que no momento está fechada, não adianta muita coisa. Ótimo. Um pouco desajeitada, subo no balcão de mármore que fica em baixo dos armários, torcendo pra que ele seja resistente. Abro as portas e apalpo várias latas e caixas antes de encontrar o plástico com as velas dentro. Uma das latas, não saberia dizer se de ervilhas ou milho com essa escuridão, cai bem perto do meu pé. Agradeço aos céus por não ter machucado algum dedo e por ter encontrado as velas. Agora só faltava achar os fósforos, penso enquanto me abaixo para descer.

— O que você tá fazendo aí? – Levo um susto ao ouvir a voz de Nick vindo de algum lugar à minha esquerda, e ao me virar, meu joelho escorrega e vou em direção ao chão.

POV Nick

Eu estava vendo ESPN. Assim que minha TV desligou ao mesmo tempo em que a vi a luz do corredor se apagar, percebi que estava errado sobre a chuva de verão. A energia tinha caído, e pensei na garota e no cachorro, que ficaram do lado de fora da última vez que os vi. E se ela tivesse realmente seguido o que eu sugeri e levado o cachorro de volta pra praça? Qualquer uma das muitas árvores que existem lá poderia atrair um raio. Instintivamente, pulei da cama e coloquei a primeira camiseta que vi pela frente, e desci as escadas com certa urgência. Quando passava pela sala, vi a porta aberta e o cachorro parado exatamente no vão. Ele não parecia estar molhado. Ouvi um barulho metálico vindo da cozinha e corri pra lá. Na penumbra, pude ver uma moça que só podia ser Christina ajoelhando-se no balcão, e perguntei:

— O que você ta fazendo aí? – Ela solta um grito curto antes de se desequilibrar e vejo que ela inevitavelmente vai ir parar no chão.

Corro na direção dela, mas não consigo apará-la por completo a tempo. Eu estava a mais ou menos um metro e meio dela, mas pelo menos tenho tempo de agarrar seu braço direito impedindo que ela bata no piso. Ela fica suspensa, e antes que eu possa colocá-la em pé, com a outra mão ela me estapeia.

— Me solta, Nick! – Mesmo confuso, obedeço e lentamente a deixo deitar-se no chão.

— Tá bem? – Agacho e tento enxergar seu rosto, sem muito sucesso.

— Bem? Eu quase quebrei uns ossos por sua causa! – Ela diz claramente exagerando enquanto massageia a parte do braço em que eu segurei. – Isso não é jeito de aparecer.

— Foi mal, mas você não quebrou esses ossos por minha causa também. – Me defendo de forma humorada sentando ao lado dela e encostando-me no balcão.

— Nem toda hora é hora de brincar, Nick. – Dessa vez ela realmente parece estar falando sério. Fico em silêncio, sem saber o que dizer exatamente o que dizer. – Tá doendo? – pergunto me referindo ao antebraço.

POV Christina

Balanço com a cabeça para os lados quando ele me pergunta se está doendo, então percebo que ele não deve conseguir ver e sussurro um “mais ou menos”.

— Espera um pouco. – Ele apalpa o chão procurando alguma das velas, e eu chuto duas na direção dele. – Valeu. – Ele se levanta e abre uma gaveta tirando um isqueiro de lá. Acende a vela e deixa a parafina pingar em um prato. Assim que posiciona a vela no centro, se vira e me estende a mão. – Vamos dar uma olhada nisso aí.

Aceito a ajuda pra levantar e quase me arrependo de ter saído do chão quando sinto uma dor no joelho.

— Vish... – Solto um gemido de dor e tiro o pé direito no chão.

— Que foi? – Nick pergunta sem soltar meu braço.

— Ah, acho que deu mau jeito no meu joelho. – Solto um suspiro de frustração.

— Tá. Consegue ir até o sofá da sala? – Ele me dá espaço para passar, o que tento fazer, mas depois de quatro pulinhos, me apoio no balcão novamente. – Peraí. – Ele para do meu lado e com a própria mão, ergue meu braço e o passa ao redor de seu pescoço. Por instinto, me esquivo e acabo batendo o cotovelo no ombro dele, que me olha um pouco surpreso. – Vou te ajudar. – Ele olha em meus olhos como se pedisse permissão e repete o gesto. Quando sua mão direita vai até minha cintura e a outra segura meu pulso, me vejo tentando identificar seu perfume mais uma vez. Nessa posição, andamos de uma maneira atrapalhada até o sofá, onde ele me deixa sentar, mas quando meu braço dá a volta pelo seu pescoço, a manga da camiseta enrosca no meu relógio e ele é puxado pelo movimento do meu braço na direção do sofá. Antes que nossas cabeças se choquem, ele apoia as mãos no encosto do sofá, cada uma de um lado dos meus ombros.

POV Nick

Apesar de parecer assustada quando quase caí em cima dela, ela não recua ao perceber a proximidade dos nossos rostos. Pela primeira vez desde que cheguei, ela mantém um contato visual maior que 3 segundos, . Reparo que seus olhos são claros, mas não consigo discernir entre verde e azul por causa da pouca luz. Ela parece ter marcas de acne, mais do lado direito do que do esquerdo. Sinto a respiração dela alcançar meu queixo e o cheiro de menta que seu hálito tem. Quando o tempo que passamos assim já começa a ficar estranho, limpo a garganta para dizer:

— Se você puder me soltar, eu posso sair de cima de você. – Sorrio de lado, brincando com a situação. Ela leva os olhos até o próprio pulso e com a outra mão puxa o relógio, tomando cuidado para não rasgar minha camiseta.

— Voilà! – Ela diz assim que consegue separar o objeto do tecido.

Fico em pé, olhando para o joelho dela.

— O que precisa fazer? Ir ao médico de joelho? – Tiro sarro.

— Não, o médico de joelho não precisa ser incomodado. Eu já tenho um pequeno probleminha na articulação. Às vezes, alguns movimentos fazem doer de novo. É só eu relaxá-lo que volta ao normal. – Explica.

— Hum.

POV Christina

Ficamos em silêncio por um tempo, nenhum dos dois com assunto pra puxar. Na realidade, tê-lo tão perto me desconcertou um tanto. Um pouco porque seu perfume provou estar lá, admito. Mas o que mais me preocupou foi que ele conseguisse vê-las ao esquadrinhar meu rosto. Pra minha sorte, imagino que a falta de luz tenha impedido isso. Ambos levamos um susto, no meu caso o segundo, quando o cachorro late pra nós.

— Meu Deus, essa coisas ainda tá aqui. – Ele comenta e me encara como se eu fosse a culpada disso.

— Eu disse que vinha uma tempestade, não disse? Bichos não são burros.

— É, estou vendo. Então... – Ele se senta no braço do sofá. – Como pretende convencer os dois a deixar esse aí?

— Na verdade eu espero não precisar convencer. Acho que o charme será suficiente.

— Charme de quem?

— Ah, eu estava querendo dizer o dele, mas sua dúvida me faz pensar que talvez também possa usar o meu. – Aproveito a brecha para fazer uma brincadeira.

Ele ri e abaixa a cabeça como se negasse ter ouvido aquilo.

— Boa sorte com isso. – Diz antes de se levantar e ir até a cozinha. Nesse momento, a luz pisca com força, e após um barulho, todos os eletrodomésticos voltam a funcionar. A energia está de volta. Ele faz algum som de comemoração, e em seguida volta à sala com um pacote de gelo que joga em minha direção. Alguns pingos de água voam em meu rosto graças a isso, e concluo que ele não é um rapaz exatamente calculista.

— Eu não entendo muito de lesões e essas coisas, mas pra toda dor que eu tenho, gelo costuma funcionar. – Dá de ombros. Eu concordo com a cabeça e estico a perna com um pouco de esforço até apoiar meu pé na mesa de centro e coloca o gelo sobre meu joelho. Ele se senta ao meu lado e liga a TV em um canal esportivo, sem perguntar se eu gosto de assistir. Minha sorte é que eu gosto, sim.

No dia seguinte

POV Christina

Para minha felicidade, quando Pat e Mônica chegaram em casa ontem, ela de imediato se apaixonou pelo cãozinho, e meu pai não disse não ver motivos contrários. É claro que isso me rendeu um sorriso de triunfo e fez Nick revirar os olhos em resposta.

Felizmente, ninguém percebeu o hematoma que acabou ficando no meu braço, onde Nick apertou nem repararam que eu estava mancando de forma muito sutil. Pude ficar no meu quarto em repouso depois disso, assistindo vídeos engraçados no YouTube. Acabei fazendo isso até tarde da noite, então hoje não tomei café da manhã, já que quando acordei Mônica já estava fazendo o almoço. Ajudei-a com o arroz, dessa vez, e meu pai disse que estava nada mal. Nick apenas comeu em silêncio, então imagino que tenha gostado, porque pelo menos não reclamou nem deixou o arroz no prato.

Logo depois do almoço, subi para me arrumar. Meu pai disse que por volta das duas da tarde iríamos ver o local do Ateliê. E se eu gostasse, já faria minha primeira aula. Admito estar um pouco mais empolgada que o normal pra isso. Eu nunca fui muito de desenhar ou pintar, então também estou um pouco receosa de não ter talento nenhum. Mas como não vou começar a faculdade ainda esse ano, e talvez nem no próximo, porque ainda não sei o que quero fazer, é bom ter alguma coisa para me dedicar e sentir que não estou desperdiçando minha vida. Tenho que colocar um casaco por cima da blusa, pra esconder a marca no braço. Não sei se meu pai implicaria com o fato de eu ter ganhado um roxo após ficar sozinha com Nick. Talvez isso o fizesse pensar que ele é violento, ou alguma coisa bem bizarra, então apenas tomo conta pra que ele não veja.

— Chris? – Meu pai bate na porta apesar de já ter colocado a cabeça pra dentro. – Pronta?

— Sim. – Respondo me levantando e pegando carteira e celular.

Descemos e ambos nos despedimos de Mônica, que está na sala quando passamos.

— Boa sorte! – Ela deseja.

Durante o trajeto, meu pai comenta sobre as recomendações que o lugar recebeu em convenções artísticas de anos anteriores, e que felizmente havia sobrado uma vaga, que eu poderia ocupar.

Assim que entramos na rua já pude reconhecer o lugar. Não porque eu já soubesse como era, mas a pintura de cor vinho e branca cheia de janelas que se erguia por quatro andares no meio do quarteirão parecia ser obviamente o tal Ateliê. Trancamos o carro e fomos entrando pela porta de madeira pela qual duas Christinas empilhadas passariam ao lado de mais cinco pares. O Hall de entrada era de estrutura clássica, com pilastras moldadas e esculpidas em mármore. No teto havia uma réplica da pintura de Michelangelo na Capela Sistina, e no chão, vários desenhos de aspecto infantil. Caminhei até uma parede com várias telas onde se viam elementos metalinguísticos. Uma pintura de um pincel, outra de uma paleta, seguida por uma de um cavalete.

— Olá, sejam bem vindos! – Uma moça de cabelos castanhos bem curtos e um lenço alaranjado no pescoço aparece de braços estendidos a nós. – Fique tranquila, você terá muito tempo pra olhá-las. – Ela se dirige a mim apontando as telas na parede. Faço que sim com a cabeça e sorrio.

— Boa tarde, eu sou Patrick. – Meu pai estende a mão e a cumprimenta.

— Valerie. – Ela diz com um sorriso.

— Christina. – É minha vez de cumprimentá-la.

— Vamos lá? – Ela nos guia por um corredor à esquerda de onde entramos. Todas as portas são brancas, e passamos por duas até entrarmos na terceira. Em oposto à porta, no lugar de uma parede há uma janela de fora a fora. Provavelmente uma das que eu vi quando estava no carro. Nessa sala há um tipo de mostruário desde aventais, luvas e pincéis até tintas, telas e molduras. Valerie explica como funciona a disponibilidade de materiais durante as aulas. Existem as pinturas obrigatórias que são passadas pelos instrutores, mas os alunos podem passar quanto tempo quiserem nas salas adjacentes fora de seu horário pintando livremente. Nesse caso, ele pode usar os materiais em certa quantidade. Há um tipo de crédito para cada pintor obter novos objetos. Ela também me passa todos os horários e estilos de pintura que eu posso escolher trabalhar, e segundo minha preferência, o instrutor irá me introduzir. Depois subimos um lance de escadas para assistir a alguns minutos de uma sessão. Não há idade estipulada para a formação de classes, Valerie explica, só depende da disponibilidade de vagas. Mas aquela turma que estamos acompanhando só tem senhoras, praticamente. Isso é porque essas mulheres frequentam o mesmo médico clínico, e por serem amigas decidiram fazer o mesmo tipo de terapia, no mesmo Ateliê e no mesmo horário.

Eu observo outros funcionários passando pelo corredor e subindo a escadas quando estamos descendo de volta à recepção. Parece ser um lugar com muita qualidade realmente. Não consigo evitar pensar no preço que meu pai vai pagar aqui. Fico me convencendo de que para ele, o aspecto financeiro é mais fácil do que era para minha mãe e eu. Entramos na sala da secretaria, e Valerie nos conduz até uma mesa, nos entrega os papéis e quando se afasta para que possamos conversar, ele pergunta:

— E aí, o que achou?

— Eu gostei. Gostei mesmo.

— Eu também. Parece que eles têm um bom sistema. – Ele coloca os óculos e lê o formulário de matrícula.

— Sim... Por mim, está certo.

— Que bom. – Ele sorri e então assina nos três lugares requeridos. Levantamos-nos e saímos da sala. Valerie está encostada no balcão, conversando com o recepcionista sobre a posição de algum vaso de flores. Assim que nos vê, ela pede licença e caminha até nós, recolhendo os papéis e fazendo sua própria assinatura.

— Muito bem. Muito obrigada pela sua confiança, senhor Codillard. – Reparo que é estranho ouvir alguém chamando meu pai pelo sobrenome, principalmente porque, apesar de tê-lo também, eu sempre usava o sobrenome de solteira da minha mãe, Olly. – Pronta pra sua primeira aula? – Ela me pergunta sorridente. Ela é muito sorridente.

— Estou, sim.

— Eu tenho que passar no escritório agora. Pedi pra Nick buscar você. Já está tudo combinado, mas só por precaução, vou te passar o número dele.

Ele dita a sequência e eu registro no meu celular. Despeço-me dele com um abraço e Valerie me conduz até minha sala no terceiro andar: 21B. Inevitavelmente isso me faz lembrar de Sherlock.

Notas finais
:)